Marielle e o terror do liberalismo fascistóide, por Roberto Bitencourt da Silva

Foto: Roberto Bitencourt da Silva

Marielle e o terror do liberalismo fascistóide

por Roberto Bitencourt da Silva

A execução política da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) chocou o País, pelos requintes de barbaridade, abjeção, covardia e por diferentes significados a que se pode atribuir esse verdadeiro ato de terror sobre uma defensora dos direitos humanos e, sobretudo, de amplos setores vulneráveis e desapossados de direitos em nossa sociedade.

Quando recebi a notícia fiquei consternado, entre outras razões porque a conheci pessoalmente anos atrás, quando desempenhava atividades no sindicato de servidores da Faetec, instituição estadual de ensino. A jovem Marielle atuava, então, no gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

Lembrei-me imediatamente de amigas/os que integram o movimento sindical dos servidores do Rio de Janeiro, ou que são filiados ao PSOL e mesmo eleitores da vereadora, que eram muito próximos e mantinham relações de amizade com Marielle. Imaginei a tremenda dor que estariam e estão sentindo.

Estive ontem em seu velório na Câmara Municipal do Rio e na manifestação que se seguiu. Tudo muito triste, evidentemente, pois um fato chocante. Ao mesmo tempo, mobilizou bastante gente, uma multidão, que demonstrou clara indignação com a barbárie, reverberando protestos contra Temer (PMDB), Pezão (PMDB) e Crivella (PRB), assim como em relação à intervenção militar no estado. O clamor por justiça ecoava nas ruas do Centro.

Dito isso, devidamente descontada a consternação dos inúmeros presentes, cumpre registrar um fato que merece reflexão. Ao final da tarde, em frente à Alerj, o senador Lindbergh Farias (PT), que fazia um pronunciamento em solidariedade, recebeu uma sonora vaia de boa parte da multidão.

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O ocorrido me causou incômodo porque ainda estávamos na esteira de um velório, doloridamente saudando a memória da vereadora. É verdade, em função de anos a fio de aliança do PT com o social e economicamente destrutivo PMDB, no País e, notadamente, no Rio de Janeiro, o desgaste da imagem do partido e do senador é natural. A vaia, infeliz e razoavelmente, compreensível.

Mas, com todas as críticas que se possa fazer a Lindbergh e ao seu partido, e não são poucas, as vaias causaram incômodo também pela demonstração de certa falta de percepção política do tempo presente. A temperatura elevada na cidade, registrada ontem, a emoção e a revolta, não explicam tudo. Senão, vejamos.

Foto: Roberto Bitencourt da Silva

Anarquistas e comunistas são criminalizados pelas estruturas e classes sociais do poder no Brasil desde as primeiras décadas do século XX. Trabalhistas, sociais-democratas e nacionalistas, em geral, desde o início dos anos 1960.

Os desenvolvimentistas, que sempre flertaram com o liberalismo econômico e com os mesmos segmentos do poder que lhes dá suporte, por décadas compartilham com o liberalismo econômico a hegemonia sobre os esquemas de percepção, as instituições e as ideias políticas no Brasil. Hoje, os desenvolvimentistas, primos do keynesianismo, do ponto de vista partidário, são representados mais claramente por PT, PDT e PCdoB.

Tempos atrás, cada a um à sua maneira, o desenvolvimentismo teve em Juscelino e em Geisel alguns dos seus símbolos maiores. Mais ou menos desde 2014, os desenvolvimentistas foram igualmente incluídos na lista da criminalização política. Lula é a estrela maior do processo de criminalização de um campo político e ideológico.

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Nesse sentido, mobilizando uma imagem geográfica, seguramente, para muitos que o vaiaram, na prática o senador Lindbergh é apenas um vizinho político de rua. Para mim, é um vizinho distante, que veio de outro bairro, expulso de áreas mais “nobres” e “reconhecidas”.

O poder de fato no País, inimigo do Povo Brasileiro e da Pátria, tem nome: o liberalismo de conteúdo economicamente colonizante, entreguista. Flagrantemente fascistóide na forma. É o liberalismo dos veículos massivos e comerciais de comunicação, das multinacionais, dos fazendeirões, dos rentistas, especuladores e banqueiros.

Esse liberalismo, essencialmente o mesmo desde a República do Café, passando por Carlos Lacerda e Eugênio Gudin, até os patos da Fiesp, está e sempre esteve localizado em outro e longínquo bairro, do outro lado da cidade. Beneficia-se das mazelas em nossa área e não possui pudor em agir movido pelo intento de nossa destruição.

Os tiros que levaram à morte de Marielle, a sua execução política, podem ter sido dados por um (ex)miliciano, ex-policial ou policial. Esse é um terreno que, por ora, está sujeito a especulações e investigações. Mas, o autor intelectual, a arma foi “entregue” pelo liberalismo fascistóide e por seus agentes sociais personificados, na estrutura de classes, na economia, na mídia e nos círculos políticos.

Estes operam descaradamente pela colonização e entrega do Brasil às grandes potências capitalistas, mormente os EUA, e, por extensão, pela intensificação do silêncio e avassalamento do Povo Trabalhador Brasileiro. Em especial, de sua maioria: negros, mulheres e integrantes ou oriundos das classes marginalizadas, como a Vereadora Marielle.

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Que o sacrifício de Marielle Franco, porta-voz, entre outros das comunidades faveladas, não seja em vão! Que tenhamos clareza de quem são os algozes do Povo! Que todos os interessados nos destinos da Pátria e no bem-estar popular, deem sua colaboração para construirmos caminhos que mudem o atual cenário da barbárie neocolonial, bastante azeitada que está por micropoderes paralelos de narcopoder!

Marielle presente!

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

 

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1 comentário

  1. desenvolvimentistas flertam com liberalismo ?!
    Sim claro a rede Globo que representa o liberalismo financeiro sempre flertou com Brizola, adoram o Lula e simplesmente amam o Lindbergh, psol é um partido que realiza reuniões com a rede Globo, diz que Temer é ilegítimo por ter 3% de aprovação e não por ter assumido o poder através de um golpe, psol diz que é contra o impeatchman mas não mobiliza suas bases nas manifestações, psol diz q Maduro é ditador por chamar uma constituinte, mas a Espanha é democrática por perseguir políticos da Catalunha, psol é uma farsa que recebe apoio da rede globo, psol é um partido golpista que sua verdade virá a tona em algum momento no futuro !

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