Do Retorno à Barbárie à Renovação do Pacto Necessário à Vida Civilizada, por Michele Kamers e Heloisa Marcon

A eleição de Jair Bolsonaro tem nos obrigado a repensar questões fundamentais acerca do laço social e das condições necessárias ao pacto civilizatório.

Do Retorno à Barbárie à Renovação do Pacto Necessário à Vida Civilizada – Por Michele Kamers e Heloisa Marcon Postado em: terça-feira, março 31, 2020 A barbárie que vem se produzindo desde o início do governo de Jair Bolsonaro assume, com a chegada da pandemia do coronavírus, proporções inéditas no curso da História em que a dimensão da Necropolítica é escancarada a olhos nus por um Estado que poderíamos hoje nomear como criminoso. A eleição de Jair Bolsonaro tem nos obrigado a repensar questões fundamentais acerca do laço social e das condições necessárias ao pacto civilizatório. Perplexos, temos assistido a uma avalanche de absurdos proferidos por aquele que, na condição de presidente da República, deveria zelar pela vida dos cidadãos de seu país. Entretanto, contrariando todas as orientações e recomendações de isolamento realizadas por especialistas e autoridades de todos os países do mundo, Jair Bolsonaro não apenas debocha da atual pandemia que tem custado a vida de milhares de pessoas, como incita criminosamente que as pessoas saiam de casa. Não, não se trata de uma “gripezinha”, de um “resfriadinho” como disse Jair Bolsonaro. Trata-se de uma epidemia que tem provocado a morte de milhares de pessoas no mundo. A brutal realidade dos números parece não ser suficiente para interditar e colocar limites aos impulsos desgovernados de sujeitos que, regidos pela lógica da onipotência infantil, alimentam a ideia de que os limites somente se impõem para os outros. O que temos assistido é o extermínio em massa de pessoas provocado por um vírus. Situações que somente foram vistas em contextos de epidemias, guerras e nos campos de concentração nazistas em que as mortes não eram apenas previstas, mas desejadas. No livro “Eichmann em Jerusalém” (2000) Hannah Arendt afirma que o extermínio em massa dos judeus durante a II Guerra jamais teria sido possível sem o apoio quase incondicional do povo alemão que, diante de uma importante crise social e econômica, foi seduzido pelas promessas de Hitler através do projeto nazista. Assim como Bolsonaro, Hitler era um insignificante militar do exército alemão, cujas ideias não produziam eco na sociedade de sua época. Entretanto, o colapso da economia em 1929 e o desespero gerado pela incerteza frente ao futuro criaram condições suficientes para o sucesso de suas ideias. Hitler propunha não apenas a unificação nacional como solução para a crise, mas a defesa da superioridade da raça alemã, colocada como justificativa para o extermínio de judeus, eslavos, ciganos e negros, assim como homossexuais, epiléticos, esquizofrênicos, retardados, etc. Liderada por Joseph Goebbels (ressuscitado recentemente pelo Secretário de Cultura do governo Bolsonaro), a propaganda nazista se infiltrou na sociedade alemã por meio do controle da imprensa, da rádio, do teatro, do cinema, da literatura e das artes, cujo objetivo consistia na promoção de sua ideologia através da incitação do ódio contra os judeus. Arendt utilizou a expressão “banalidade do mal” para designar a potência destruidora do cidadão comum capaz de realizar e justificar atrocidades jamais vistas. Lembram das torturas na Ditadura Militar? Dos estupros, dos espancamentos, dos seios cortados, das vaginas mutiladas, das vidas perdidas? Lembram dos campos de concentração nazistas? Do trabalho escravo, da fome, do frio, das sevícias sofridas, dos corpos em valas comuns? Lembram dos fornos em que os corpos eram queimados? Eram tantos que já não havia mais valas possíveis! Pois bem, se ainda temos algum laço com a vida e algum respeito pela história, pelo passado e por nossos mortos, se ainda temos algo que nos lembre de nossa condição humana, precisamos mais do que nunca lutar para que a barbárie não se repita. Não podemos permitir uma nova ditadura. Não podemos permitir um novo nazismo. Não podemos permitir que um presidente coloque vidas em risco! Quantos morreram e quantos mais precisarão morrer? Como nos lembra Freud no clássico “O Mal-Estar na Civilização” estamos sim sujeitos a epidemias, catástrofes naturais, adversidades e acidentes. Mas, nada, nada se compara ao poder de destruição do ser humano que, em nome do bem é capaz do pior. O Brasil tem sido exemplar nisso. Da chacina dos índios à escravidão dos negros, dos mortos na ditadura aos mortos na favela, o sangue derramado parece não ser suficiente para inscrever uma outra lógica. Antes de se eleger presidente, Jair Bolsonaro ficou conhecido como “mito” justamente por falar, como uma criança, aquilo que pensa. Motivo constante de piada, criou fama ao fazer afirmações até então impensáveis para qualquer sujeito regido pelo pacto civilizatório: elogios à ditadura, tortura, genocídio, misoginia e espancamento são apenas alguns exemplos. A lista é longa, mas o ponto é comum: a “tirania” própria daquele que, não regido pelo pacto civilizatório, justifica os usos e abusos em nome de seu poder. Lógica em que o tirano, ao alimentar fantasias de retorno ao corpo materno e de reencontro de uma “ordem” supostamente “tida e perdida”, causa, tanto fascínio, quanto horror. Fascínio diante da fantasia da criança sem faltas e sem limites, plena em seu gozo. Horror frente à tirania e violência dos excessos da mãe-toda: aquela que submete os filhos a seus caprichos, abusos e vontades. O que torna evidente que