Lobistas e intermediários: abelhas do crescimento, por André Araújo

Lobistas e intermediários: abelhas do crescimento

por André Araújo

Desde tempos imemoriais, dos antigos caravaneiros do deserto da Assiria, os intermediários de negócios são os polinizadores da vida econômica, fazendo o papel de abelhas, polinizam a atividade econômica, não só juntando as partes mas principalmente descobrindo as conexões entre diferentes negócios para dessas conexões construir um novo negócio.

Esse personagem é CENTRAL no desenvolvimento do capitalismo. O comerciante fica na sua tenda, ele não sai todo dia à procura de compradores e vendedores. O executivo das grandes corporações faz parte de uma estrutura hierárquica, por sua própria natureza ele não é um aventureiro, é um burocrata dos negócios, submetido a regras e limites.

Para juntar pontas e ver uma lógica que dificilmente o executivo sentado na sua sala descobre, surge o intermediário, que se apresenta sob o nome de lobista, consultor, broker, está sempre em movimento, no mundo fora dos grandes escritórios das corporações e a partir da observação ele descobre ligações e faz os elos. É um elemento central do capitalismo, ele vê o que outros não veem porque não é focado numa só direção, o intermediário gira como uma antena de radar captando movimentos por todos os lados e deles extraindo nova lógica.

CALOUSTE SARKIS GULBENKIAN

No começo do Século XIX se desconfiava que havia  petróleo no Iraque e a indústria do petróleo já tinha 50 anos mas os executivos dessa indústria vigorosa não levantavam seus traseiros das poltronas para ir atrás do petróleo em regiões de barbárie. Um intermediário armênio com ligações politicas em Constantinopla, a “Sublime Porta”, então a poderosa capital do Império Otomano, que controlava o Iraque, conseguiu em 1912 uma autorização para explorar o petróleo no vilayet de Mossul, no norte do Iraque, província otomana.

De posse desse papel Gulbenkian, nascido em 1869, armênio e, portanto, súdito otomano, fez uma peregrinação pelas capitais europeias e conseguiu formar um consórcio de quatro empresas para explorar o petróleo de Mossul e Kirkut, amparados pelo papel dado pelo Sultão mediante presentes, costume do Oriente Médio onde Gulbenkian circulava com desenvoltura de homem instruído e respeitado pela sua cultura, tinha estudado em Londres.

Feito o consórcio explorou-se o petróleo, nasceu a Irak Petroleum Co., cada uma das quatro companhias ficou com 22,5% e Gulbenkian com 5% como comissão. As quatro eram o Deutsche Bank, uma subsidiária da Shell, a Anglo Persian (hoje BP) e o Banco Nacional da Turquia, controlado por capital inglês. Depois da Grande Guerra houve uma reconfiguração entre as quatro, entrando a Cie.Frnçaise des Petroles (hoje TOTAL)  no lugar do Deutsche Bank.

Com esses 5% Gulbenkian  tornou-se uma das maiores fortunas da Europa, morreu em 1955 em Lisboa e legou a maior parte dessa fortuna para uma Fundação cultural, hoje a mais importante de Portugal e uma das mais importantes da Europa pelos museus e iniciativas culturais, a Fundação Gulbenkian é a maior instituição cultural privada de Portugal.

Gulbenkian residiu durante toda a Segunda Guerra no Hotel Aviz em Lisboa, mantendo fechado seu palácio na Avenida d´Iena em Paris durante a ocupação alemã.

Há uma pergunta nessa narrativa: Porque os executivos dessas já então grandes companhias não foram ao Sultão em Constantinopla e pediram a concessão do petróleo do Iraque?

Porque não é assim que funciona o mundo, o “abelha” faz aquilo que o bem posto executivo não faz, o “abelha” é um aventureiro que cheira a caça, seu olfato é treinado e apurado, o executivo trabalha depois da porta aberta, quem abre a porta é o “abelha”.

ALEXANDER HELPHAND

Alexander Helphand  nome de guerra de Israel Lazavicht Gelfhand, um aventureiro completo. financista que ficou milionário com especulação em grãos, foi o intermediário crucial entre os bolcheviques de Vladimir Lenin e o Estado Maior Imperial Alemão em 1917, montando a operação que permitiu a existência da Revolução Russa e sua tomada de poder.

O Império Alemão em 1917 estava perdendo a Grande  Guerra, não havia como sustentar o conflito em duas frentes, contra a Russia Imperial  lutavam 4 milhões de soldados alemães em uma vasta linha de frente que ia do Mar Baltico ao Mar Negro; já em três anos de luta.

Seria possível ter grandes chances de vitória da Alemanha contra a França e Inglaterra se a batalha fosse apenas na Frente Oeste. Era fundamental conseguir algum tipo de acordo na frente Leste, cessar o conflito com a Rússia por um armistício negociado mesmo a preço alto e transferir tropas para lutar na frente francesa.. Mas como?  O Czar apesar de perdendo tinha território para recuar sem se render e por isso mesmo não iria capitular facilmente.

