Fabricando jeans e meritocratas, por Vilma Aguiar

Disponível na Netflix, o documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” de Marcelo Gomes, pode nos dar uma pista, entretanto, de uma das variáveis que está em jogo.

Documentário "Estou me guardando para quando o carnaval chegar"

Fabricando jeans e meritocratas, por Vilma Aguiar

Muitos têm-se perguntado como as periferias e o interior do Brasil puderam aderir tão fortemente a certos preceitos do ultraliberalismo, como a meritocracia, em um ambiente tão desigual quanto o brasileiro. E ainda, como a perda de direitos que tinham décadas de existência, como os da CLT, puderam ser suprimidos sem que houvesse grandes protestos ou, ao menos, uma comoção social.

As respostas são complexas e provavelmente ainda não conhecemos todas as suas camadas, que só serão perceptíveis na decantação do tempo histórico.

Disponível na Netflix, o documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” de Marcelo Gomes, pode nos dar uma pista, entretanto, de uma das variáveis que está em jogo.

Marcelo Gomes, que já fez “Cinema, aspirinas e urubus”, vai ao encontro da pequena cidade de Toritama, no agreste pernambucano. Em sua infância, ele visitava o vilarejo em companhia do pai. Era então uma cidade rural dominada pelos pequenos agricultores e pelo silêncio. O lugar que ele encontra agora é outro. Autointitulada a capital brasileira do jeans, o lugar produz 20% de todo o jeans do Brasil. e quase todos os seus 43 mil habitantes trabalham nisso. O documentário preferiu focar suas lentes na produção propriamente dita, mostrando as máquinas e as pessoas trabalhando freneticamente, e em seus depoimentos acerca da rotina de trabalho e de sua visão acerca desse trabalho. É um filme sobre como uma forma exacerbada de exploração do trabalho é naturalizada e mesmo exaltada pelas pessoas atingidas por ela.

Salta aos olhos o descompasso entre os relatos e o que é mostrado. Todas as pessoas se mostram satisfeitas com o trabalho e com o dinheiro que recebem por ele. Elas se dizem orgulhosas de sua independência como trabalhadoras autônomas e da possibilidade de fazer seu próprio salário, já que este é determinado pelo volume da produção, paga por peça costurada. O que vemos, por outro lado, é um trabalho exaustivo, repetitivo, desamparado e que mantém a todos na pobreza. Os relatos, comprovados pela permanência da equipe de produção na cidade, são de jornadas de 16 a 18 horas diárias, de domingo a domingo, já que neste há uma feira em que a produção é vendida. Numa linha de produção de tipo fordista, cada trabalhador costura pequenos segmentos de centenas de peças por dia, recebendo de 10 a 30 centavos por peça.

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O cineasta se abstém de perguntar como se pode estar satisfeito nestas condições ou como se produz essa satisfação, mas mostra o quanto, objetivamente, esse tipo de trabalho não entrega o sonho da ascensão social prometida. Muito poucos se tornam patrões e, mesmo esses, não chegam a um tipo de situação que os coloca fora da precariedade. Mais que isso, em sua jornada, Marcelo Gomes descobre que a cidade para e se esvazia no carnaval, quando, seus moradores/trabalhadores se dirigem às praias da região para desfrutarem de sua semana de férias no ano. Para isso, muitos têm de vender bens como geladeiras, fogões e televisores num bazar improvisado na cidade. Vão viver uma vez por ano, como dizem. O trabalho serve para ganhar dinheiro. O carnaval na praia é a vida.

O filme pode dar uma das chaves para responder às questões que coloquei acima, porque mostra que esses trabalhadores estão comparando suas condições atuais às anteriores. Eram boias-frias nos canaviais que existiam na região ou microagricultores. Ou seja, a duração e a intensidade do trabalho provavelmente eram as mesmas, acrescidas da presença de um capataz e do sol escaldante. No trabalho nas oficinas, chamadas de facções, muitos são donos das máquinas e são controlados não por uma pessoa mas pelo valor que querem ganhar, o que imprime uma velocidade e uma duração ao trabalho. Essa forma de controle, provavelmente mais eficiente que a do chicote, é sublimada pelo manto de uma pseudo-liberdade do indivíduo que é senhor de seu próprio tempo. Ou ainda é travestida de perícia ou capacidade e é sacralizado pela ideia do trabalho como uma benção (em contraposição aos desempregados) e uma virtude pessoal, a do bom trabalhador, que se opõe ao vagabundo.

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O que vemos na tela é a encarnação do capitalismo mais selvagem, mas os atingidos parecem estar cientes apenas de suas vantagens. Ele os transformou em empreendedores, em donos de si mesmos e de seus meios de produção. Incutiu em muitos deles a ideia de que podem enriquecer se se esforçarem bastante. Assim, tudo se passa como se eles trabalhassem porque querem e não porque estão obrigados pela falta de alternativas. Além disso, não estão mais presos ao peso da vida rural. Os jovens ouvem funk e hip-hop, usam colares como os MCs e manipularam seus celulares com destreza. No meio do agreste, entre carrinhos puxados por mulas e motos, vemos também roupas estampando grifes estrangeiras. É tudo falsificado, mas não importa. O mercado globalizado chegou a Toritama como a quase todos os rincões do Brasil.

Se pensarmos no mercado de trabalho no país, uma parte da explicação da apatia e da adesão a fantasias liberais, se desenha. Neste, mais de 42% da população economicamente ativa está na informalidade e 12% está desempregada, além do significativo percentual de trabalhadores tomados pelo desalento e ou pela atividade do “emprecariado”. Para bem mais da metade dos nossos trabalhadores, os diretos previstos na CLT são miragens. E não se luta por coisas inatingíveis. A luta pela sobrevivência é bem mais urgente. Por outro lado, como suportar uma vida totalmente tomada pela necessidade de sobreviver? Na falta de outros horizontes, é melhor pensar que, se alguém se esforça muito, poderá superar esse limite que sufoca. Isso, por si mesmo, confere uma transcendência ao cotidiano massacrante. Cria o sonho de que uma oportunidade pode aparecer a qualquer momento, basta se manter atento e confiante. E que os melhores conseguem e conseguirão.

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Simplificadamente, a precariedade produz o ultra individualismo e, este, o ideal da meritocracia que acaba por justificar muita coisa, inclusive a desigualdade. É o looping da sujeição. No agreste pernambucano ou na periferia de São Paulo.

Vilma Aguiar é socióloga, Doutora em Ciências Sociais (UNICAMP), Mestre em Filosofia (USP). Atualmente é professora de pós-graduação, presidente da Escola da Política e desenvolve uma pesquisa sobre o impacto do feminismo na vida privada de mulheres. Escreve sobre política, feminismo e crônicas no blog Política no feminino (vilmaaguiar.blogspot.com)

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1 comentário

  1. Ótimo post sobre o imperdível documentário de Marcelo Gomes, um retrato fiel e sentimental de um Brasil pouco conhecido, com uma riqueza de personagens, um humor característico do nordestino, que só aumentam o prazer em assistir.

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