Este é o homem do ano, por Luis Felipe Miguel

Ele reforçou seus laços com os vendilhões dos templos, assenhorando-se de um expressivo capital eleitoral. Mantém azeitadas as milícias digitais, garantindo assim o bloqueio permanente de qualquer debate minimamente razoável no país.

Agência Brasil

Este é o homem do ano

por Luis Felipe Miguel

Em 2020, ele colecionou vitórias.

Esqueçam os quase 200 mil mortos (pela contabilidade oficial), a miséria em alta, a Constituição em frangalhos, a desmoralização internacional do país, a profusão de asneiras, o aparelhamento do Estado por grupos bizarros.

Nada disso é um problema para ele. Em muitos casos, é a solução.

Em 2020, ele se tornou pleno senhor do seu governo. Expulsou a pontapés Sérgio Moro, antes julgado tão poderoso, sem sofrer qualquer abalo político. Incapaz de se projetar como líder neofascista alternativo, o ex-juiz terminou por jogar a toalha e vender sua imagem à iniciativa privada enquanto ela ainda era monetizável.

O outro superministro, Paulo Guedes, reduziu-se a um bibelô do chefe. Está lá, engolindo sapos e tão agarrado ao cargo como qualquer outro. Ganha capa da Veja como prêmio de consolação, mas até parou de lançar suas bravatas de “se não me obedecerem, eu saio”.

De Olavo ao estado-maior do Exército, todos os que quiseram ser as eminências pardas do governo tiveram que tirar o cavalinho da chuva.

A aposta, que parecia arriscada, no negacionismo e na irracionalidade foi outro grande triunfo de 2020. Bolsonaro mostrou que entende seu país: um país que despreza a vida, seja por interesse ou por desespero, e que cada vez mais se espelha na violência. E que está tão mergulhado no cinismo e na estupidez que, da gripezinha ao jacaré, está pronto a engolir e mesmo aplaudir tudo.

Ele reforçou seus laços com os vendilhões dos templos, assenhorando-se de um expressivo capital eleitoral. Mantém azeitadas as milícias digitais, garantindo assim o bloqueio permanente de qualquer debate minimamente razoável no país. Dedicou o ano para avançar sobre o baixo oficialato das forças armadas e sobre as polícias militares – cortejá-los é o item mais frequente de sua agenda em público –, revelando que deseja criar músculos também para, se necessário, impor-se por meios extra-eleitorais.

Um elemento central da dinâmica política ingressou no seu cálculo e foi incorporado em seu modus operandi: o “centrão” está tão ávido por cargos e esquemas que não se incomoda de levar umas patadas de vez em quando. E essas patadas são suficientes para que sua base absolva o balcão de negócios do Planalto e continue e idolatrá-lo como aquele que se opõe “a tudo que está aí”.

Seu estilo é talvez um tanto brutal, mas a cotoveladas construiu uma acomodação com o STF – uma corte não apenas acovardada, como disse Lula em 2016, mas desinteressada de cumprir seu papel de guardiã da Constituição. Os esqueletos no armário, que tanto o incomodavam, estão às vistas de todos, mas não causam mais medo. Podem ser corruptos, achacadores, homicidas: os Bolsonaros agora se sentem blindados.

Ao longo do ano, ficou evidente que “as instituições funcionam” para manter Bolsonaro no seu cargo.

A direita é incapaz de encontrar um nome capaz de substituí-lo. Não é difícil prever que grande parte dela, nos partidos, na mídia e no “mercado”, voltará a marchar a seu lado, mesmo que tampando o nariz, para evitar o mal maior – o retorno de algum democrata ao poder.

A esquerda permanece vencida, com capacidade de mobilização insuficiente e dificuldade para definir suas prioridades e sua estratégia.

Bolsonaro não é nenhuma grande inteligência, mas sabe o caminho que deve trilhar. Vai se esforçar para fazer de 2021 um novo 2020.

O pior: tem chance de conseguir.

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