Havia uma saída, a agitação social causada pela guerra e pela forme acossava o regime dos Romanov e havia uma clima de Revolução no ar, clima acentuado pelas condições da guerra.

 Havia uma chance a explorar: incentivar o processo de agitação social dentro da Russia pelos movimentos comunistas que eram já muito visíveis nas grandes cidades. O Estado Maior Alemão então foi procurado por Helphand, que tinha negócios e boas relações na Alemanha, morava em grande estilo em Berlim e tinha uma credencial única, era amicíssimo de Lenin e do núcleo bolchevista de Zurich, onde Lenin estava exilado. A razão dessas boas relações era a biografia de Helphand que sob o codinome da Parvus tinha sido companheiro de Trotsky na revolução fracassada de 1905 e que desde então manteve continuas relações com seus companheiros bolcheviques, ajudando o grupo de Zurich com dinheiro para sobrevivência.

Parvus tinha total confiança do núcleo bolchevique de Zurich e podia contata-los rapidamente.

Parvus propôs aos alemães trazer Lenin e todo seu grupo até a fronteira da Finlândia, atravessando a Alemanha a partir da Suiça, com grande volume de dinheiro para fazer acontecer uma revolução para derrubar o governo imperial do Czar Nicolau II.

Os revolucionários fariam um novo governo e pediriam a paz aos alemães, através de um armistício previamente combinado por Parvus com os bolcheviques.

Os alemães aceitaram o plano, Parvus foi a Zurich e fechou o acordo com Lenin.

Uma complicada operação financeira através de bancos em Copenhagen  fez chegar a Lenin o equivalente hoje a 20 milhões de dólares em dinheiro vivo. Com esse lastro os alemães forneceram um trem lacrado que foi de Zurich a fronteira russo-finlandesa levando todo o grupo bolchevista. A descrição parece simples, mas a operação foi muito complicada, o historiador britânico Alan Moorehead em seu clássico A REVOLUÇÃO RUSSA descreve toda a montagem da estratégia e confirma o decisivo papel de Parvus, um elemento essencial porque ele era o único que tinha a confiança dos dois lados. Nem é preciso dizer que Parvus  ficou com parte dos recursos como comissão , já era rico e ficou muito mais, morava em uma mansão de grande categoria nos arredores lacustres de Berlim.

Já escrevi aqui no blog com  mais detalhes uma pequena biografia de Parvus.

Neste artigo chamo a atenção para o papel essencial desse lobista da revolução Russa, movido parcialmente por idealismo e parcialmente por ganancia, mas sem ele Lenin não teria como se movimentar de Zurich a São Petersburgo provido de grandes fundos com os quais mobilizou as massas. Como se sabe, revoluções e golpes de Estado, assim como greves e manifestações, exigem financiamento monetário, em todos os tempos, idealismo sozinho não enche barriga e nem compra caminhões, combustível, barracas e munição.

NO BRASIL

Um das grandes epopeias do desenvolvimento brasileiro pouco conhecida e menos ainda contada foi a montagem politica e financeira  do maior parque hidroelétrico do mundo ocidental, 47.000 MW, construído basicamente em duas décadas de 1960 a 1980,  potencia representada por 136 usinas, sem as quais o Brasil urbano como é hoje não existiria. Esse grande parque iniciado pelos sistemas CEMIG, FURNAS  e CESP na década de 50  e culminando com as grandes usinas de Itaipu, Sobradinho e Tucurui, só foi possível porque lobistas e intermediários juntaram a necessidade, a engenharia, o equipamento e o financiamento, montando “pacotes” que possibilitaram a construção dos complexos Paranapanema, Tiete, Rio Grande, Paraná, São Francisco, Tapajós.   

Entre todos os grandes intermediários se destaca um, ainda bem vivo, cujo nome não vou declinar, que montou os grandes pacotes com a França que foi a grande financiadora desses sistemas através de bancos públicos, evidentemente fornecendo os equipamentos e também financiando as obras civis, um negocio que beneficiou os dois países e suas economias.

Mas não foi só ele, outros intermediários também foram os costureiros desses pacotes, juntando pontas e projetos ousados, bancos, fabricantes de turbinas, agências de seguros de credito. Para montar tais operações os lobistas precisavam ter portas abertas nos governos do Brasil e dos países financiadores, é claro que houve comissões, sem lubrificante pouca coisa se fez no mundo moderno desde a Era Industrial, o mundo foi construído por esse processo.

Os movimentos moralistas de hoje condenariam à fogueira todos esses grandes lobistas, mas sem eles estaríamos às escuras, quem os condena não sabe fazer uma cesta de pão e imagina que complexos sistemas elétricos caem do céu por gravidade.

GERHARD SCHOEDER

Um lobista moderno, único ex-Chanceler alemão vivo, saiu do governo e duas semanas depois virou lobista da grande petrolífera privada russa GAZPROM, fornecedora de gás à Alemanha.

