Monica de Bolle: “por um debate sem as amarras ideológicas”?, por César Locatelli

A economista consegue a proeza de escrever seis laudas sobre a conjuntura brasileira e não mencionar a crise política capitaneada pelo PSDB desde a eleição de 2014.

Aloisio Mauricio / Fotoarena

Monica de Bolle: “por um debate sem as amarras ideológicas”?

por César Locatelli

O texto de Monica de Bolle, na Folha de S. Paulo de ontem (16) lembrou-me daquela prova olímpica em que esquiadores descem a montanha fazendo zigue-zague, desviando-se de obstáculos. A economista consegue a proeza de escrever seis laudas sobre a conjuntura brasileira e não mencionar a crise política capitaneada pelo PSDB desde a eleição de 2014. O boicote do Congresso a medidas do governo em 2015, sob a batuta de Eduardo Cunha, também parece não ter relevância. Ela tampouco menciona a emenda constitucional de congelamento de gastos e as alterações na legislação trabalhista, medidas adotadas pela dupla Temer-Meirelles.

“Fica o manifesto por um debate sem as amarras ideológicas que impedem a criatividade em momento tão crítico.” A frase, que encerra seu texto, dá a impressão que ela própria tenta desvencilhar-se de suas amarras ideológicas, não dá? Dá a impressão que quer dialogar. Bem, vejamos se é isso mesmo.

Ela cita, três vezes, seu livro sobre o período de governo Dilma. Diz ela: “a tragédia do crescimento baixo reflete anos de descaso com os efeitos de contas públicas desarranjadas, de políticas insustentáveis de crédito para aumentar o consumo, do protagonismo indevido do BNDES, responsável por grandes distorções financeiras, da ausência de medidas para aumentar a competitividade do país. Tais erros na condução da economia começaram no segundo mandato de Lula e continuaram com Dilma”.

A segunda vez que De Bolle cita seu livro é para criticar a insustentabilidade da taxa de juro real mais baixa adotada durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff. Ela responsabiliza, novamente o governo Dilma na terceira citação ao seu livro: “De um lado, o aumento da desigualdade não surpreende: resulta diretamente da grande recessão de 2015-2016, ela própria decorrente dos desmandos macroeconômicos que analisei em meu livro sobre a era Dilma”.

O que se conclui é que para ela não houve crise política e não houve retração do comércio internacional, para ficarmos em dois dos choques sofridos pela economia brasileira no período. Seu mantra é que o desprezo dos governos petistas, que foram retirados do poder há três anos, pela austeridade é a razão da crise que enfrentamos até hoje. Mesmo com a queda pela metade da dívida líquida em relação ao PIB, desde FHC.

O trecho, no entanto, mais revelador é sobre “a farra do crédito subsidiado durante o segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma”. Ela aplaude a redução do volume de empréstimos e aumentos das taxas de juros do BNDES e se surpreende com o resultado: “uma taxa permanentemente mais baixa proveniente das mudanças na atuação do BNDES deveria incentivar a alta dos investimentos privados. Contudo, não é isso o que se vê”.

Ela complementa que “os desembolsos do banco foram reduzidos de R$ 190 bilhões em 2013 para R$ 69 bilhões em 2018”. Pois bem, parece que ela esperava ver investimento crescer com todas as medidas contracionistas e com a redução da atividade do BNDES. Parece que o fator crucial na decisão de investir é a taxa de juros real e não a expectativa de demanda futura e acesso ao crédito.

Mas vejamos o que ela entende por dialogar “sem amarras” em suas proposições: “Para devolver o dinamismo econômico ao país, a atual agenda de reformas é correta: precisamos de uma reforma da Previdência, precisamos de uma reforma tributária, precisamos de privatizações. Precisamos, também, abrir a economia brasileira ao comércio e ao investimento externos…” Estou enganado ou esse é o receituário do Consenso de Washington, que até o FMI já admitiu ter agravado crises mundo afora?

Há no longo texto quatro asserções bem mais realistas (ops, não consegui me libertar da ideologia). Monica De Bolle afirma que vivemos uma “espécie de crise sem crise”, que “a economia brasileira hoje está sem fôlego para criar empregos que deem segurança aos consumidores”, que “o país não está em situação de poder se dar ao luxo de nada fazer no curto prazo” e que “para resolver o acúmulo de entraves ao crescimento, não bastará a reforma da Previdência”.

Com essas quatro observações, acho que finalmente compreendi: ela quer dialogar “sem amarras” com Paulo Guedes.

9 comentários

  1. E surge mais uma porta-voz do tucanato. Esse pessoal não morre né? São a cara de São Paulo e da Filha de São Paulo; cadáveres insepultos de 32 que decidiram nos assombrar para sempre.
    Por que ela gastou seis páginas para repetir o que já fiz Paulo Guedes? Para saciar a mente delirante dos paulistas.

