Eleições e o papel do Brasil num mundo em transformação, por Vera Moreira

 
Eleições e o papel do Brasil num mundo em transformação
 
por Vera Moreira
 
Não é só os EUA de Donald Trump. Todos os países estão formulando estratégias para entrar numa disputa global. Nos EUA, existe claramente uma tentativa de manter a hegemonia que está sendo desafiada pela China. E a China vem com um projeto: “Tudo bem se você quer investir no meu país, mas você tem que se aliar com a empresa X aqui porque eu quero aproveitar dessa tecnologia. Tenho um projeto Made in China 2025 e vou indicar os setores estratégicos onde quero desenvolver tecnologia”. Torna-se claro que o papel do Brasil no mundo não depende só do Itamaraty, depende de um projeto para fortalecer sua capacidade industrial tecnológica. Isso é o novo salto que precisa ser dado. 

 
O Brasil já teve um papel político importante a nível internacional, ocupando um espaço nunca antes ocupado. Não havia assunto sobre o qual o mundo não quisesse saber a opinião do Brasil, pois é um país grande. Depois de 2015 se perdeu completamente o rumo, o mundo vê isso. Tudo ficou em banho-maria, com um desmonte de políticas internacionais. E nos últimos dois anos, o governo começou a vender ativos estratégicos sem ter ideia de onde isso vai levar o país: Embraer, ativos do Pré-Sal, Brasken, redes elétricas, num processo de desnacionalização como nunca visto. Isso muda a inserção do Brasil no mundo, porque o mundo mudou.
 
Precisa olhar qual é a política industrial tecnológica e eu não vejo nada nos últimos dois anos, o que fragiliza muito o país. Isso é determinante porque precisa ler claramente tudo dos programas para o futuro governo: Bolsonaro quer abrir o Brasil, mas como? E onde? O mundo não está nessa onda de “vamos abrir e tudo vai dar certo”. A onda é justamente o contrário. A análise é de Giorgio Romano, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Amsterdam e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC, no programa Roda Viva, na semana passada, que debateu questões como globalização, protecionismo comercial, novos tratados e política de refugiados. 
 
São questões que nos definirão não só para o período do próximo governo como para o das próximas gerações. O mundo está se redesenhando e as revoluções na tecnologia da informação e na biotecnologia nos levarão a enfrentar desafios com os quais nunca nos deparamos, até mesmo como espécie. O historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de três livros fundamentais (Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o Século 21), pondera que a fusão dessas duas áreas pode em breve expulsar bilhões de seres humanos do mercado de trabalho e solapar a liberdade e a igualdade. Algoritmos de Big Data poderiam criar ditaduras digitais nas quais todo o poder se concentra nas mãos de uma minúscula elite enquanto a maior parte das pessoas sofre não em virtude de exploração, mas de algo muito pior: irrelevância. Isso não é um cenário futurista que o historiador nos aponta, os algoritmos já estão influenciando eleições, como vimos nos EUA com Trump e agora mesmo aqui no Brasil desde o primeiro turno.
 
É de lembrar a fala de Stefan Zweig, escritor austríaco refugiado do nazismo no Brasil: “Gritar em uma sala lotada de pessoas que partilham da mesma opinião é uma aberração”. Pois é exatamente o que temos hoje, e não precisamos mais de vozes, os algoritmos assumiram a tarefa de oferecer nas redes sociais o discurso sob medida para seus iguais. A campanha de Jair Bolsonaro começou a ser arquitetada há mais de um ano nas redes e culminou com fake news se proliferando com enorme rapidez e sem controle, sob orientação de Steven Bannon, ex-assessor de Trump, que instruiu a divulgação de fake news e material misógino, xenófobo e racista nos EUA. Agora, no segundo turno, a campanha de Fernando Haddad também está correndo atrás de maior exposição nas redes pra fazer frente a expansão do seu opositor, mas Haddad propôs um acordo entre os dois partidos para conter as fake news, o que foi rejeitado por Bolsonaro.
 
