Filmes para o nosso tempo OU Vale a pena ver de novo, por Franklin Frederick

Filmes que também resgatem nossa humanidade face à desumanização promovida pelo fascismo. Escolhi 5 filmes para abrir esta lista.

Filmes para o nosso tempo OU Vale a pena ver de novo

por Franklin Frederick

No Brasil de Bolsonaro há uma permanente tentativa de deshumanização da sociedade. Os ataques explícitos à cultura, à educação e à ciência, entre outros, servem a este objetivo: criar indivíduos desvinculados de qualquer relação com a Terra, com outros seres vivos e com a própria comunidade humana. Estes seres desenraizados e desumanizados são a base de apoio do bolsonarismo. Não há nada de novo neste fenômeno: a desumanização – de si mesmo e do outro – é ao mesmo tempo condição necessária de sua origem e parte do programa  do fascismo italiano e do nazismo alemão; e muito antes,  está na base da exploração colonial européia, da escravidão, do racismo e da ‘supremacia branca’, todos elementos profundamente interligados à origem e desenvolvimento do sistema capitalista. Não por acaso: a  desumanização é intrínseca ao sistema capitalista posto que este se baseia na exploração do trabalho humano e do planeta. Daí os virulentos ataques do bolsonarismo aos direitos dos trabalhadores e ao meio ambiente, sua regressão ao patriarcalismo mais obtuso, tudo em defesa  do capitalismo mais selvagem e irresponsável, o que hoje chamamos de neoliberalismo. A intrínseca tendência do capitalismo à desumanizar e desenraizar o ser sempre sofreu resistência por parte da comunidade humana. E uma parte  fundamental desta resistência manifestou-se pela cultura e pela arte. Quantas das chamadas grandes obras da literatura mundial são uma denúncia veemente da exploração do ser humano e do capitalismo? Quanto esforço foi colocado em tantas obras de arte para lembrar-nos de nossa própria humanidade, sempre ameaçada pelo esquecimento e pelo abandono? No cinema também há vários filmes que expressam esta mesma resistência. E já no seu início, quem melhor que Chaplin encarnou a resistência do humano face à máquina, à injustiça e à exploração?  Pois nenhuma barreira à exploração promovida pelo capitalismo, pelo fascismo e pelo bolsonarismo é mais eficaz do que lembrarmo-nos, sempre, de nossa própria humanidade.  Nossa maior resistência e nossa esperança são uma só: o ser humano.

Tudo que é humano nunca foi tão ameaçado no Brasil quanto agora. A resistência é fundamental. E como afirmei que uma parte importante desta resistência é cultural, gostaria de propor aqui criarmos coletivamente uma ‘mediateca’, uma lista de filmes que, de alguma maneira, ‘ falem’ sobre o nosso tempo, nos ajudem a compreendê-lo. Filmes que também resgatem nossa humanidade face à desumanização promovida pelo fascismo. Escolhi 5 filmes para abrir esta lista. Espero que quem gostar da proposta  sugira outros filmes , com a respectiva sinopse como faço abaixo, indicando como o filme escolhido  se refere ao nosso tempo. Podemos assim construir uma lista de filmes que todos deveriam assistir, filmes a serem vistos e debatidos, espalhados por escolas, colégios e universidades, ampliando assim um pouco nossa compreensão e nossa resistência.

  1. Umberto D – de Vittorio de Sica ( 1952)

A pandemia do COVID 19 expôs com uma claridade sem precedentes a trágica situação dos idosos numa sociedade capitalista. Passada a idade ‘produtiva’, o ser humano perde o seu valor. Enquanto em todas as culturas antigas a idade era respeitada e reverenciada e os idosos tratados como detentores da história vivida e da sabedoria acumulada de uma determinada comunidade, no capitalismo o idoso é principalmente fonte de gastos inúteis para o estado, a aposentadoria. Esta situação não é única no Brasil, trata-se de um fenômeno contemporâneo espalhado por muitos países, mas que em períodos de crise econômica como a que vivemos agora , é ainda mais exacerbado. Talvez o filme que melhor retrate a triste situação de um idoso largado a si mesmo numa sociedade em crise econômica seja ‘Umberto D.’ de Vittorio de Sica. Umberto é um funcionário público aposentado que vive sozinho com o seu cachorro num quarto de pensão. É um amante de livros – para realçar talvez o simbolismo do idoso como portador de conhecimento para as novas gerações. De fato, uma de suas poucas relações é com uma jovem pobre com quem se encontra e conversa ocasionalmente. As dificuldades financeiras de Umberto D. vão se acumulando enquanto ele tenta manter sua dignidade. Passa a vender seus poucos livros para ganhar um pouco mais. Porém não consegue mais nem pagar o aluguel do pequeno quarto em que vive e face à uma ameaça de despejo chega à pensar no suicídio. Umberto D.  É um retrato profundo e contundente da situação do idoso em nossa sociedade.