se tratam de fantasias que denunciam os efeitos psíquicos de submissão produzidos por uma posição perversa em que aquele que supostamente deveria cuidar se sente autorizado a abusar e justifica seu abuso a partir de sua condição de autoridade. O que, para o sujeito, se converte em uma violência que impõe uma experiência de alheamento e excesso cuja intensidade exógena, o psiquismo, sem escolha, tem que assimilar. Violência traumática que aparece desde o princípio na obra freudiana como uma violência exercida por um outro (pai perverso e autoritário) que através dos usos e abusos de seu poder pode levar o psiquismo a formações deformadas e paradoxais, obrigando-o a não ter outra ocupação que não a própria sobrevivência. Para Endo (2011) o estado de exceção, ao repousar sobre as bases da biopolítica, reduz o sujeito ao estatuto biológico, forma e a expressão do excesso em que a exceção à Lei é a condição para a redução do sujeito a puro corpo, naturalizado biologicamente como organismo privado de diferenciação. Operação realizada nos campos de concentração nazistas em que o sujeito era destituído não apenas de seu nome e de sua história, mas de todos os objetos que permitiriam diferenciar-se e se reconhecer como um sujeito em meio a tantos corpos. Nesse sentido, podemos considerar que na horda não havia pai, mas mãe incestuosa embebida em seu próprio gozo, aquela que, ao não reconhecer os filhos como sujeitos diferenciados de si, reduzia-os a corpos passíveis de inúmeros abusos e violência. Em Totem e Tabu (1913) Freud situa o início da organização social, das restrições morais e da religião a partir da morte do pai da Horda Primitiva. Temido e invejado, foi assassinado pelos filhos que, submetidos à sua arbitrariedade e violência, reagiram aos abusos de seu poder. Devorado numa refeição totêmica, o pai não estava morto. O lugar vazio deixado por ele, a condição de “gozo pleno”, constituía um empuxo para seus filhos. Não bastava matar o pai. Era preciso manter esse lugar vazio visando alguma outra ordem diferente da arbitrariedade e da possibilidade de ele novamente vir a ser ocupado. Para tanto, os irmãos colocaram o totem como substituto do pai, visando impedir, assim, que qualquer um pudesse ocupar o seu lugar. O totem, dessa forma, instaura a Lei. Ela surge, portanto, não como promotora de justiça, mas como inibidora da injustiça. Sua função é impedir que novos tiranos ocupem a posição daquele que acabara de ser aniquilado e devorado (Endo, 2011). Assim, não é o assassinato do pai que institui a ordem civilizatória, mas o trabalho coletivo e cotidiano de sustentação de sua manutenção. A cada vez que se atenta contra ela, é a civilização que corre o risco de morrer. Morte que na história não cessa de se repetir através do inominável de sua representação. Morte morrida, morte matada, morte desnuda, morte da morte. Facetas inomináveis do real, d’isso que, quando não reconhecido, dá lugar a novos tiranos e ao exercício de suas conhecidas violências. Violências que não reconhecidas pela história, se reatualizam hoje, no presente. Lógica em que as renúncias necessárias ao processo civilizatório são lidas como danos provocados ao indivíduo que, ressentido, pode vir a incitar, legitimar e autorizar a barbárie própria dos impulsos que precisaram ser recalcados durante o processo civilizatório. Processo em que o tirano tem um lugar fundamental na economia psíquica do sujeito, já que ao ocupar o lugar de exceção, não apenas alimenta a fantasia de um gozo sem limites, mas autoriza e justifica o retorno à barbárie. Freud (1921) nos lembra que a vida civilizada só se tornou possível a partir da interdição do gozo sem limites, quando a violência brutal do indivíduo foi substituída pelo poder da comunidade. A tese freudiana é a de que o humano não é humano apenas porque seus pais são humanos. Mas porque toma deles os fundamentos de sua própria humanidade. Por isso, é preciso que cada sociedade se encarregue de transmitir essa humanização e legitimar aqueles que assumem esta função, na medida em que, sem renúncia pulsional, não há civilização. Ficar em casa de quarentena para evitar a escalada do contágio que leva a um número enorme de doentes para os quais sistema de saúde nenhum do mundo tem condições de tratar é proteger a civilização, é renunciar a essa pulsão desgovernada, a esse gozo ilimitado que, ao se pretender pleno, não admite perder nada de gozo e, com isso, vai perder tudo. A Itália ontem chegou a quase 1000 mortos pelo coronavírus num só dia. Hoje o presidente dos Estados Unidos anuncia isolamento social até 30 de abril, podendo ser prorrogado. E enquanto isso, no Brasil, o capitão desse navio desgovernado passeia por Brasília e incita os cidadãos a voltarem a seus trabalhos porque “todos, um dia, vão morrer”. No mesmo dia, temos a resposta, nos meios de comunicação, dos maiores especialistas em infectologia, virologia e médicos intensivistas repetidamente explicando o funcionamento do contágio e a letalidade e imprevisibilidade do coronavírus, sendo a permanência do isolamento social a única medida de prevenção possível. A ordem civilizatória não está, nunca, de todo assegurada. O retorno à barbárie está aí, sempre querendo entrar em cena, prometendo o gozo pleno. Eros e Thanatos, como sempre, estão brigando pelo destino da humanidade. É uma briga de titãs e nós podemos escolher a vida e sua preservação. A vida, com menos dinheiro, menos gozo e mais coletividade, restando a nós a luta pela renovação do pacto e nossa aposta na vida civilizada. Imagem: Isac Nóbrega/PR – Portal IG