O momento desse segundo turno das eleições no Brasil está nos exigindo toda a lucidez e frieza para não jogar o país num movimento muito perigoso e talvez sem volta. Como Harari explica, no passado, o trabalho barato e não qualificado serviu como ponte segura para atravessar a divisão econômica global, e, mesmo que o avanço de um país fosse lento, ele poderia esperar um dia chegar ao outro lado. Adotar as medidas corretas era mais importante do que progredir rapidamente. Mas agora a ponte está balançando, e pode desabar. Os que já a atravessaram – e foram promovidos do trabalho barato para as indústrias de alta especialização – provavelmente ficarão bem.
 
Mas os que ficarem para trás poderão se ver encalhados do lado errado do abismo, sem meios para atravessá-lo. O que você fará quando ninguém mais precisar da sua mão de obra barata não qualificada, e você não tiver recursos para criar um bom sistema de educação e retreiná-la? O Brasil ainda não atravessou a ponte: nossa economia é alavancada por commodities agrícolas e minerais, estamos longe de uma produção significativa de alto valor agregado e ocupamos a posição 64 no Índice Global de Inovação em um ranking de 126 países. A China subiu para o 17º lugar neste ano justo por investir em rápida transformação através de uma política governamental focada em pesquisa, tecnologia, educação e desenvolvimento da engenhosidade. No início da década de 1990, a China estava muito atrás do Brasil: o PIB brasileiro era de US$ 460 milhões e o chinês de US$ 360 milhões. Em 2016, o PIB chinês já estava em US$ 11,1 trilhões e o Brasil patinava em US$ 1,7 trilhão.
 
Se o PT cometeu erros – e os cometeu, sim, a partir do mandato de Dilma Rousseff, o que se agravou com o impeachment e levou a uma crise institucional e econômica – agora é a hora de corrigir o rumo. Os erros acontecem em todos os partidos, em todos os governos, aqui e no mundo. Mas quando os fatos negativos são potencializados, toda uma sociedade pode ser influenciada e sofrer. John Kenneth Galbraith, um dos mais famosos economistas do século XX, que foi assessor do presidente americano Franklin Roosevelt, já disse: Quando faltam notícias equilibradas e um Unabomber ou um desastre de avião ganham demasiada atenção, a sociedade é afetada psicologicamente, mas essas são só algumas das “anomalias normais” de uma “sociedade normal”.
 
Assim, é vital olharmos também para o passado e resgatar o que foi feito de bom pelo PT nos anos Lula. Os melhores programas poderão ter continuidade com um futuro governo de Fernando Haddad, uma liderança política como há muitos anos não surgia no Brasil. O PT tem 40 anos, e é lógico que precisa se renovar. Haddad já demonstrou disposição para tornar o PT o partido de esquerda moderado e democrático que almejam os brasileiros. É o único partido de história tão longa na nossa política e jamais fugirá do compromisso com a democracia e o desenvolvimento econômico, preservando nossas riquezas e voltando a investir na educação. É para que também venhamos a ter condições de atravessar a ponte da divisão econômica global. Não podemos ficar para trás, são nossos filhos que estão em jogo.
 
Vamos aos números, então, que são frios e exatos. As fontes: Polícia Federal / Ministério da Segurança Pública, Ministério da Educação, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Banco Mundial, Organização Mundial da Saúde (OMS), Unicef, Organização das Nações Unidas (ONU), jornal Washington Post.
 
O Brasil em 2002 e em 2014
 
Produto Interno Bruto:
2002 – R$ 1,48 trilhões
2014 – R$ 4,84 trilhões
 
PIB per capita:
2002 – R$ 7,6 mil
2014 – R$ 24,1 mil
 
Dívida líquida do setor público:
2002 – 60% do PIB
2014 – 34% do PIB
 
Valor de Mercado da Petrobras:
2002 – R$ 15,5 bilhões
2014 – R$ 104,9 bilhões
 
Lucro médio da Petrobras:
Governo FHC – R$ 4,2 bilhões/ano
Governos Lula e Dilma – R$ 25,6 bilhões/ano
 
Lucro do BNDES:
2002 – R$ 550 milhões
2014 – R$ 8,15 Bilhões
 
Lucro do Banco do Brasil:
2002 – R$ 2 bilhões
2014 – R$ 15,8 bilhões
 
Lucro da Caixa Econômica Federal:
2002 – R$ 1,1 bilhões
2014 – R$ 6,7 bilhões
 
Operações da Polícia Federal:
Governo FHC – 48
Governo PT – 1.273 (15 mil presos)
 