2. 12 Homens e uma sentença (12 Angry Men) – Sidney Lumet (1957)

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O primeiro filme de Sidney Lumet é uma obra-prima e um filme fundamental sobre o nosso tempo. Um grupo de jurados saídos de uma classe média tão bolsonarista quanto a brasileira – completamente satisfeita consigo mesma, certa de suas ‘ virtudes’ e de sua superioridade – se reúne para  dar o veredito sobre a culpa ou não um jovem porto-riquenho acusado de assassinato. O racismo implícito destes representantes da classe média é muito bem mostrado pelo filme, pois de saída todos – exceto um – dos jurados está convencido da culpa do rapaz. Porém um dos jurados – no filme este papel é de Henry Fonda – acredita que não há provas suficientes e começa a questionar uma por uma as pressuposições e as ‘certezas’ dos outros jurados. O debate entre a personagem de Henry Fonda e os outros jurados é uma verdadeira aula sobre como confrontar o pensamento quase-fascista dos representantes da classe média dos EUA retratados no filme, tão semelhantes à classe média bolsonarista brasileira. No filme trata-se sobretudo de salvar a vida de um jovem porto-riquenho que pode ser condenado à morte se o veredicto for culpado. E a facilidade com que os outros jurados estavam prontos a condenar o jovem reflete muito bem a mesma facilidade com que grande parte da classe média brasileira assiste ao massacre dos jovens pobres e negros no Brasil. O conflito é o mesmo.

3. Garota Negra (La Noire de…) – Ousmane Sembène (1966)

Mais um filme tendo como pano de fundo o racismo. Uma jovem negra é levada do Senegal – antes parte do império colonial francês – como empregada doméstica para a França, com a promessa de, na metrópole, ter um futuro melhor. Porém a realidade do racismo e da exploração pelo seus novos patrões acabam com suas ilusões e também com a sua vida. Ousmane Sembène, falecido em 2007, é  um dos  principais cineastas africanos e muitos de seus filmes deveriam ser mais vistos no Brasil de hoje. O filme retrata muito bem a realidade da colonização e de sua exploração, a desumanização intrínseca do colonizado. Como o Brasil também foi um país colonizado que conheceu por longo tempo a escravidão, é um filme que também fala sobre a realidade do racismo e da permanente desumanização e exploração dos negros no Brasil.  A história da pobre Diouana – a personagem do filme – é também a história de muitas jovens negras e pobres no Brasil.

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4. O Homem Elefante (The Elephant Man) – David Lynch (1980)

Lembro muito bem do impacto que foi assistir, adolescente, este filme num cinema da Praia do Flamengo no Rio, hoje transformado em mais uma igreja evangélica. Não era o filme que eu esperava, era outra coisa. Lembro de alguns risos na platéia quando o Homem Elefante aparece pela primeira vez  – acho que muita gente esperava ver um filme de terror – e lembro sobretudo do silêncio avassalador da platéia no final do filme. E do fato de as pessoas permanecerem sentadas por muito tempo depois que se acenderam as luzes, sem se mexer. No cinema só vi isso acontecer uma outra vez , em ‘Dancer in the Dark’ de Lars von Trier. No momento em que, como escrevi acima, há um ataque permanente ao que é ser humano no Brasil, ‘O Homem Elefante’ é um filme que resgata nossa humanidade. John Merrick, a personagem do filme, nascido com tantas deformidades que lhe dão o apelido de ‘homem elefante’, é primeiro explorado por um circo como uma ‘ curiosidade’ , exposto aos risos e insultos de homens e mulheres completamente desumanizados. Resgatado por um médico, passa a ser explorado de novo, desta vez de um modo mais sutil, pela aristocracia  que o vê como uma criatura  exótica da moda. Mas o homem elefante se impõe a todos por sua humanidade. Há alguma cenas que permanecem por muito tempo em nossa memória, como quando John Merrick é perseguido por uma turba enfurecida – incitados, diria-se hoje,  pelo ‘ gabinete do ódio’ – numa estação de trem, se refugia num banheiro e , cercado e atacado pela multidão que retira o capuz que cobre  seu rosto deformado, grita : ‘ Eu sou um ser humano!’

Ao final do filme o deformado John Merrick é indubitavelmente o ser mais ‘belo’ do filme, o mais humano, aquele com o qual o melhor de nós mesmos mais de identifica. Poucos filmes nos lembram com tanta intensidade o que é ser humano e o que é a humanidade.

