Fóruns Chans: como se constrói a narrativa por trás dos ataques como o de Suzano

A questão aqui não é relativizar criminosos extremistas e seus discursos, mas de compreender que alguns minutos de conversa podem fazer a diferença na vida de um jovem, com problemas de autoestima e de socialização

Por Igor Tadeu Camilo Rocha

No Justificando

Na terça-feira, dia 12 de março de 2019, um atentado na escola estadual Raul Brasil, em Suzano, São Paulo, provocou, ainda provoca e provocará por muitos anos, horror ao Brasil, além de ter tido repercussão internacional. Dois jovens, um de 25 e outro de 17 anos, invadiram a escola com armas de fogo e algumas armas medievais, como machadinhas e bestas, e assassinaram 5 alunos, que tinham de 15 a 17 anos, além de duas funcionárias da escola e mais um homem que era tio de um dos atiradores, e se mataram em seguida.

Causa choque, ainda, o fato de que os assassinos postaram em suas redes sociais fotos com as roupas que usaram durante o atentado, deixando sinais do que iriam fazer. Uma das testemunhas, segundo jornal, teria mencionado que um deles dissera para que “ficassem espertos” nos próximos dias. Tudo indica que não se tratou de um surto repentino, nem um crime que se enquadra nas classificações mais típicas – passional, acerto de contas, etc. Ele teve causas que passam distantes da maioria dos olhares da sociedade.

Diagnósticos sobre o caso já surgiram. A meu ver, mais dos mesmos equívocos, similares aos cometidos quando, nos anos 1990, culparam músicas dos grupos Marilyn Manson, KMFDM e Rammstein pelo terrível caso dos tiros em Columbine, no Colorado, nos Estados Unidos – que motivou um perturbador e genial documentário de Michael Moore[1] – ou daqueles que culparam os jogos de RPG pelo assassinato de uma jovem em Ouro Preto, em outubro de 2001. Figuras tão distintas como o atual vice-presidente Hamilton Mourão ou a escritora Glória Perez atribuíram ao vício e cultura dos jogos eletrônicos, respectivamente, a culpa pela tragédia – embora a segunda tenha mencionado o agente que é o assunto central desse texto. A exemplo de casos análogos nos Estados Unidos, figuras políticas expressaram, durante esse fato terrível, posições pró e contra leis mais permissivas para posse e compra de armas pela população civil.

Porém, há um universo obscuro que, até o momento, somente alguns jornais como a Revista FórumEstado de Minas e o portal R7 deram alguma atenção: os atiradores teriam sinalizado e pedido dicas no fórum Dogolachan, dias antes do atentado, ao que, pelo que tudo indica, foram atendidos. Mais que isso, foram celebrados ali como heróis, termo usado em comentário enviado no Twitter a Lola Aronovich, que há anos denuncia o perigo desses ambientes.

Mas o que seriam esses ambientes virtuais, onde deram conselhos e incentivos à barbárie acontecida em Suzano? É de suma importância o conhecimento da sociedade sobre eles, sobretudo pais e responsáveis por adolescentes, além de professores, uma vez que discussões estéreis sobre influência de jogos de videogame ou músicas de teor violento – cujas ligações com práticas reais de violência são, quando não inexistentes, extremamente frágeis – acabam cobrindo, como uma cortina de fumaça, um problema sério e subestimado que pode estar acontecendo dentro de nossas casas, vizinhança ou círculo de amigos.

Sombrios ambientes virtuais

Em abril de 2011, um caso similar ao de Suzano causou bastante comoção no Brasil. Um jovem de 23 anos, Wellington Menezes de Oliveira, entrou na escola municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, no Rio de Janeiro, e abriu fogo, matando 10 meninas e 1 menino, deixando 13 feridos, matando-se em seguida. Deixou uma carta de suicídio que repercutiu bastante da mídia – a meu ver, irresponsavelmente divulgada. Por meio dela, ficou público o envolvimento do atirador com uma espécie de seita virtual chamada Hominis Sanctus, cujo conteúdo e objetivos eram controlados por Emerson Eduardo Rodrigues e Marcelo Valle Silveira Mello, um residente em Curitiba e outro em Brasília, quando foram presos pela Operação Intolerância, da Polícia Federal, em 2012. O site, permeado de fundamentalismo religioso – católico, no caso – também trazia mensagens fortes de intolerância contra judeus, nordestinos e homossexuais, mas, sobretudo, contra mulheres. Mello, que saiu da prisão pouco tempo depois, fundou em 2013 o Dogolachan, que foi objeto de uma matéria investigativa do Ponte Jornalismo.

