Estupro moral, por Cristiane Alves

Infelizmente, tal qual o estupro físico, muitas vezes o abusador é alguém com quem temos convívio e em quem depositamos créditos. É doloroso olhar no olho do outro e ver que nossa dor não comove, ao contrário, satisfaz.

Estupro moral

por Cristiane Alves

Na vida existem muitas formas de lidar com o outro, muitos motivos também. Podemos ser educados, grosseiros, simpáticos, frios, acolhedores, bondosos ou perversos (no sentido maniqueísta mesmo).

Aliás, perversão é palavra bem vinda aqui.

Nos relacionamos com outros porque é o outro que nos dá a escala de medida do que somos, do que almejamos ou do que detestamos em nós mesmos. Podemos dizer que nosso mundo é o que pensamos do olhar alheio sobre nós.

Então é através das interações interpessoais que desenvolvemos a linguagem e as aprendizagens facilitadas por ela.

Nessa jornada de vivências nunca somos exatamente bons ou maus, não é ideal ser simplista ao tratar de indivíduos. No entanto podemos fazer escolhas, essas que nos aproximam mais das boas motivações ou das más, que nos permitem viver mais à direita ou à esquerda, civilizatoriamente falando.

Mulheres e homens não são geneticamente mais ou menos propensos à bondade. Mas mulheres têm sido convencionalmente mais vítimas das atrocidades edificadas e aceitas coletivamente como plausíveis (embora algumas vezes chocantes), crianças também, crianças do gênero feminino muito mais. Homens, mulheres e crianças negros. Indígenas em semelhante escala.

As vezes falamos do politicamente correto como gatilho para a perversidade grotesca. Mas o incorreto parece nunca ser justificava plausível para as ações refreantes do pior da humanidade.

Quantos disseram sobre matar o desejo ao se referir às ações preventivas contra machismos, racismos, homofobias e demais monstros que nos habitam, como a necessidade de permitir que cada um crie mecanismos pessoais para lidar com as feras alheias e suas agressões?

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O ódio que nos habita precisa de freio e por vezes não conseguimos contê-lo sozinhos. Nada fazemos sozinhos, o coletivo valida o que é aceitável.

Hoje ouvi o termo “estupro moral” e metaforicamente achei perfeito.

Quando alguém que confiamos por alguma razão nos agride naquilo que somos, por prazer. Prazer sexual até. Se valer de uma fragilidade de auto convívio para espezinhar a dor alheia, difamar, humilhar, simplesmente porque sim.

Infelizmente, tal qual o estupro físico, muitas vezes o abusador é alguém com quem temos convívio e em quem depositamos créditos. É doloroso olhar no olho do outro e ver que nossa dor não comove, ao contrário, satisfaz.

Então temos que lidar com o que nos fizeram, com a culpa, a dúvida e a cobrança que vem de dentro, e que sempre vem de fora também.

A sociedade convive com o estupro. Ela o acolhe, alimenta, acalenta e fortalece. O estupro é cria social, embora seja perversão interna, pessoal e intransferível. Tanto o faz que não criminaliza o estupro. Geralmente culpa a vítima e às vezes o estuprador. Algo como dizer que “o estupro não estupra ninguém, as pessoas o fazem”. Ou “mulheres gostam de ser assediadas”; “o feminismo quer acabar com o direito de as mulheres serem assediadas”. Isso em sentido físico, mas que pode perfeitamente ser extrapolado para o sentido moral.

Quantas vezes ouvimos dizer que mulheres devem ser submissas ao marido ou ao homem? Quantas vezes ouvimos que os sindicatos atrapalham as negociações entre patrões e empregados? Quantas vezes ouvimos sobre ser melhor ter trabalho que direitos? Quantas vezes ouvimos que DIREITOS iguais devem exigir obrigações iguais?

Quantas vezes ouvimos que a vítima estava provocando? Foi assim com a mulher de mini saia, com a menina no baile funk. É assim com às vítimas de chacinas nas favelas; com as vítimas de incêndios em dormitórios esportivos; com a mulher que volta para o agressor. A culpa é sempre de quem sofre.

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A verdade é que chega um ponto em que não vemos mais problema. Quando todos sofrem, ou muitos, ou a maioria ocorre uma normatização e com ela a assimilação do ruim como aceitável.

É normal apanhar por ser negro, principalmente porque “negros são mais violentos” (nunca negros são mais agressivos porque são muito mais agredidos). É aceitável apanhar por ser mulher já que mulheres traem mais (nunca mulheres são mais expostas e criminalizadas quando traem). Gays são afeitos à prostituição (nunca é porque gays não conseguem emprego, mas precisam viver).

Existe um modus operandi da maldade. Ela não empurra a porta e invade a casa.

A maldade vem vestida de modo discreto, bate na porta, espera ser convidada, traz presentes, lembra os nomes dos da casa. Ela cuida dos animais, depois cuida das crianças. Sempre devolve o troco ou traz a mistura e um agrado. Só depois a maldade se apresenta e então estamos todos tão acostumados que achamos até injusto impedir que ela entre. Afinal, ela nem é tão ruim assim.

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