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5. Distrito 9 (District 9) – Neil Blomkamp ( 2009)

Um grupo de extraterrestres é preso na terra e são obrigados a viver numa espécie de gueto. A metáfora do filme é bastante clara: os ‘alienígenas’ que vivem numa favela e tem a forma de insetos (!!) são, claro, os pobres e deserdados de uma sociedade ‘bolsonarizada’ que só os vê como uma ameaça e sobretudo como    ‘diferentes’ – de uma outra ‘espécie’ – de si mesmos.  A história do filme foi inspirada por fatos reais acontecidos no  ‘District 6’ da Cidade do Cabo, África do Sul, no período do ‘apartheid’. Um burocrata branco sul-africano tem a incumbência de remover os alienígenas para um campo de concentração fora da cidade. Ocorre um acidente e este burocrata começa a se transformar num dos alienígenas, num ‘ inseto’ – como se fosse uma versão da “Metamorfose” de Kafka em ficção científica. Os alienígenas com a  forma de inseto causam, no início, uma certa repulsa, porém, ao longo do filme – e daí a sua importância – são estes ‘insetos’ que encarnam de fato a humanidade , não as criaturas bolsonarizadas ao seu redor deles. No final do filme o  burocrata é completamente transformado num ‘ inseto’ – porém é com ele e com sua espécie que nós nos identificamos mais. É  interessante que o filme de enorme sucesso de James Cameron ‘Avatar’ seja do mesmo ano – 2009. Nestes dois filmes há no final uma negação completa da condição de ‘homem branco’ – em ‘Distrito 9’ por ‘acidente’ – a personagem – um homem branco – se transforma num ‘ inseto’ alienígena; en ‘Avatar’ para que a personagem – outro homem branco -, ferido, possa sobreviver abandonando seu corpo humano e se transformando de vez em seu avatar. Mas nos dois casos há uma condenação completa da condição ‘ homem branco’ , uma recusa profunda de continuar a ser um ‘ homem branco ‘ – e nos dois filmes justamente porque não é mais no ‘homem branco’ bolsonarizado que se encontra a humanidade, mas em outro ser, distinto, até mesmo em uma outra ‘ espécie’ . ‘Distrito 9’ mostra com clareza o quanto o bolsonarismo – e toda forma de fascismo – deve ao mito da ‘ supremacia branca’, e como esta ‘demoniza’ o outro, roubando dele a sua humanidade. Mas não há ato mais desumano do que o de negar ao outro a sua humanidade. Resistir ao bolsonarismo e à toda forma de fascismo é sobretudo recusar a desumanização do OUTRO, recusar que injustiças sociais se cristalizem em hierarquias ‘naturais’ e que a pobreza  seja considerada ‘normal’ e não o resultado de um sistema construído para excluir muitos e beneficiar alguns.

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4 comentários

  1. Excelentes filmes, assim como são sempre excelentes e de alto nível ético e cultural as crônicas do Franklin Frederik que leio aqui no GGN. Acho mesmo que esta enquete poderia ser também expandida para os leitores do site escolherem as cinco melhores contribuições do Franklin nos últimos anos. Com certeza, vai ser uma escolha difícil…. eu já adianto uma: a coluna em que é mencionado o aniversário de nascimento de Wilhelm Humboldt, com destaque para sua viagem à América do Sul e sua denúncia da destruição do meio ambiente e da tragédia da escravidão. Quanto aos filmes, cito dois: VIVER (Akira Kurosawa, 1952), uma bela reflexão sobre a grandeza que qualquer pessoa pode encontrar, ao refletir sobre sua vida; e RIO 40 GRAUS (Nelson Pereira dos Santos, 1953), maior filme do cinema brasileiro, por mostrar por que temos um país, mas não somos ainda uma nação, por ignorar e menosprezar em sua integralidade o conjunto da nossa população, tema mais do que atual em tempos de escuridão.

  2. Excelentes filmes, Franklin Frederick!

    João Cabral de Melo Neto com seu Morte e Vida Severina também poderia ajudar nessa empreitada de nos redescobrir, no Brasil.

  3. Muito bom Franklin! Parabéns por mais um excelente texto e pela iniciativa!
    Um filme que gostaria de citar é Estamira. É uma mulher vive do que acha num lixão em Jardim Gramacho no Rio de Janeiro. Com mais de 60 anos, tem transtornos mentais e uma tocante lucidez e nos coloca diante da dura realidade e da loucura, que é esse arranjo social humano do qual muitas vezes só vemos partes fragmentadas. (2006, direção de Marcos Prado)
    Quero também citar A cor púrpura, de Steven Spielberg, 1986, em que a personagem é violentada pelo pai e tem dois filhos. Depois é doada a um homem e passa anos afastada da família. Durante anos escreve cartas para a irmã, todas extraviadas. Durante esse tempo, no início calada, sufocada, vai criando força à medida em que passa por certas experiências.

  4. Franklin, seu texto é simplesmente espetacular e resume bem toda a nossa angústia em face desse lado sombrio em que o Brasil foi mergulhado.
    Infelizmente o Presidente fez com que muitos brasileiros mostrassem o seu lado perverso, cruel e desumano.
    Ele foi o responsável por nos mostrar o que isso existia dentro de pessoas que pensávamos ser totalmente diferentes.
    Expurgou seus maiores monstros.
    São ótimas as indicações de filmes que você colocou aqui e melhor ainda a sua ideia de criarmos coletivamente uma ‘mediateca’, fazendo com que não percamos as esperanças de que dias melhores virão e nos nos deixemos sufocar pelas ações do mal.
    Depois com calma indicarei algum filme para essa lista.
    Obrigada por fazer a diferença no Planeta.

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