Varas da Justiça Federal:
2003 – 100
2010 – 513
 
Produção de veículos:
2002 – 1,8 milhões
2014 – 3,7 milhões
 
Safra Agrícola:
2002 – 97 milhões de toneladas
2014 – 188 milhões de toneladas
 
Investimento Estrangeiro Direto:
2002 – 16,6 bilhões de dólares
2014 – 64 bilhões de dólares
 
Reservas Internacionais:
2002 – 37 bilhões de dólares
2014 – 375,8 bilhões de dólares
 
Índice Bovespa:
2002 – 11.268 pontos
2014 – 51.507 pontos
 
Empregos Gerados:
Governo FHC – 627 mil/ano
Governos Lula e Dilma – 1,79 milhões/ano
 
Taxa de Desemprego:
2002 – 12,2%
2014 – 5,4%
 
Produtividade:
Governo FHC – Aumento de 0,3%
Governos Lula e Dilma – Aumento de 13,2%
 
Desigualdade Social:
Governo FHC – Queda de 2,2%
Governo PT – Queda de 11,4%
 
38 milhões de pessoas ascenderam à Nova Classe Média (Classe C)
 
Passagens Aéreas Vendidas:
2002 – 33 milhões
2014 – 100 milhões
 
Falências Requeridas em média/ano:
Governo FHC – 25.587
Governos Lula e Dilma – 5.795
 
Salário Mínimo:
2002 – R$ 200 (1,42 cestas básicas)
2014 – R$ 724 (2,24 cestas básicas)
 
Salário Mínimo Convertido em Dólares:
2002 – 86,21
2014 – 305,00
 
Exportações:
2002 – 60,3 bilhões de dólares
2014 – 242 bilhões de dólares
 
Inflação Anual Média:
Governo FHC – 9,1%
Governos Lula e Dilma – 5,8%
 
Taxa Selic:
2002 – 18,9%
2014 – 8,5%
 
Dívida Externa em Relação às Reservas:
2002 – 557%
2014 – 81%
 
Posição entre as Economias do Mundo:
2002 – 13ª
2014 – 7ª
 
Capacidade Energética:
2001 – 74.800 MW
2014 – 122.900 MW
 
Taxa de Pobreza:
2002 – 34%
2014 – 15%
 
Taxa de Extrema Pobreza:
2003 – 15%
2014 – 5,2%
 
42 milhões de pessoas saíram da miséria
 
Índice de Desenvolvimento Humano:
2000 – 0,669
2005 – 0,699
2014 – 0,730
 
Risco Brasil (IPEA):
2002 – 1.446
2014 – 224
 
Mortalidade Infantil:
2002 – 25,3 em 1000 nascidos vivos
2014 – 12,9 em 1000 nascidos vivos
 
Gastos Públicos em Saúde:
2002 – R$ 28 bilhões
2014 – R$ 106 bilhões
 
Gastos Públicos em Educação:
2002 – R$ 17 bilhões
2014 – R$ 94 bilhões
 
Criação de Escolas Técnicas:
Governos Lula e Dilma – 214
Governo FHC – 11
De 1500 até 1994 – 140
 
Estudantes no Ensino Superior:
2003 – 583.800
2014 – 1.087.400
 
Criação de Universidades Federais:
Governos Lula e Dilma – 18
Governo FHC – zero
 
PROUNI: 1,2 milhões de bolsas
 
PRONATEC – 6 Milhões de pessoas
 
FIES – 1,3 milhões de pessoas com financiamento universitário
 
Ciência Sem Fronteiras – 100 mil beneficiados
 
Minha Casa Minha Vida – 1,5 milhões de famílias beneficiadas
 
Luz Para Todos – 9,5 milhões de pessoas beneficiadas
 
Criação de 6.427 creches
 
Mais Médicos (Aproximadamente 14 mil novos profissionais): 50 milhões de beneficiados
 
Brasil Sem Miséria – Retirou 22 milhões da extrema pobreza
 
 

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