O fórum repleto discursos de ódio tem como alvos, sobretudo, mulheres, e conecta crimes diversos acontecidos de lá pra cá: as ameaças feitas contra a blogueiras, ativista e professora Lola Aronovichameaças de atentado à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, em 2016, o próprio crime de Suzano, bem como outro acontecido no dia seguinte, em que um estudante esfaqueou um colega e planejava se matar depois, em Campo Grande, Rio de Janeiro, entre outros. As imagens abaixo são prints colhidos à época das ameaças na UFMG:

Cruzando-se alguns elementos contidos, por exemplo, no massacre de Realengo – as mortes terem sido, sobretudo, de meninas – com outros elementos depreendidos dos discursos de frequentadores deste fórum, como referirem-se a usuários de drogas, estudantes, população LGBTQ+ e militantes de esquerda – sobretudo feministas – por “degenerados”, entre outros apontamentos feitos nas diversas matérias feitas sobre o Dogolachan e ambientes virtuais semelhantes, bem como denúncias como a feita pelo youtuber Felipe Neto, é possível traçar, brevemente, um padrão para se analisar tais discursos e comportamentos, que podem resultar em violência real:

1) existe uma ideia de automerecimento e autorreconhecimento que permeia os discursos extremistas que, dito de outro modo, cria uma narrativa na qual aqueles homens “santos” dos fóruns extremistas foram injustiçados pelos valores modernos (feminismo, emancipação de minorias, migrantes, etc.) e não puderam, assim, realizar seu “destino” de sucesso, como “homens bons”;

2) sobretudo o campo da frustração sexual é fortemente explorado, tendo o feminismo, bem como população LGBTQ+ como suas antíteses;

3) soma-se os dois pontos anteriores a se criar um senso de comunidade ou comunidade de sentido, na qual o extremismo é validado e o ódio constitui elemento de coesão identitária. Vou comentar brevemente os três pontos, antes de concluir.

“Ninguém é especial”

Em Clube da Luta,[2] obra clássica publicada em 1996 pelo escritor Chuck Palahniuk, em diversas passagens repetia-se o mote “ninguém é especial”, que, de certa forma, causava choque ao leitor ou a quem teve algum contato com a frase por outros meios. O porquê do choque se deve a uma contradição da modernidade, marcada pela hegemonia neoliberal e a um mundo sem utopias, como uma espécie de “fim da história”, como pensou um dia Francis Fukuyama[3]: ao mesmo tempo em que se prega a ideia de um novo self made man, cuja felicidade e realizações em todos os campos (profissional, pessoal, sexual, existencial) é item tanto obrigatório como alcançável pelo esforço individual constante, existe uma realidade material e cultural que torna tais realizações dificilmente alcançáveis por qualquer pessoa, ainda que ela faça parte de alguma maioria, no sentido sociológico.

Problemas psicológicos e psiquiátricos estão cada dia mais comuns entre adolescentes e estudantes universitários. Grande parte disso se deve à falta de perspectivas que colide com o ideal do self made man moderno. Aqui, uma geração que teve acesso à escolaridade muito maior que as gerações de seus pais e avós (dados do Ipea) têm também uma dificuldade maior que eles de alcançar alguma independência material, dentro de um quadro de precarização e desvalorização do trabalho, que atinge de maneira mais aguda a população jovem (segundo levantamento recente, o desemprego entre jovens é o dobro do que entre a população em geral).

Estresse e problemas psicológicos e psicossociais, falta de perspectivas, falta de algo a acreditar. Barreiras diversas de alcance do sucesso material são constituintes da realidade da maioria dos jovens. Mas, na linguagem do extremismo que é passada nos chans, trazer a narrativa de que se tem o direito natural ao oposto disso, somado à ideia de que tais frustrações são produto de uma degeneração completa da sociedade, torna-se uma verdadeira tópica discursiva.

Estudos como o de Paul Hockenos[4] mostram haver uma clara relação entre o surgimento e difusão de discursos de ódio em contextos com essas características. Culpar imigrantes pelo desemprego de jovens brancos é um elemento de coesão para grupos de extrema direita europeus. No Brasil, fazer o mesmo quanto a nordestinos (tratando-se de jovens do centro-sul) ou quanto aos negros cotistas na universidade pública, tradicional bunker de privilégios e empregos de uma classe média branca, parte do mesmo princípio. O mesmo é feito com relação às mulheres e feminismo, assunto do próximo tópico.

Incels

Alek Minassian tornou-se conhecido em 2018 ao cometer um atentado atropelando um grupo de pedestres e matando 10 pessoas com uma van. Pouco antes do ataque, Minassian havia postado em sua página no Facebook um texto em que dizia: “a rebelião incel já começou! Vamos derrotar todos os Chads (homens atraentes e sexualmente ativos) e Stacys (mulheres sexualmente ativas)”.

