Negra consciência, por Mariana Nassif

Não é apenas na semana do mês de Novembro. Não é apenas na literatura, nas universidades, nos palcos da vida - nos lugares comuns aos brancos. É na rotina, na religião, no trabalho.

Negra consciência, por Mariana Nassif

No dia 20 vou pedir perdão ao mar – a grande calunga.

Vestirei branco em respeito aos ancestrais e seguirei honrando o compromisso ativo acerca dos reparos da colonização. Iemanjá conhece as preces que cantarei silenciosamente com a cabeça ao solo, antes de ofertar as brancas flores que, sem dúvida, levarei até lá.

A grande calunga, cemitério de dor.

O peito aperta esquisito e as lágrimas caem ao saber que o movimento dos navios negreiros modificou o comportamento dos tubarões naqueles mares por onde passaram estas vidas roubadas – foram pelo menos 14 corpos negros por dia durante 400 anos. Me desculpem. Perdão. Agô.

É preciso assimilar essa história. Isso não é um ponto de vista, é informação. Índios. Negros. Leitura. História. Conhecimento. É o mínimo: se a gente passa quatro horas no Instagram+Facebook, tá cheio de tempo pra pesquisar coisa mais consistente e fazer da internet uma ferramenta realmente eficaz para o mundo. Informação.

Farei o possível para falar de racismo, abrir diálogos, reposicionar-me para reparar estas e outras dores, cada vez mais serei a chata que certamente escutará “ai, mas não dá mais pra fazer piada com nada, o mundo tá cada vez mais chato”. Chama consciência, essa chatice.

Não é apenas na semana do mês de Novembro. Não é apenas na literatura, nas universidades, nos palcos da vida – nos lugares comuns aos brancos. É na rotina, na religião, no trabalho. Na convivência, na experiência onde o incômodo em não se transformar e ser cada vez mais intolerante ao racismo e seus produtos. Respeito. Apoio. Muito respeito. Axé.

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Aqui em Ubatuba, a prefeitura organizou uma série de eventos com a linha “negro de todas as cores”. Música, dança, oficinas. Concurso de beleza: a mais bela negra que, até pouquíssimo tempo atrás, vestia essas mulheres de gala e alisavam seus cabelos. Sei não. Me perdoem os amigos, os queridos e os amados envolvidos, mas o evento segue a linha “consciência humana”. Não é por aí, pessoal. Não é por aí mesmo. E ai de quem vier falar “mas Mari,, precisamos ser políticos”. Justamente. PRECISAMOS SER POLÍTICOS, e não seguir amaciando o racismo para caber na sagrada comunidade evangélica que segue praguejando efeitos devastadores sobre a cidade. Todas as cores meuzovo, tá?

Que neste dia 20 de Novembro, a negritude faça realmente parte do desenvolvimento da consciência de todos e cada um de nós, em auto-observação, mudança e combate efetivo ao racismo. Não dá mais, e não é de agora não.

A gente não pode mais ser hipócrita nessa história macabra.

Agô.

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