De Poços de Caldas das Minas Gerais à Amazônia, por Rui Daher

Nunca entenderão o valor da biodiversidade em todo nosso território, e não apenas na Amazônia. Nem mesmo quando simplificamos: “Floresta em pé vale mais do que derrubada”.

Araquém Alcântara

De Poços de Caldas das Minas Gerais à Amazônia, por Rui Daher

(Para o GGN)

Preocupam-se o Regente Insano Primeiro e seus acólitos com o Sínodo da Amazônia, convocado pelo Papa Francisco, a ser realizado no mês de outubro, em Roma. Temem que os bispos para lá convocados disseminem conclusões que atentem contra a soberania brasileira na região. Diante de tudo o que temos visto, não fosse trágico, seria cômico. Donald Trump pode, mas o Papa não.

Confesso ser difícil para mentes pouco privilegiadas, como as que assessoram o Regente, nos Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Ministério do Meio Ambiente, Relações Exteriores, Agricultura e Pecuária, e Minas e Energia, entenderem a preocupação mundial com a devastação da Amazônia, praticada por brasileiros e permitida pelo atual governo.

Nunca entenderão o valor da biodiversidade em todo nosso território, e não apenas na Amazônia. Nem mesmo quando simplificamos: “Floresta em pé vale mais do que derrubada”.

No mês passado, foram-se quase 30 mil quilômetros quadrados do bioma. Não basta. Querem liberar áreas indígenas para pecuária e mineração, aquelas mais preservadas.

A biodiversidade poderia deixar lá bilhões de dólares em biotecnologia. Querem comparar isso a uma pecuária de baixa produtividade, com menos de uma cabeça de gado por hectare? Ou ao açaí que “em 2015, alcançou R$ 26 mil/hectare contra os R$ 3,2 mil da soja”? Estamos no século 18, como declarou Ricardo Abramovay, professor da USP, a Rodrigo Martins, da CartaCapital.

Mas isso tudo é coisa de comunistas, taoquei, Regente, Sílvio Santos e Edir Macedo?

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(Em CartaCapital, “No estranho Brasil de Jair Bolsonaro, a culpa é sempre do outro”, publicado em 4/9.

Estranho país este, onde o outro está sempre na berlinda. “Nós aqui somos ótimos, quem ferra tudo são eles lá”. Faz-me parecer só termos olhos para os próprios umbigos, que nem mesmo são específicos de uma área médica. Ou temos umbigologistas?

Difícil para nós, os brasileiros, reconhecer partes do corpo menos nobres, como por exemplo o ânus, de onde deveriam sair as fezes, dia sim dia não, como recentemente determinado pelo Regente Insano Primeiro.

Recentemente, matéria do “Globo Rural” (TV Globo), realizou matéria sobre as queimadas amazônicas. Focou de forma expressiva o Mato Grosso e os produtores de grãos e suas perdas.

Fiquei um pouco confuso, mas serviu-me para resgatar a história dos outros sempre culpados e daqueles que não têm umbigos. Diante da pergunta de como o fogo chegou, a cada depoimento, ouvíamos: “Ah, veio do vizinho. Algum descuido por lá”.

Que seja, devem ter sentido fauna, desamparada em suas fugas, e flora carbonizada. Afinal, foi apenas fogo na palhada que seria usada no plantio direto das lavouras.

Na agricultura rudimentar sempre se pensou as queimadas como benéficas na limpeza e preparo do solo para o plantio e na formação de pastagens. O fogo fazia mais fácil o árduo e custoso trabalho de abrir áreas, sobretudo em novas fronteiras.

Isso, existe até hoje, embora com menor intensidade. Problema é que nem sempre são feitos os devidos aceiros e não há acompanhamento humano ou tecnológico.

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Carvão, cinzas, extrato pirolenhoso, (líquido oriundo da condensação pós-queima de madeiras para produção de carvão vegetal), ainda representam algum benefício agronômico às plantas, contanto que adequadamente usados, e não em bota fogo desenfreado. Neste caso, perde-se a biodiversidade, muito mais valiosa, e se contribui para aumentar os gases do efeito estufa com repercussões no aquecimento global. Nada que interesse ao senhor Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, que desconhece tudo isso e mais Chico Mendes.

Muitos pioneiros da primeira metade do século 20, que mais tarde se tornaram capitães da então nascente indústria de fertilizantes, começaram vendendo cinzas para a adubação dos cafezais paulistas.

Hoje em dia, fundações, organizações não governamentais, e mesmo EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias) e IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), indicam restritos períodos do ano para a permissão de queimadas, ensinam como, onde e quando bem proceder para promover queimadas e utilizar as cinzas.

No tema, há um mau entendimento que deveria separar o que é manejo florestal de empresas madeireiras legais e certificadas em relação aos feitos para abertura de áreas agrícolas e pecuárias.

Segundo o IBGE, entre 2007 e 2017, o uso de floresta nativa para fins industriais e comerciais caiu pela metade, para 36 milhões de metros cúbicos, enquanto o de florestas plantadas cresceram 35%, para 217 milhões de m³, representando 86% do total. Formam assim, legalmente, importante setor da economia brasileira. Confundi-los com criminosos é equívoco terrível.

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Mas é, justamente, quando os “outros” e seus proeminentes umbigos, qual milícias encomendadas, invadem a Amazônia para amanhã garantirem seus futuros, e nós, abestados, batemos continência para um pele-laranja, servimo-nos de laranjas-Queiróz, e entregamos nossa soberania, como tontos a gritar: “ah, mas eles também fizeram, também fizeram, também fizeram … quem chegar por último é mulher de padre, ou de capitão”.

Inté.

 

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