Da GAZPROM foi para a RUSSNEFT, petrolífera estatal, com suas comissões virou milionário, construí casa de verão na Turquia e passou a ser grande colecionador de arte, já está no 4º casamento, sempre charmoso, refinado, um grande lobista internacional.

Sua grande e histórica  realização é o NORD STREAM, uma mega obra de engenharia física, financeira e geopolítica, unindo dois  inimigos de duas guerras mundiais.

Trata-se do gasoduto submarino sob o Mar Báltico que leva gás da Rússia à Alemanha, evitando passar pela Ucrânia, caminho perigoso e que já causou interrupções de fornecimento vital de gás à Alemanha, que tem nesse gás sua maior fonte de energia para aquecimento e para uso na indústria. No complexo xadrez do fim da União Soviética a Ucrânia é inimigo da Rússia e  coloca em risco o fornecimento por via terrestre do gas russo à Alemanha. A Ucrânia chegou a fechar o gasoduto terrestre varias vezes, extorquindo os dois lados e impondo condições politicas e financeiras para reabrir as válvulas.

O gás russo é VITAL para a Alemanha, sem o gás russo os alemães congelariam em suas casas no inverno, o gás é extensivamente usado na indústria química alemã.

Schoeder inventou o NORD STREAM, criou a companhia para construí-lo, arrumou financiamento e acionistas, juntou fornecedor com comprador e hoje preside a companhia NORD STREAM A.G. Foi o lobista clássico para esse empreendimento. No Brasil estaria preso.

LOBISTAS E EMPREENDEDORES

Há uma grande  diferença entre lobistas e empreendedores. O empreendedor tem foco no negocio, na maioria das vezes em um único negocio. O lobista tem foco nos relacionamentos com o poder, não tem um negocio fixo e nem administra o negocio depois de montado.

Gulbenkian nunca administrou a Iraq petroleum Co.Ltd. Outro aventureiro ,  William D´Arcy, conseguiu a concessão do petróleo na Persia com o Xá em troca de presentes e conversa fiada, depois vendeu a concessão para ao Almirantado britânico que formou a Anglo Persian Oil Co.Ltd. para explorar os poços visando abastecer os navios da  Marinha britânica na conversão do carvão para óleo cru de toda frota, que seu deu pouco antes da Grande Guerra.

DÁrcy foi um Gulbenkian anterior e mais ousado ainda, virou milionário com petróleo sem ter extraído uma gota de óleo mas usou seu faro para juntar pontas em torno do petróleo.

O LOBISTA E A LEI

A cruzada moralista brasileira tem horror ao lobista e faz tudo pra incrimina-lo. Os grandes lobistas das hidroelétricas estariam todos presos se então existisse a Lava Jato.

O problema é que o lobismo é ilegal no Brasil e todas as tentativas de legalizar a atividade fracassam pela moralidade franciscana que vê o pecado em cada esquina embora o pratique por trás dos panos, fazendo cara de santelmo, o Brasil é rico em hipocrisia.

Em Washington há 900 firmas de lobby, algumas muito grandes, com 1.600 advogados e o setor emprega 110.000 pessoas na capital americana. Quase todos os países importantes do mundo tem lobistas contratados em Washington, a China chegou a ter 16 firmas contratadas, a Venezuela chavista sempre teve, o Equador bolivariano pagava 60.000 dólares por mês ao seu lobista, Angola e sua grande e corrupta petrolífera SONANGOL, tem excelentes lobistas e nunca foi processada por corrupção, a Arábia Saudita usa o mesmo lobista da China, todos os xecados e emirados do Oriente Médio tem lobistas em Washington, o único grande Pais do mundo que não tem é o Brasil porque há uma barreira secular do Itamaraty para tal atividade. O Itamaraty acha que a Embaixada exerce todas as funções necessária aos Brasil, quando isso é absolutamente irreal, o Brasil finge que é assim.

O Embaixador só pode operar a luz do dia e oficialmente, não pode trabalhar por baixo dos panos, nos bastidores, nos fins de semana em um barco cheio de bêbados importantes.

O lobista pode fazer tudo isso e muito mais, pode sondar a amante do Secretario sobre o que o sujeito pensa a respeito do Brasil naquele assunto, pode falar com assessores do Senado que o Embaixador só pode contactar com registro de audiência e falar com muito cuidado porque tudo o que ele fala representa o Governo do Pais, o lobista não, ele trabalha para um pais mas não o compromete pela sua palavra, porque opera extra-oficialmente, é uma função completamente diferente do Embaixador, para entender é preciso inteligência.

A PERDA DE OPORTUNIDADES

A criminalização do lobista no Brasil de hoje traz a paralisia de negócios que gera o desemprego, o Brasil virou Portugal de Salazar tudo estável e parado, não há inflação, não há negócios, não há novos empreendimentos, está tudo em ordem para 15% da população, os outros 85% que se conforme com a estabilidade dos cemitérios e com a moralidade dos conventos, a economia só cresce com gente que corre risco.

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