Desemprego é o fracasso cruel do neoliberalismo brasileiro, por Andre Motta Araujo

O neoliberalismo vai destruir o próprio Estado onde esses economistas ganham dinheiro, embora boa parte não more mais no Brasil.

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Desemprego é o fracasso cruel do neoliberalismo brasileiro

por Andre Motta Araujo

Política econômica se avalia pelo saldo entre custos e resultados. Por esse critério, a política econômica neoliberal que veio no pacote do PLANO REAL foi um desastre histórico na trajetória do Brasil como nação. Nunca antes se viram tantos pobres, miseráveis, desassistidos e desesperados no conjunto da população, como se vê hoje nas ruas das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras, milhões de jovens cujo único futuro é ser entregador de pizza ou bandido, sem que a parcela da população que se isola em ilhas de vida confortável se perturbe com os miseráveis à sua volta.

A política econômica neoliberal com epicentro no Rio de Janeiro trouxe no seu conjunto as seguintes consequências:

1.DOMÍNIO DO BANCO CENTRAL PELO MERCADO FINANCEIRO

Domínio explícito demonstrado pela sistemática indicação de personagens do mercado financeiro para suas diretorias. Para confirmar o domínio do chamado BOLETIM FOCUS, onde a autoridade monetária recolhe a média das previsões dos economistas do mercado financeiro para orientar suas políticas.

A consequência é de que o Banco Central NÃO LIDERA O MERCADO, É LIDERADO POR ELE e todas as suas políticas não se endereçam aos interesses do País e do Estado nacional e sim aos interesses do mercado financeiro, desde a taxa Selic, à política cambial, a política de crédito, ao estimulo à concentração bancária.

2.PROTEÇÃO DOS ATIVOS FINANCEIROS À CUSTA DO CRESCIMENTO

O instrumento é o mecanismo de ‘METAS DE INFLAÇÃO” onde se privilegia a QUALQUER CUSTO SEM CRESCIMENTO a manutenção do valor dos ativos financeiros que consomem a maior parte do Orçamento da União, em pagamento de juros e seguros cambiais, variáveis que mantém constante em dólar os ativos do sistema financeiro em Reais, algo como R$ 8 trilhões, para o que o PAÍS NÃO DEVE CRESCER, porque o crescimento necessita de moeda nova e pode trazer o risco de desvalorizar a moeda velha detida pelo sistema financeiro. Para tal roteiro o Estado deve liquidar o BNDES e privatizar o que resta de suas estatais, a qualquer preço, no todo ou vendendo aos pedaços, como se faz hoje com a PETROBRAS, empobrecendo o Estado e o País e transferindo para o estrangeiro o controle da política nacional de energia e infraestrutura, criando o paradoxo de ser hoje de capital estrangeiro grande parte da indústria, energia, infraestrutura e mineração do País, enquanto os ricos brasileiros investem no exterior seus recursos, hoje brasileiros tem US$400 bilhões de dólares fora do País, recursos gerados no Brasil e transferidos para o exterior, um contrassenso que mostra ao que o neoliberalismo pode levar.

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3.A PARALISIA DO CRESCIMENTO FEZ ESTAGNAR A ARRECADAÇÃO E COM ISSO A DETERIORAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS

Os serviços públicos essenciais de SAÚDE, EDUCAÇÃO, SANEAMENTO E APOIO SOCIAL AOS MUITO POBRES estão em fase acelerada de desmonte por falta de recursos, porque sem crescimento cai a arrecadação de impostos e continuam crescendo os custos de funcionamento da União, Estados e Municípios.

O sistema público de saúde está se arruinando em velocidade acelerada, as filas do SUS aumentaram muito, o nível de educação nunca foi tão baixo.

4.DESMONTE DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA INDÚSTRIA, INFRAESTRUTURA, MEIO AMBIENTE, ENERGIA, TRABALHO, DEFESA, PESQUISA E CULTURA

Na visão neoliberal, políticas públicas nem devem existir porque o mercado tudo resolve. O raciocínio é falso. Nos EUA, centro da ideia de economia de mercado, o Estado tem fortíssima presença em todas as políticas públicas, os Departamentos de Trabalho e de Energia tem vastos orçamentos, a pesquisa é fortemente incentivada pelo Estado, há 11.000 estatais sob formas e denominações diversas como AUTHORITY ou BOARD que cuidam de saneamento, aeroportos, portos, rodovias, metrôs, ônibus municipais, seguros de hipotecas para moradias populares, trens de passageiros, rodovias, tudo ESTATAL.

