Disputa informacional ou ditadura informacional?, por Charlley Luz

A informação sobre saúde é um direito básico, um direito humano garantido por leis universais e por nossa Constituição.

Disputa informacional ou ditadura informacional?

por Charlley Luz

Como podemos gerenciar o que não podemos medir? A máxima da área de gestão empresarial vale também para a área da informação. A gestão de políticas públicas amplas não ocorrem sem as informações que precisam. O apagão de dados da epidemia de COVID-19 coloca o Brasil ao lado de países subdesenvolvidos, que não tem condições de infraestrutura para combater a doença.

O portal Covid-19 saiu do ar na sexta-feira, (05/06), retornando com menos dados e informações que antes, no sábado (06/06). A manipulação dos dados significa seu uso político. Quando fornecemos informação médica aos profissionais da saúde, eles melhoram a anamnese, isto é, utilizam os dados corretos sobre a onda epidêmica e vão, então, tomar decisões com base nestes dados. Ou seja, sem as informações necessárias, medidas de enfrentamento à doença podem retardar mais ainda a volta ao “novo normal”.

A informação sobre saúde é um direito básico, um direito humano garantido por leis universais e por nossa Constituição. Além de saber como está a sociedade, quero saber como está aqui perto, na minha cidade e na minha rua, esse é o modelo mental de quem se preocupa com a epidemia. Afinal, essas informações em camadas podem ser facilmente acessadas. Temos uma rede mundial de computadores chamada internet que possibilitam o acesso e todo esse esforço de consolidação de dados poderia se dar em tempo real.

Porém a realidade é outra no Brasil. Na prática está havendo uma censura aplicada ao Ministério da Saúde. Os dados são estaduais, mas caberia à autoridade máxima da saúde no país fazer sua consolidação. Assim, como dizemos na área de informação, o dado passa a ser uma informação oficial, custodiada e autêntica abaixo de uma instituição.

Parece que essa prerrogativa não vale mais, pois o Ministério da Saúde foi desestruturado, está sem ministro há mais de mês, um empresário de curso de inglês que não sabe nada de saúde está assumindo uma das mais importantes secretaria, num cargo logo abaixo do ministro. Aliás, que ministro?

Obviamente a epidemia é um problema que deveria ser prioritário, mas outros problemas estão armados como uma bomba relógio para serem disparados nessa epidemia ainda, principalmente a educação. Logo teremos de voltar e vamos nos dar conta que se perdeu o ano. Nosso calendário precisa ser adequado, o EAD não é a maravilha que achavam e alfabetizar crianças à distância é praticamente impossível, visto que a cinestesia (percepção motora) faz parte, junto com a socialização das crianças, em seu processo educacional. Por quê o senhor proprietário de cursos de inglês não foi para a área de educação? Parece que ele entende um pouquinho mais do que saúde e informações epidemiológicas.

Bolsonaro já havia tentando evitar a divulgação oficial de dados, provavelmente esta paranóia já o ocupava em 24 de março de 2020, quando editou a Medida Provisória da Covid, de 06/02, onde colocava a possibilidade de não atender a Lei de Acesso à Informação – LAI, durante a epidemia. Diante da forte reação da sociedade, essa parte foi extraída da Lei, por decisão do STF. Mas mostra que a disputa informacional concorre com o combate à epidemia desde o começo.

No auge da epidemia, a não-confiança nas informações oficiais nos coloca ao lado de países como a Coreia do Norte, onde não existe epidemia oficialmente, ou a outros que subnotificação é a tônica de desmandos políticos. A manipulação da informação, o controle e a insistência em não atender à LAI nos dá direito de afirmar que estamos, da parte do governo Bolsonaro, numa Ditadura Informacional.

Dessa vez, por enquanto, não temos tanques nas ruas, mas a manipulação da opinião pública e a insistência de criar uma “narrativa” é a prioridade desse governo. No entanto a disputa de narrativas ocorre na prática, com a imprensa do outro lado, mostrando os absurdos gerados no centro dessa máquina governamental. Então parece que o desejo de ditadura de Bolsonaro impacta no papel social da comunicação e do acesso à informação. Nunca podemos abrir mão destes dois preceitos.

Para cada ação do governo, a reação parece ser pior. A estratégia de manter a base de apoio social, focada na difusão de fake news e pautas Integralistas, leva o governo a tomar medidas. Contra a manipulação dos dados da Covid, já existe uma extensão para o Chrome chamada Transparência COVID-19, que recupera e atualiza os dados agora ocultados pelo Bolsonaro.

O governo já é reincidente na manipulação de dados. Não vamos esquecer que o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) não pode divulgar os dados de desmatamento, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ) foi impossibilitado de divulgar dados de desemprego, o cartão corporativo sem limites do presidente é secreto. A falta de confiança nos dados brasileiros a nível internacional impacta, inclusive, na ciência. Como confiar na pesquisa e na produção acadêmica de um país que não consegue consolidar e divulgar seus dados? O impacto no acesso à informação digital é menor que o governo pensa – nossos hackers são bem ativos e há muita responsabilidade social junto a alguns profissionais da tecnologia – e o impacto em nossa credibilidade no exterior é a pior possível.

Mas as narrativas não são tão manipuláveis, podem até existir narrativas alternativas e forçadas, mas aquela que fica é a que é sentida por todos. E estamos, no meio dessa disputa informacional e de narrativas, como nunca estivemos antes: sem governo, sem informação autêntica ou confiável e tendo que aguentar devaneios ditatoriais de quem deveria estar trabalhando para diminuir os impactos da doença em nossa nação.

Charlley Luz é cientista da informação, mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicação e Arte (ECA/USP), especialização em Gestão de Serviços e Sistemas de Informação pela FESPSP e é sócio fundador da Feed Consultoria, Professor e orientador, na FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

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1 comentário

  1. Querer entender o governo bolsonaro é esperar dormir confortavelmente numa cama de pregos afiados.
    Fizeram a cama e estão repousando sobre ela. Quem fez, ou está se machucando ou está endurecendo o couro.
    Nós, os inconformados, estamos dormindo em pé, quase caindo, esperando que o governo caia primeiro.

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