Contágio, por Walnice Nogueira Galvão

Prepare-se para levar um susto e ver o filme inteiro apavorado, porque não parece ficção mas sim um relatório sobre a pandemia do coronavirus, uma espécie de Journal of the Plague Year como o que Daniel Defoe escreveu há séculos.

Contágio

por Walnice Nogueira Galvão

Se você não é chegado a filmes pós-apocalípticos ou distópicos, com epidemias, mortos-vivos, vampiros, achando tudo isso muito infantil, bom para crianças, provavelmente não viu Contágio (2011). Pois agora o filme dirigido por Steven Soderbergh está sendo reprisado, para aproveitar a onda da pandemia, e  é difícil resistir.

Prepare-se para levar um susto e ver o filme inteiro apavorado, porque não parece ficção mas sim um relatório sobre a pandemia do coronavirus, uma espécie de Journal of the Plague Year como o que Daniel Defoe escreveu há séculos. Até a doença no filme é uma espécie de gripe que ataca os pulmões, com febre e sintomas dessa ordem.

Começa com Gwyneth Paltrow em Minneapolis, levada por seu marido Matt Damon, dando entrada na emergência do hospital juntamente com o filho pequeno. Em poucas horas mãe e filho morrem, deixando o marido e pai atordoado, pois todos pensavam ser apenas um problema respiratório, bastava ficar algum tempo no respirador e pronto. A filha aguarda-o em casa e ambos serão o fio condutor da narrativa.

A investigação subsequente descobre um vídeo da mãe, que voltava de uma viagem de trabalho, jogando nos cassinos de Hong Kong até pegar o avião, comendo, bebendo e confraternizando em ambiente apinhado de gente. Ela será a paciente zero dos Estados Unidos: ao fazer baldeação em Chicago encontra um amigo, e esta cidade também será foco.

Vemos então o confinamento obrigatório no país todo, o pânico crescente, os saques, as filas na farmácia para comprar remédios inócuos e que mesmo assim geram tumulto entre os que esperam etc. Como linha paralela, há o blogueiro inescrupuloso vivido por Jude Law, de olho na celebridade e no lucro, disseminando a balela de que a planta forsítia debela a peste. Ele vai à televisão para testemunhar com o maior cinismo que teve a doença e foi curado pela planta, o que é mentira. Como se sabe, uma vacina leva meses, às vezes um ano, para ser desenvolvida. O filme mostra as filas nas farmácias para buscar forsítia, que degeneram em pancadaria e quebra-quebra.

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Enquanto isso, médicos e enfermeiros dedicadíssimos cuidam dos doentes e com frequência perdem a vida. Mas também há um médico revelando segredos de Estado  para a namorada que mora longe e trazendo-a de carro a seu encontro, infringindo a proibição, utilizando informação privilegiada.

Meses depois, numa terra arrasada, as cidades saqueadas e vandalizadas, vê-se que pai e filha sobreviveram,  mas se tornaram sem-teto. E, numa rápida montagem final, examina-se a origem da peste. Um trator da empresa em que a mãe trabalhava derruba uma mata em que há bananeiras, provocando uma revoada de morcegos que ali viviam. Os morcegos atacam um cacho da fruta, sobrevoam chiqueiros onde se criam porcos para consumo e deixam cair restos de banana; depois, os leitões são abatidos e consumidos. Foi o que já aconteceu no caso da Aids, da Sars e do Ebola, entre outros. Os negócios avançam, desmatando e reduzindo as florestas. Os animais, hospedeiros indenes dos virus, perdem seu habitat, com o que os virus saltam para os seres humanos. Ora, esse encontro é novidade e os seres humanos, ao contrário dos hospedeiros naturais, não têm imunidade. Até nisso o filme é profético. Datado de 2011, ou seja, de nove anos atrás,  daria tempo – para o que? Para que os negócios cessassem de desmatar? O avanço é inexorável, não há quem o detenha, e o resultado está aí. Mas o filme é assustador, porque parece um boletim do que está se passando dia por dia no mundo e dentro de casa.

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No filme, há outros astros que são médicos, a exemplo de Kate Winslet e Lawrence Fishbourne. Também Marion Cotillard vive uma médica, que  é  sequestrada por seus auxiliares chineses na China e levada para  a aldeia deles, com o fito de ser futuramente trocada contra prioridade no recebimento da vacina. Ela vive na aldeia por vários meses e é mesmo trocada por um fornecimento de vacina. Mas, quando sabe que as vacinas são falsas ou apenas um placebo, volta à aldeia para avisar.

Considere-se prevenido.  Se ainda assim quiser arriscar, o filme está sendo exibido nos canais HBO.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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1 comentário

  1. Depois que tú contou o file todo nos convida para assistir?

    Veja Inferno, baseado no livro de Dan Brown tem um pouco dessa referencia também, mas o vírus não chega a ser espalhado. É criado em laboratório por um ecologista fanático que só acredita na salvação do planeta se a humanidade for reduzida pela metade, como ele não consegue convencer a OMS da nobreza do seu projeto ele mesmo põe a mão na massa. Na Netflix.

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