Na Europa os sistemas de seguro saúde, educação, meio ambiente, energia, cultura, são largamente estatais, o Estado assistencial é fortemente presente, mesmo em países de economias ricas como Alemanha, países nórdicos, França, Suíça e Reino Unido.

O “neoliberalismo de exportação” que o Brasil assumiu, MESMO NOS GOVERNOS PETISTAS, foi repudiado em todo o mundo civilizado mais avançado, os países emergentes que mais crescem, como China e Índia, têm economias de planejamento sob Estados fortes e não Estados desmontados como no Brasil, onde apesar da carga fiscal ser altíssima, não tem Estado forte, o grosso da arrecadação de impostos se destina a juros da dívida pública e largos benefícios a corporações de funcionários públicos, que consomem salários e vantagens irreais e incompatíveis com a economia do País.

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Não existe NENHUMA POSSIBILIDADE do Brasil voltar a crescer com um neoliberalismo tosco, provinciano, sem visão de Estado, voltado exclusivamente para o rentismo de pequena parte da população, enquanto 90% dos brasileiros veem sua qualidade de vida, e até de sobrevivência, se deteriorar ano a ano.

É impressionante que boa parte da elite brasileira não perceba o desastre visível, a olho nu, de uma política neoliberal para País pobre como algo inviável historicamente. Vargas, Juscelino, os governos militares perceberam isso, o governo FHC desprezou essa noção da realidade e criou a democracia dos banqueiros como se isso fosse o futuro do Brasil, hoje a REPÚBLICA DO FINANCISMO empobrece o País como um todo, embora alguns se saiam bem, hoje o Estado brasileiro e o conjunto da população brasileira é MAIS POBRE DO QUE HÁ DEZ ANOS, o País está empobrecendo sob o neoliberalismo.

UMA ESCOLA PRIMITIVA DE PENSAMENTO ECONÔMICO

A “Escola do Rio”, nome que dei ao pensamento neoliberal brasileiro da década de 90 (e título de meu livro sobre esse tema) é uma escola POBRE E SIMPLISTA de pensamento econômico, sem elaboração, sem renovação, sem imaginação, mera importação de meia dúzia de mantras de Madame Thatcher, que já foi post mortem suficientemente demolida no seu próprio País.

Hoje, o neoliberalismo de Mrs.Thatcher é algo maldito no Reino Unido, nas suas raízes estão a decadência industrial da Inglaterra, que levaram o País ao BREXIT. Mas, no Brasil dos  “economistas de mercado”, esses dogmas continuam vivos por falta de inimigos naturais sem que seus propagandistas percebam que SEM ESTADO NÃO HÁ PAÍS SÓLIDO e, ao fim, o neoliberalismo vai destruir o próprio Estado onde esses economistas ganham dinheiro, embora boa parte não more mais no Brasil.

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Um pais convulsionado pela miséria que o neoliberalismo criou vai tornar inviável os negócios dos neoliberais. Um País é um conjunto de pessoas e coletividades, não é só um mercado de câmbio e ações.

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7 comentários

  1. Nossa elite na melhor fase foi de segunda divisão. Hoje é de quinta. Nessa peste que contagiou o país Bolsonaro é só a parte visível da doença como o é as pintinhas do sarampo. O pior é o vírus que corre no sangue o vírus paulo Guedes Samuel pessoa Gustavo Franco. Aí tem que entrar o tratamento Keynes e schacht em doses cavalares.