do Psicanalistas pela Democracia

Do Retorno à Barbárie à Renovação do Pacto Necessário à Vida Civilizada

por Michele Kamers e Heloisa Marcon

A barbárie que vem se produzindo desde o início do governo de Jair Bolsonaro assume, com a chegada da pandemia do coronavírus, proporções inéditas no curso da História em que a dimensão da Necropolítica é escancarada a olhos nus por um Estado que poderíamos hoje nomear como criminoso.

A eleição de Jair Bolsonaro tem nos obrigado a repensar questões fundamentais acerca do laço social e das condições necessárias ao pacto civilizatório.

Perplexos, temos assistido a uma avalanche de absurdos proferidos por aquele que, na condição de presidente da República, deveria zelar pela vida dos cidadãos de seu país. Entretanto, contrariando todas as orientações e recomendações de isolamento realizadas por especialistas e autoridades de todos os países do mundo, Jair Bolsonaro não apenas debocha da atual pandemia que tem custado a vida de milhares de pessoas, como incita criminosamente que as pessoas saiam de casa. Não, não se trata de uma “gripezinha”, de um “resfriadinho” como disse Jair Bolsonaro. Trata-se de uma epidemia que tem provocado a morte de milhares de pessoas no mundo.

A brutal realidade dos números parece não ser suficiente para interditar e colocar limites aos impulsos desgovernados de sujeitos que, regidos pela lógica da onipotência infantil, alimentam a ideia de que os limites somente se impõem para os outros.

O que temos assistido é o extermínio em massa de pessoas provocado por um vírus. Situações que somente foram vistas em contextos de epidemias, guerras e nos campos de concentração nazistas em que as mortes não eram apenas previstas, mas desejadas.

No livro “Eichmann em Jerusalém” (2000) Hannah Arendt afirma que o extermínio em massa dos judeus durante a II Guerra jamais teria sido possível sem o apoio quase incondicional do povo alemão que, diante de uma importante crise social e econômica, foi seduzido pelas promessas de Hitler através do projeto nazista.

