Eduardo Bolsonaro gera crise diplomática sem precedente com a China, por Cesar Calejon

 Yang Wanming, embaixador chinês no Brasil, disse que as mensagens postadas pelo deputado federal do PSL “vão ferir a relação amistosa China-Brasil”

Eduardo Bolsonaro gera crise diplomática sem precedente com a China

por Cesar Calejon

O deputado federal Eduardo Bolsonaro pode ter iniciado ontem uma crise diplomática sem precedente com a China, que atualmente é o maior parceiro comercial do Brasil na sociedade internacional.

Eduardo usou a rede social Twitter para transmitir uma mensagem que responsabiliza o Partido Comunista Chinês, que governa o país asiático, pela pandemia do coronavírus. Contudo, o parlamentar brasileiro foi além: “Quem assistiu Chernobyl vai entender o q (sic) ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, disse o filho mais novo do presidente Jair Bolsonaro.

Ainda ontem, a Embaixada da China no Brasil usou a sua conta oficial na mesma rede social para responder a acusação feita sem provas. Na mensagem, os chineses aludiram às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e à viagem da comitiva liderada pelo presidente Jair Bolsonaro à Flórida: “As suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, (você) contraiu, infelizmente, um vírus mental, que está infectando as amizades entre os nossos povos”, rebateram os chineses.

Em outra postagem, a diplomacia chinesa no Brasil afirmou que, “lamentavelmente, você (Eduardo Bolsonaro) é uma pessoa sem visão internacional nem senso comum, sem conhecer a China nem o mundo. Aconselhamos que não corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de tropeçar feio”.

No fim da semana passada, Zhao Lijian, especialista chinês em doenças respiratórias, veterano da epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, entre 2002 e 2003) e porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Ásia, sugeriu, também sem apresentar provas, que o Exército dos Estados Unidos seria responsável pelo surto do novo coronavírus, que teve origem na cidade de Wuhan, na China.

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Em seu tweet, Zhao Lijian postou um vídeo do diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), Robert Redfield, declarando perante o Congresso dos Estados Unidos que alguns americanos, que possivelmente teriam morrido de gripe, já eram portadores do novo Coronavírus. “O CDC foi pego em flagrante crime. Quando o paciente zero apareceu nos Estados Unidos? Quantas pessoas foram infectadas? Quantos dos 34 milhões de casos de gripe e 20 mil mortes que foram relatadas por Washington estão relacionados com a Covid-19?”, questionou em sua postagem. “Pode ter sido o exército americano que levou a epidemia a Wuhan. Os Estados Unidos devem ser transparentes! Devem publicar os seus dados! Os Estados Unidos nos devem uma explicação”, complementou Zhao, sem apresentar provas, indícios ou estudos científicos para respaldar a sua acusação.

Em uma série de tweets, Zhao se referiu às declarações recentes de Redfield, que reconheceu que alguns casos de Coronavírus dos EUA foram classificados erroneamente como influenza, pois os médicos não tinham provas precisas da nova epidemia na época. O alto funcionário não detalhou quando esses casos mal avaliados apareceram pela primeira vez e apenas observou que “alguns casos foram diagnosticados dessa maneira”. No início do surto, Zhong Nanshan, diretor do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, declarou que o Coronavírus apareceu em um mercado na cidade de Wuhan. Contudo, nas últimas semanas, ele levantou a possibilidade de que a fonte do vírus causador do Covid-19 não estivesse na China, hipótese que foi adotada por Pequim.

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Segundo teorias que circulam nas mídias sociais Twitter e Weibo, a delegação dos EUA nos Jogos Mundiais Militares, uma competição que foi realizada em outubro de 2019, em Wuhan, poderia ter trazido o vírus para a China. Contudo, as autoridades chinesas foram acusadas de ocultar a epidemia no início e a polícia de Wuhan repreendeu os médicos que deram o alarme ainda em dezembro.

Mike Pompeo, secretário de estado dos EUA, referiu-se ao Covid-19 como “o vírus Wuhan” e Trump usou o termo “vírus chinês” em pronuncimanento feito via televisão para todos os Estados Unidos. As expressões foram classificadas como “desprezíveis” pelo Ministério das Relações Exteriores da China.

Na última sexta-feira, o Departamento de Estado dos EUA convocou Cui Tiankai, embaixador chinês no país, para protestar contra os comentários feitos por Zhao Lijian. David Stilwell, subsecretário de Assuntos do Leste Asiático e do Pacífico, disse que as mensagens contribuem para uma “campanha de desinformação flagrante e global” sobre o Coronavírus.

O embaixador chinês foi filmado deixando os escritórios do Departamento de Estado em Washington. O diplomata não respondeu os questionamentos da imprensa.

A Embaixada da China no Brasil também replicou uma série de mensagens do embaixador chinês em solo brasileiro. Yang Wanming exigiu que Eduardo Bolsonaro “retire imediatamente” as palavras e “peça desculpas ao povo chinês”. “As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês. Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial. “Além disso, vão ferir a relação amistosa China-Brasil. Precisa assumir todas as suas consequências”, completou o diplomata.

O saldo comercial (US$20,166 bilhões) e as exportações brasileiras para a China (US$47,488 bilhões) atingiram o recorde histórico em 2017, impulsionados, principalmente, pela demanda aquecida do país asiático, cuja economia expandiu mais do que o esperado. Segundo a Agência Nacional de Estatísticas da China, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês vem crescendo acima da casa dos 6% durante os últimos cinco anos.

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A demanda do país pelas commodities brasileiras, principalmente agrícolas, carne bovina e suína, deve continuar subindo na próxima década, puxando o crescimento do saldo das exportações brasileiras ao país. A China está reorganizando os investimentos para o consumo interno, que era voltado para o comércio externo. Assim, cerca de 55% dos chineses (mais de 750 milhões de pessoas) vivem agora em áreas urbanas, o que aponta uma continuidade de expansão da demanda interna. Espera-se que, até 2030, 70% da população chinesa esteja vivendo em áreas urbanas.

Ou seja, a China é um mercado quase inesgotável, absolutamente vital para os produtos brasileiros, e país com o qual o Brasil historicamente sempre manteve uma relação cordial e respeitosa.

Independentemente de onde o vírus infectou o paciente zero, o fato é que o Covid-19 tornou-se o assunto mais falado da nossa história recente. Naturalmente, a doença será objeto de disputas e enfrentamentos no âmbito internacional, porém, atacar o nosso principal parceiro comercial de forma tão leviana pode custar muito caro ao Brasil.

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI.

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1 comentário

  1. Não adianta argumentos ou cientificidade com esta gente. Levando em consideração que quando o Brasil tinha registrado menos de 100 casos na semana passada, chegou um avião da comitiva em que ele foi com o pai, beijar a mão do Trump e trazer mais panfletos para continuar o discurso anti-China, o que o Trump já não pode fazer muito mais, o que aconteceu? Como se viu, pelo número atual de 19 pessoas ligadas a comitiva já infectados com o vírus pego em Miami, os bolsonaros são responsáveis por 20% das infecções iniciais do vírus no Brasil. É isto?
    #EduardoTrouxeVirusdaAmerica
    #foraimportadoresdovirus
    #quemtrouxeovirusparaoBrasil
    #virusdohamburgueiro
    #embaixadorfajutovirulento
    #infestaramDFcomvirusdeMiami

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