  2. Caro André,
    apesar de seres alguém com um conhecimento geral da situação internacional muito acima da média dos melhores analistas econômicos nacionais vou contestar um pouco a tua análise quanto a origem e não das consequências dos fatos.
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    Aqui nas mensagens não tenho condições de colocar figuras e gráficos que só no seu desenvolvimento são extremamente explicativos, logo farei um artigo no meu Blog aqui no GGN colocando algumas indicações que deixarão mais claras as minhas constatações. Quando ficar pronto colocarei o link em outro comentário, mas deixando de lado os “entretantos” vamos para os “finalmentes”.
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    As tuas análises são muito semelhantes a um dos melhores economistas brasileiros, Bresser Pereira, e tanto tu como ele caem em explicações econômicas baseadas mais numa visão de uma dialética hegeliana do que uma dialética materialista, ou seja, explica-se algo mais com a vontade de um grupo do que pela realidade material dos fatos.
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    A crítica insistente dos “rentistas” versus os “produtivistas” são recorrentes. dando a impressão que os capitalistas brasileiros saídos de uma grande festa que resultou numa enorme ressaca sentaram a mesa no dia seguinte e disseram aos seus gerentes:
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    – De hoje em dia passaremos a ganhar dinheiro com o renda e não com a produção.
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    Se houvesse equivalência dos ganhos entre investir em títulos públicos ou em produção física, a chamada “mão invisível do mercado” corrigiria isto rapidamente, pois no vácuo deixado pela produção seria ocupado por outros capitalistas que não estiveram na mesma festa e não ficaram com a mesma ressaca.
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    Bem acompanhado com Bresser Pereira (que tenho prazer de ler seus excelentes trabalhos, mesmo que os ache equivocados) , esta visão turva da dinâmica do funcionamento do capitalismo, turva as conclusões, e os dois não procuram uma razão mais econômica do que um mero desejo de um capricho de não se incomodar mais de produzir e passar ao rentismo, e talvez ambos esquecem que estamos vivendo em algo que Marx postulou sem explicar convenientemente que se chama a queda secular dos lucros do capital.
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    O processo que leva aos capitalistas passarem de ex-produtivistas a atual rentistas é explicado pela queda dos lucros por unidade produzida causado pela concentração ainda mais forte do Imperialismo nas mãos de poucos produtores.
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    Para não ficar numa mera retórica vamos a um exemplo recente que indica este movimento, a indústria de chips para computadores e outros equipamentos eletrônicos como celulares. Há mais de uma década o processo de centralização da produção a cada pequeno salto tecnológico está restringindo a produção destes elementos extremamente importantes para toda a indústria a um número de produtores planetários que se numera na palma de uma mão. O último grande investimento neste sentido de chips de menor espessura está sendo feito pela Samsung. Não satisfeita em começar a produção em um fábrica que custou algo em torno de 20 bilhões de dólares, esta empresa planeja para a próxima década um investimento de 115 bilhões de dólares para até 2030 retirar do mercado, “anões” como a Intel e a Qualcomm, pois as outras menores já ficaram para trás.
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    O investimento neste setor de microchips mostra claramente uma estratégia conhecida já a mais de um século, verticalizar a produção, baixar o lucro unitário dos produtos e inviabilizar a entrada de novos concorrentes matando os velhos. Ou seja, num dos ramos mais dinâmico da produção, o setor de informática a tendência de concentração, fica claro que a industrialização é algo que ficou para poucos e que por menor que sejam os salários, por mais que se elimine os direitos sociais em nenhum momento haverá possibilidade de se competir industrialmente com os grandes oligopólios internacionais.
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    Se olharmos para esta situação macro que ocupa o mercado global, se vê claramente que as alternativas de ser um capitalista brasileiro produtivista é um verdadeiro sonho que somente aloprados neoliberais pensam que dentro das fronteiras do capitalismo é possível se vencer sem um uso maciço de capital fixo, ou seja, o que propõe os neoliberais é entrarmos num jogo em que o outro jogador escolhe as cartas desde o início.

