Kagemusha, Brasil, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por que rever Kagemusha? Porque o Brasil se transformou num simulacro em que as aparências substituíram a realidade à ponto de nosso país se encontrar na beira do abismo. 

Kagemusha, Brasil

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Esse é sem dúvida alguma um dos melhores filmes de Akira Kurosawa.

Em 1572, durante o Período Sengoku (guerras civis no Japão), Shingen Takeda é mortalmente ferido por um tiro nas proximidades do castelo inimigo. Antes de morrer ele exige que seus conselheiros ocultem sua morte. Após enterrar Shingen Takeda num lago, os lideres do clã colocam um sósia no lugar dele.

O sósia de Shingen é um marginal de origem humilde. Com alguma dificuldade ele aprende a representar o líder substituído. Não demora muito para o substituto começar a gostar da nova vida. Muito embora seja mantido sob estrita vigilância daqueles que sabem a verdade, para todos os efeitos ele desfruta as mesmos privilégios e prerrogativas que Shingen Takeda.

A farsa se transforma em tragédia no momento em que o sósia revela sua verdadeira identidade ao levar um tombo tentando montar o cavalo do líder morto. Ele é expulso do castelo e o clã passa a ser liderado por um belicoso herdeiro da posição de Shingen. Mas o novo líder não é um guerreiro astuto, cuidadoso e experiente como Shingen. O resultado da guerra que ele inicia é desastroso.

O filme termina mais ou menos como começou. O novo líder imprudente encontra a morte na guerra assim como o ousado Shingen Takeda. Mas ao contrário do antecessor (que levou um tiro ao se aproximar desnecessariamente do castelo inimigo) e do sósia (que preservou a paz enquanto substituiu Shingen) ele provoca a total destruição do clã que comanda.

Há uma diferença sutil entre a conduta do sósia e a de Shingen. O verdadeiro líder colocou em risco a própria vida e tentou salvar seu clã mantendo as aparências. O sósia dele provoca a derrota do clã ao ser descoberto e substituído por um guerreiro incapaz de esperar o momento propício para a batalha.

Kurosawa preenche o abismo que existe entre a realidade (a morte do líder) e as aparências (a substituição dele pelo sósia) com o predomínio do contexto ritualizado opressivo em que cada pessoa do clã Takeda deve desempenhar seu papel social dentro de uma hierarquia fixa e sem se preocupar com o resultado final de sua conduta. A verdadeira tragédia, portanto, não é a morte de Shingen  ou sua substituição pelo sósia e sim a vida própria que as relações sociais adquirem em função da perpetuação do rito e da inevitabilidade resultante da hierarquização da sociedade no momento em que o novo líder declara uma guerra no momento inadequado.

Por que rever Kagemusha? Porque o Brasil se transformou num simulacro em que as aparências substituíram a realidade à ponto de nosso país se encontrar na beira do abismo.

Bolsonaro é um líder imprudente cujas obsessões autoritárias e ambições genocidas começam a dominar sociedade e a correr o que resta das instituições democráticas. Considerado um gênio por banqueiros e ministros do STF, o Kagemusha do Ministério da Economia só conseguiu paralisar a economia, desperdiçar as reservas internacionais e transformar a recessão numa depressão econômica. Com ajuda da Rede Globo, Sérgio Moro faz pose de estadista como se pudesse substituir o verdadeiro líder político de expressão nacional e internacional que ele jogou na prisão para facilitar a eleição de Bolsonaro.

O filme de Akira Kurosawa é ambientado na Idade Medieval japonesa. Mas ele trata de questões atemporais, de problemas graves que o Brasil está vivendo nesse momento. Como os membros do clã Shingen Takeda, nós também estamos sendo condicionados a rejeitar a realidade (o fracasso político, econômico e diplomático do país) para manter as aparências de um regime democrático que começou a ser destruído com o golpe de 2016 e que não poderá ser revitalizado enquanto Bolsonaro estiver na presidência, o Kagemusha da economia seguir as receitas neoliberais e Sérgio Moro ficar impune em virtude de ser protegido pelo clã Marinho.

 

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