    • Minha querida, confundir São Paulo com a burguesia paulista é um tanto quanto estúpido. São Paulo tem 40 milhões de brasileiros, que inclusive integram as maiores organizações de esquerda do país (PT, CUT e outros têm seus núcleos duros em São Paulo).

      Vamos aprender a analisar as coisas, separar alhos de bugalhos.

      Inclusive, soa igual os idiotas que falam de nordestinos, negros, gays etc… o famoso preconceito.

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        • Concordo com o comentário da Arthemisia. Não acredito que ela esteja colocando 40 milhões de paulistas no mesmo saco, ou melhor, no mesmo ninho. O que ela está dizendo é que São Paulo é área de preservação ambiental do Tucanato. Estão no governo há quase um quarto de século e desde 2002 não sabem o que é disputar um segundo turno para governador. Nem todos tem culpa, mas a coletividade leva a fama. Assim como nem todos foram constitucionalistas em 32, São Paulo até hoje comemora isso. Uma revolta reacionária e hipócrita. Reacionária porque, tal como em 2016, a elite paulista, os tucanos d’antanho, não aceitou a mudança do status quo. E, hipócrita porque defendia o privilégio dos bem-nascidos em 32, exatamente como, desde 2013, agiu decisivamente para desestabilizar o País em interesse dos “merecedores por sua excelência”, a tal meritocracia tucana que não leva em conta critérios como, por exemplo, oportunidades e vantagens herdadas.
          A conta veio, imagine um partido de Mario Covas e Franco Montoro se transformar em curral do Dória.
          Quanto a Monica de Bolle, como todo tucano, mora no alto do muro. Na última eleição sabendo que Alckimin, tucano de poleiro, não iria voar, declarou voto em Ciro, alegando que ele tinha propostas “sólidas” para a economia e que Haddad e Bolsonaro tinham rejeições “históricas”. Em economia às vezes é neoliberal, às vezes pós keynesiana, dependendo do vento. Mais tucana impossível. Quanto a ser carioca, só de nascimento, seu coração bate na Av. Paulista.

  2. monica de bolle é fraude pura.
    mulher inteligente, com bom domínio dos conceitos econômicos, poderia contribuir para o debate, para a melhoria da vida do cidadão pobre brasileiro; mas, ao invés disso, prefere ser uma voz suficientemente evasiva, frouxa, esquiva, …, pra buscar algum cargo importante (daqueles que depois permitem abrir um banco, uma grande correta, na linha armirio fraga, mendocinha, etc) num governo qualquer.
    e pensar que ela fez um excelente trabalho na tradução do “Capital no Século XXI”, do Thomas Piketty.

  3. Eu fico me perguntando se nós estamos em uma espécie de sonho, porque o problema da economia é o Lula (7,5% de crescimento do PIB em 2010) e a Dilma (manteve a estabilidade da economia enquanto a Europa e os EUA estavam em convulsão econômica).
    Não existe Eduardo Cunha, não existe Aécio Neves, não existe Michel Temer, não existe Henrique Meirelles, não existe nem o Bolsonaro e o Paulo Guedes.
    Inclusive, não existem classes sociais, porque segundo Mônica de Bolle o Brasil não tem uma burguesia que decidiu dar um golpe de classe a partir das eleições de 2014. É tudo “culpa do PT”. Não existe um povo historicamente tratado como “carvão para queimar”, como definiu Darcy Ribeiro.
    Deve ser muito bom ser livre de “amarras ideológicas”. Um sonho.

  4. Feudos protegendo Feudos. Opiniões isentas desde que não atinjam seus Protetores e Protetorados. Não é exatamente a continuidade das Elites que ascenderam e perpetuaram estes 88 anos de Golpe Civil Militar Ditatorial Esquerdopata Fascista? Vejamos, esta ‘ Bolle ‘ não é a mesma defendida e protegida em Artigo neste mesmo Veículo, há alguns dias atrás. Ou em vários? Não é a mesma bipolaridade que elogia Lilia Schwarcz, quando de ilusórios tons progressistas, completamente abandonados nas criticas ao Tucanato? Uma mão lava a outra?! Bipolaridade ou apenas defendendo seus Feudos? Negligência, Omissão, Cumplicidade, Corporativismo. Eu diria, apenas 88 anos de Estado Brasileiro e suas Elites. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação. (P.S. A culpa, assim como as Elites, são sempre os outros)

  5. Quer criatividade e não demonstra nenhuma…”Chicago Girl”, embora tenha estudado em universidade bem menos prestigiada, mas é o que mídia tucana tem pra hoje, quando Stieglitz e outros estão dizendo chega para o trololó que já dura desastrosos

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