Dois anos após a reportagem “Retratos da violência contra a mulher”, por Maíra Vasconcelos

Como o jornalismo pode tratar a violência de gênero fora da banalização irresponsável e oportunista da tradicional cobertura de crimes?

Dois anos após a reportagem “Retratos da violência contra a mulher” 

por Maíra Vasconcelos

Após dois anos de publicação da reportagem Retratos da violência contra a mulher, quando abordei a 32 que faziam Boletim de Ocorrência na Delegacia Especializada da Mulher, em Belo Horizonte, volto aos fatos. Volto àquele trabalho, pois, à época, resolvi não interferir nos testemunhos. Quero dizer, não usar a voz jornalística para contar as realidades de violência ali encontradas e encaixá-las em um texto tipicamente jornalístico. No entanto, sabia que estaria faltando um fechamento.

Também existia o fator do esgotamento absoluto. Após escutar os depoimentos na delegacia, ao chegar em casa e transcrevê-los, escutaria mais uma vez aquele peso das vozes que no total somaram 32 mulheres violentadas. Assim, tampouco percebia a dimensão dessa reportagem, talvez excessivo para apenas um profissional. Como consequência, ocorreriam faltas e brechas, como, por exemplo, não ter pensado em manter contato com as mulheres para hoje poder buscá-las e saber como seguiram.

Estando ainda fora de uma redação, lidar sozinha como repórter e “editora” desse material, como sairia ou o que não sairia, e como seria trabalhado. Mas, como entendo que essa reportagem ainda não terminou, é por sua importância que agora a resgato nesse texto.

Com o apoio da editora desse jornal, Lourdes Nassif, foram publicados aqui no GGN, após transcrição fiel e autorizada de cada uma das mulheres, os depoimentos não oficiais cedidos a mim, antes de ingressarem nas dependências da delegacia para fazer o Boletim de Ocorrência. Para essa publicação, escrevi um “abre”, que, estritamente, apenas situava o leitor sobre data, local, número total de entrevistadas e procedimentos burocráticos para realização da reportagem; por exemplo, autorização dos órgãos envolvidos, como a Polícia Civil de Minas Gerais, para frequência na delegacia e trânsito livre para abordar as mulheres na recepção.

Como fechamento da reportagem, um ano após a publicação das matérias, foram veiculados vídeos produzidos com as gravações de alguns testemunhos. Dessa vez, a publicação do audiovisual aconteceu no mineiro O Beltrano (aliás, torcemos pela volta do jornal). Os vídeos foram feitos pelo profissional de Belo Horizonte, Rafael Diniz, que aceitou colaborar com a reportagem. 

Apesar de saber, como jornalista que escutou cada um daqueles relatos, e que frequentou a delegacia por um mês e meio, uma vez por semana, sempre acompanhada por uma assessora de comunicação da Polícia Civil, e envolvida inteiramente como estava com a reportagem, entendia que mesmo com a publicação dos vídeos, um ano depois, tampouco estava encerrado o trabalho. 

No entanto, seria necessário um disparador que me levasse a escrever isso que hoje tenho total autonomia e segurança para discorrer. Talvez, ter reencontrado o livro de Betty Friedan, “A segunda fase”. Dessa nova releitura, passei ao seu mais famoso, “A mística feminina”. O método de trabalho de Friedan foi jornalístico. No prefácio deste último, ela chega a mencionar ter entrevistado 80 mulheres: meus métodos eram simplesmente os de uma repórter na pista de um caso.

A violência contra a mulher, certamente, não apenas dá um livro, como os que já existem, mas merece sair das páginas cotidianas dos jornais, sendo tratado como mero relato de mais um crime. Como o jornalismo diário poderia reportar o feminicídio e a violência doméstica, sem cair na banalização irresponsável, oportunista e desinteressada da tradicional cobertura de crimes?

Talvez, deixar de copiar Boletim de Ocorrência e passar a tratar o assunto com fontes como sociólogos, antropólogos, movimentos feministas, grupos de estudos de gênero, especialistas acadêmicos, ativistas de gênero. Não pretendo com isso trazer uma resposta para a pergunta, mas apenas uma reflexão sobre o exercício jornalístico, ou talvez nem tanto. Com esse texto, não proponho respostas para a famigerada cobertura jornalística dos casos de violência contra a mulher. 

Voltar na reportagem realizada há dois anos, é uma decisão de voltar a falar daquilo que se repete, todos os dias. E os jornais continuam a noticiar a violência contra a mulher sem qualquer compromisso e responsabilidade com esses fatos. Quando teremos um repórter para questionar o porquê de um policial não tipificar tal o qual crime como feminicídio?

No geral, o caderno “Cotidiano” dos jornais trabalha há décadas com a mesma receita irresponsável frente aos casos de quaisquer crimes e violências sociais. Ter mudado o nome de caderno de “Polícia” para “Cotidiano” ou “Cidades”, não alterou, ou muito pouco, o modus operandi na redação dos jornais. Essa é a área menos valorizada no jornalismo, diria até, tida como subárea. Como se os diversos tipos de violência social não fossem talvez o maior problema do país. Enquanto a abordagem do feminicídio e da violência doméstica estiverem restritas à problemática e tradicional cobertura de crimes, esse jornalismo será apenas mais um tiro nas mulheres mortas e violentadas. 

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