Assim como Bolsonaro, Hitler era um insignificante militar do exército alemão, cujas ideias não produziam eco na sociedade de sua época. Entretanto, o colapso da economia em 1929 e o desespero gerado pela incerteza frente ao futuro criaram condições suficientes para o sucesso de suas ideias. Hitler propunha não apenas a unificação nacional como solução para a crise, mas a defesa da superioridade da raça alemã, colocada como justificativa para o extermínio de judeus, eslavos, ciganos e negros, assim como homossexuais, epiléticos, esquizofrênicos, retardados, etc.

Liderada por Joseph Goebbels (ressuscitado recentemente pelo Secretário de Cultura do governo Bolsonaro), a propaganda nazista se infiltrou na sociedade alemã por meio do controle da imprensa, da rádio, do teatro, do cinema, da literatura e das artes, cujo objetivo consistia na promoção de sua ideologia através da incitação do ódio contra os judeus.

Arendt utilizou a expressão “banalidade do mal” para designar a potência destruidora do cidadão comum capaz de realizar e justificar atrocidades jamais vistas. Lembram das torturas na Ditadura Militar? Dos estupros, dos espancamentos, dos seios cortados, das vaginas mutiladas, das vidas perdidas? Lembram dos campos de concentração nazistas? Do trabalho escravo, da fome, do frio, das sevícias sofridas, dos corpos em valas comuns? Lembram dos fornos em que os corpos eram queimados? Eram tantos que já não havia mais valas possíveis!

Pois bem, se ainda temos algum laço com a vida e algum respeito pela história, pelo passado e por nossos mortos, se ainda temos algo que nos lembre de nossa condição humana, precisamos mais do que nunca lutar para que a barbárie não se repita. Não podemos permitir uma nova ditadura. Não podemos permitir um novo nazismo. Não podemos permitir que um presidente coloque vidas em risco!

Quantos morreram e quantos mais precisarão morrer?

Como nos lembra Freud no clássico “O Mal-Estar na Civilização” estamos sim sujeitos a epidemias, catástrofes naturais, adversidades e acidentes. Mas, nada, nada se compara ao poder de destruição do ser humano que, em nome do bem é capaz do pior. O Brasil tem sido exemplar nisso. Da chacina dos índios à escravidão dos negros, dos mortos na ditadura aos mortos na favela, o sangue derramado parece não ser suficiente para inscrever uma outra lógica.

Antes de se eleger presidente, Jair Bolsonaro ficou conhecido como “mito” justamente por falar, como uma criança, aquilo que pensa.

Motivo constante de piada, criou fama ao fazer afirmações até então impensáveis para qualquer sujeito regido pelo pacto civilizatório: elogios à ditadura, tortura, genocídio, misoginia e espancamento são apenas alguns exemplos. A lista é longa, mas o ponto é comum: a “tirania” própria daquele que, não regido pelo pacto civilizatório, justifica os usos e abusos em nome de seu poder.

Lógica em que o tirano, ao alimentar fantasias de retorno ao corpo materno e de reencontro de uma “ordem” supostamente “tida e perdida”, causa, tanto fascínio, quanto horror. Fascínio diante da fantasia da criança sem faltas e sem limites, plena em seu gozo. Horror frente à tirania e violência dos excessos da mãe-toda: aquela que submete os filhos a seus caprichos, abusos e vontades.

O que torna evidente que se tratam de fantasias que denunciam os efeitos psíquicos de submissão produzidos por uma posição perversa em que aquele que supostamente deveria cuidar se sente autorizado a abusar e justifica seu abuso a partir de sua condição de autoridade. O que, para o sujeito, se converte em uma violência que impõe uma experiência de alheamento e excesso cuja intensidade exógena, o psiquismo, sem escolha, tem que assimilar.

Violência traumática que aparece desde o princípio na obra freudiana como uma violência exercida por um outro (pai perverso e autoritário) que através dos usos e abusos de seu poder pode levar o psiquismo a formações deformadas e paradoxais, obrigando-o a não ter outra ocupação que não a própria sobrevivência.

Para Endo (2011) o estado de exceção, ao repousar sobre as bases da biopolítica, reduz o sujeito ao estatuto biológico, forma e a expressão do excesso em que a exceção à Lei é a condição para a redução do sujeito a puro corpo, naturalizado biologicamente como organismo privado de diferenciação.

Operação realizada nos campos de concentração nazistas em que o sujeito era destituído não apenas de seu nome e de sua história, mas de todos os objetos que permitiriam diferenciar-se e se reconhecer como um sujeito em meio a tantos corpos.