    • Prezado Rogério
      Prezado André,
      É um grande prazer acompanhar suas matérias. Uma honra, mesmo.
      Eu entendo o que o Rogério fala sobre a “super concentração”: ter a capacidade produtiva e tecnológica capaz de destruir qualquer possível concorrente.
      Acrescento a isso o próprio fato de que o capital está na mão de poucas pessoas, que aplicam através dos principais fundos “de investimento”: Black rock, Empire street, Vanguard, etc. (um grande articulista que acompanho é o prof. Pedro Augusto Pinho, que disseca a concentração de capital que existe na “elite do mercado financeiro”: a banca).
      Pois bem, seria hora, ou um dia chegará a hora em que, a despeito da “super concentração”, os governos nacionalistas, preocupados com o bem estar da população e com a integridade do meio ambiente e do planeta terra, invistam em: reflorestamento, agricultura orgânica, construção civil, etc. Imagine só o trabalho que seria remodelar este país, este mundo, para que ele fosse limpo, saudável… há riquezas em excesso no mundo. Todos podem viver muito, muito bem, em paz.
      Para isso há que se criar primeiro a consciência, a percepção nas pessoas da realidade. O neoliberalismo é um engodo. Como foram mentiras em cima de mentiras que produziram todas as guerras. E a “humanidade” fez sua história assim….
      O Brasil é o exemplo perfeito. O país mais rico do planeta e sempre foi o mais explorado.
      Hoje com o Bozo, com Conge, o corrupto, com os Minions, com políticos ladrões, com procuradores bandidos, elitistas, com policiais psicopatas e assassinos…legal! Tudo muito legal!
      Em minha utopia, finalizo dizendo que o mundo de George Orwell finalmente chegou, aqui no ocidente.
      Continuo minha resistência com vocês e com aqueles que nos acompanham aqui, num desses canais em que se prega a construção de um mundo mais justo e humano, antes de mais nada. E ACIMA DE TUDO.

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  3. Política neoliberal só funciona mesmo em países fortemente industrializados e com balança comercial na sua maior parte baseada em produtos industriais ou de tecnologia moderna como software, em países exportadores de minérios e de commodities agrícolas primárias essa política realmente não funciona, pelo contrário ela é um desastre para os trabalhadores e para todo o país. Se continuarem com essa política não vamos sair dessa crise econômica e como soe acontecer em países atrasados o povo é chamado para pagar as contas, como com essa malfadada reforma da previdência.

  4. Sem contar com o avanço tecnológico que vem substituir a mão de obra dos trabalhadores, isso está causando suicídio em massa. Eu digo isso porque a imprensa não mostra mas, teve uma empresa de grande nome onde no mês de junho ouve cinco suicídio dentro da própria empresa. Coisa que não é divulgada pra não causar, talvez, pânico na população. Mas que não deixa de ser uma coisa seria.

  5. Nunca se viram tantos pobres, miseráveis e desassistidos como se viu depois do Plano Real? EU me lembro bem, na década de 80 o desemprego era maior, não havia as bolsas que tem hoje, e eu via nas ruas mais camelôs do que vejo hoje. O Plano Real não foi um milagre, mas foi um ponto de partida. Os “anos bons” de Lula nunca teriam sido possíveis sem a estabilidade herdada do Plano Real.

    O artigo insiste em uma dicotomia “Rentistas X Produtivistas” sem se aprofundar, e malha um judas chamado “neoliberalismo”. O neoliberalismo é conceito da Inglaterra de Thatcher e dos EUA de Reagan dos anos 80, e nunca existiu no Brasil. O termo já se encontra em desuso no resto do mundo, mas por aqui virou sinônimo de tudo o que há de ruim, e na prática designa apenas os cortes e privatizações que todo governo é obrigado a fazer quando o dinheiro acaba.

    A economia não é um filme de cowboy com Bons X Maus, é um jogo mais complexo do que isto.

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    • Agradeço o comentario. Partilho perfeitamente da noção de que politica economica é uma combinação de fatores MAS é indiscutivel que o Banco Central NÃO tem uma mescla de escolas de economia COMO TEM O BOARD DO FED, onde cada um de seus sete membros vem de uma linha de visão da economia AQUI são todos copias carbono, as decisões do COPOM não tem duvidas, não temos um COUNCIL OF ECONOMIC ADVISERS no Palacio do Planalto para dar um olhar a distancia sobre o comando da economia, aqui é um MONOBLOCO com pequenissimas variações de nuances, embora eu concorde com V, que nossa economia tem muitos vicios que não tem nada a ver com neoliberalismo como os absurdos ganhos de areas do alto funcionalismo, VEZES MAIS que ganham altos funcionarios na Europa e EUA, excesso de regulamentos e burocracia que geram 35 milhões de processos judiciais e um judiciario que como proporção do PIB custa 5 vezes mais que o alemão, alem de displicencia em gastos e mordomias, a Rainha da Inglaterra viaja de avião comercial e nos temos dois aviões presidenciais, cada deputado estadual tem carro e motorista, etc;

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