Quatro anos antes do ataque, o autor do crime postou vídeo em que dizia ser virgem aos 22 anos e sequer havia beijado alguma garota, dizendo ainda que não compreendia o motivo delas não se sentirem atraídas por ele. Sobretudo quando vemos tal postagem e pensamos novamente no atirador do Realengo ter atirado para matar somente em meninas, além do forte teor misógino de falas e postagens dos chamados incels (contração do termo involuntary celibacy, ou celibato involuntário, que define homens que não conseguem relacionamento romântico ou vida sexual ativa por razões não voluntárias – como problemas de socialização e autoestima), facilmente conseguimos associar a frustração e repressão sexuais ao direcionamento de ódio a alvos que materializam a antítese dela – mulheres sexualmente ativas, as feministas, etc. Páginas no Facebook como a Incel Checklist mostram, diariamente, que comentários dessa natureza ocorrem em fóruns muito menos secretos que os chans. Algumas imagens abaixo exemplificam:

Frases terríveis como as colocadas acima, mais que deram sinais de problemas de socialização – que poderiam ser resolvidos buscando-se ajuda especializada – denotam que existe um destaque à repressão e frustração sexuais na composição desse arquétipo de jovem problemático que busca refúgio nos chans. Da mesma maneira que os “outros” são responsáveis pelo seu fracasso material e existencial, elas são colocadas como responsáveis por sua vida sexual insatisfatória.

Infelizmente, trata-se tal questão como piada, ignorando-se a violência potencial e real que incels, organizados e fanatizados, podem significar. Deve-se mencionar o culto a uma masculinidade tóxica, em muitos níveis. O pick-up artists (PUA) – uma espécie de “treino para seduzir”, que muitas vezes passa dos limites, naturalizando assédio e estupro – e termos que fazem referência a essa forma de socialização masculina (cuck, macho alpha, beta-cuck, etc.) formam uma concepção violenta, hierarquizada e totalmente misógina da masculinidade, levada ao radicalismo.

Senso de comunidade

Em artigo publicado no Huffington Post, por Cristopher Douglas, e discutido brevemente por mim no Justificando, é feita uma discussão sobre como grupos fundamentalistas constroem ecossistemas de informação, onde organizam-se em forma de comunidade, de maneira a constituírem uma cosmovisão, na qual a rejeição à modernidade é sustentada pela pseudociência, teorias conspiratórias e notícias falsas. No caso do Dogolachan e similares, há um processo estruturalmente idêntico.

Tais fóruns constituem também ecossistemas de informação, nos quais a frustração sexual, rejeição ao feminino e aos valores modernos, além do ódio direcionado aos agentes que materializam suas rejeições formam signos de uma comunidade, elementos de coesão identitária. Matéria recente da Vice mostra como grupos extremistas angariam sectários por processos dessa natureza. Christian Picciolini, ex-neonazista que escreve como se livrou dessa militância,[5] conta como que a baixa autoestima o levou ao extremismo e como lá o pertencimento a um grupo a transforma em sensação de poder e força.

O que fazer?

Concluindo o artigo, proponho três tipos de ações. A primeira, inspirada no relato e entrevistas de Picciolini, que tem falas e palestras diversas publicadas em vídeo, que é adotar uma postura de maior empatia, diálogo e acolhimento com essas pessoas. Não, a questão aqui não é relativizar criminosos extremistas e seus discursos, mas de compreender que alguns minutos de conversa podem fazer a diferença na vida de um jovem, com problemas de autoestima e de socialização, quanto a buscar ajuda e saídas para os seus problemas com amigos, familiares, especialistas e professores ao invés de fóruns que vão lhe indicar onde comprar armas ou normalizar seu ódio.

A segunda, é um combate sem tréguas contra esses fóruns, sobretudo quem os organiza. Denunciar seu discurso e pressionar as autoridades para que os tratem como organizações criminosas, sem também incorrer no erro de dar publicidade a seu discurso de ódio, é urgente. Por fim, ações efetivas relacionadas ao combate ao bullying, à masculinidade tóxica e de amparo e assistência a jovens com problemas psicossociais devem ser apoiadas e ampliadas.

PS.: presto aqui solidariedade às famílias e amigos de todas as vítimas do massacre de Suzano. Também aos familiares e amigos dos atiradores, que não tiveram culpa alguma do crime e que terão de lidar, pelo resto de suas vidas, com um trauma dessa magnitude.

 

Igor Tadeu Camilo Rocha é mestre e doutorando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

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