Nesse sentido, podemos considerar que na horda não havia pai, mas mãe incestuosa embebida em seu próprio gozo, aquela que, ao não reconhecer os filhos como sujeitos diferenciados de si, reduzia-os a corpos passíveis de inúmeros abusos e violência.

Em Totem e Tabu (1913) Freud situa o início da organização social, das restrições morais e da religião a partir da morte do pai da Horda Primitiva. Temido e invejado, foi assassinado pelos filhos que, submetidos à sua arbitrariedade e violência, reagiram aos abusos de seu poder. Devorado numa refeição totêmica, o pai não estava morto. O lugar vazio deixado por ele, a condição de “gozo pleno”, constituía um empuxo para seus filhos.

Não bastava matar o pai. Era preciso manter esse lugar vazio visando alguma outra ordem diferente da arbitrariedade e da possibilidade de ele novamente vir a ser ocupado.  Para tanto, os irmãos colocaram o totem como substituto do pai, visando impedir, assim, que qualquer um pudesse ocupar o seu lugar. O totem, dessa forma, instaura a Lei. Ela surge, portanto, não como promotora de justiça, mas como inibidora da injustiça. Sua função é impedir que novos tiranos ocupem a posição daquele que acabara de ser aniquilado e devorado (Endo, 2011).

Assim, não é o assassinato do pai que institui a ordem civilizatória, mas o trabalho coletivo e cotidiano de sustentação de sua manutenção. A cada vez que se atenta contra ela, é a civilização que corre o risco de morrer. Morte que na história não cessa de se repetir através do inominável de sua representação. Morte morrida, morte matada, morte desnuda, morte da morte. Facetas inomináveis do real, d’isso que, quando não reconhecido, dá lugar a novos tiranos e ao exercício de suas conhecidas violências. Violências que não reconhecidas pela história, se reatualizam hoje, no presente. Lógica em que as renúncias necessárias ao processo civilizatório são lidas como danos provocados ao indivíduo que, ressentido, pode vir a incitar, legitimar e autorizar a barbárie própria dos impulsos que precisaram ser recalcados durante o processo civilizatório. Processo em que o tirano tem um lugar fundamental na economia psíquica do sujeito, já que ao ocupar o lugar de exceção, não apenas alimenta a fantasia de um gozo sem limites, mas autoriza e justifica o retorno à barbárie.

 

Freud (1921) nos lembra que a vida civilizada só se tornou possível a partir da interdição do gozo sem limites, quando a violência brutal do indivíduo foi substituída pelo poder da comunidade. A tese freudiana é a de que o humano não é humano apenas porque seus pais são humanos. Mas porque toma deles os fundamentos de sua própria humanidade.

 

Por isso, é preciso que cada sociedade se encarregue de transmitir essa humanização e legitimar aqueles que assumem esta função, na medida em que, sem renúncia pulsional, não há civilização.

 

Ficar em casa de quarentena para evitar a escalada do contágio que leva a um número enorme de doentes para os quais sistema de saúde nenhum do mundo tem condições de tratar é proteger a civilização, é renunciar a essa pulsão desgovernada, a esse gozo ilimitado que, ao se pretender pleno, não admite perder nada de gozo e, com isso, vai perder tudo.

 

A Itália ontem chegou a quase 1000 mortos pelo coronavírus num só dia. Hoje o presidente dos Estados Unidos anuncia isolamento social até 30 de abril, podendo ser prorrogado.

 

E enquanto isso, no Brasil, o capitão desse navio desgovernado passeia por Brasília e incita os cidadãos a voltarem a seus trabalhos porque “todos, um dia, vão morrer”. No mesmo dia, temos a resposta, nos meios de comunicação, dos maiores especialistas em infectologia, virologia e médicos intensivistas repetidamente explicando o funcionamento do contágio e a letalidade e imprevisibilidade do coronavírus, sendo a permanência do isolamento social a única medida de prevenção possível.

 

A ordem civilizatória não está, nunca, de todo assegurada. O retorno à barbárie está aí, sempre querendo entrar em cena, prometendo o gozo pleno.

 

Eros e Thanatos, como sempre, estão brigando pelo destino da humanidade. É uma briga de titãs e nós podemos escolher a vida e sua preservação. A vida, com menos dinheiro, menos gozo e mais coletividade, restando a nós a luta pela renovação do pacto e nossa aposta na vida civilizada.

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