Nós, os terroristas brasileiros, por Alexandre Filordi

Somos terroristas porque não concordamos com a Pax Romana dos políticos e dos burocratas que vilipendiam o Estado Democrático

Foto: Reprodução - Charge/Angeli

Nós, os terroristas brasileiros

Por Alexandre Filordi (EFLCH/UNIFESP)

Somos terroristas porque não concordamos com a Pax Romana dos políticos e dos burocratas que vilipendiam o Estado Democrático

 

Em Não vai acontecer aqui, Sinclair Lewis retrata um país enganado por um político que acaba se revelando um fascista de prima linha, recusando-se a sair do poder. O livro, publicado em 1935, possui extrema força visionária acerca dos acontecimentos históricos advindos com o nazismo, mas também com o franquismo e tantos outros totalitarismos.

Em determinado momento do romance lemos: “o magnânimo governo ficou por aqui e o país foi informado de que, desse dia em diante, qualquer pessoa que em palavras ou atos tentasse prejudicar ou desacreditar o Estado seria executada ou presa”.

É certo que não estamos no roteiro de Não vai acontecer aqui, porém, já passamos por isso. Não obstante, seria exagero temermos que isso possa se suceder novamente aqui?

No dia 4, em sua live semanal, o Messias afirmou que quem protesta contra o seu governo “são terroristas”. Como afirmou uma das personagens de Lewis: “parece que este país, e a maior parte do mundo, – estou falando sério agora; muito sério, – parece que estamos retrocedendo direto à barbárie”. E não seria o caso?

Terroristas agora são os que se manifestam contra o fascismo e às brutalidades de outrora e do presente: quer sejam as dos porões da ditadura que ainda ecoam gemidos e odor de sangue empapado; quer sejam as de qualquer censura; quer sejam as da violência persecutória encarnada em fardas com suas polícias ideológicas; quer sejam aquelas sentenciadas contra qualquer crítica ou discordância política.

Desse ponto de vista, doravante, nós todos somos terroristas. Nós quem? Quem possui consciência de mínimo civismo coerente com o que é democrático; quem é capaz de ver que o que se privilegia no atual governo não são vidas, mas ataques à vida, apoiados em manipulação e ocultação de dados públicos. Mas também são terroristas os que passam a ter horror à barbárie, às banalizações da violência e da ameaça, à supressão dos limites entre os poderes instituídos constitucionalmente. Há mais, contudo.

Somos terroristas todos nós, os negros, com o lombo do inconsciente histórico marcado por chibatas, algemas, argolas, sol escaldante, exploração humana e supressão de reconhecimento humano. Por defendermos a humanidade negra somos terroristas; mas também o somos porque denunciamos nossas execuções cotidianas nas periferias por uma polícia brutal e racista, e também por exigirmos igualdade em condições de trabalho e respeito. Por sermos contra isso, acabamos nos transformando em terroristas.

Somos terroristas todos nós, os povos indígenas, com suas terras arrasadas pela especulação agrícola, mineral, hídrica e natural; somos terroristas porque lutamos contra a aniquilação de nossas vidas, porque gritamos alto que a terra é nossa e porque recusamos um governo que passa a boiada em cima de nossos direitos.

Somos terroristas todos nós, os professores, que vemos os recursos destinados à pesquisa e à educação minguarem, sob o comando de quem não sabe o que são sujeito e predicado de direitos. Nós, professores, assumimos o terrorismo: o ato de educar e formar crianças, jovens e adultos com consciência crítica, saberes histórico-sociais, com conhecimentos científicos e lógicos, para que os brasileiros não saiam por aí pensando que a terra é plana, vírus não mata, ditadura é bom e que o holocausto foi invenção.

Somos terroristas todos nós, os jornalistas, que denunciamos o desvio de verba destinada aos pobres para se fazer propaganda enganosa de coisas enganosas em um governo enganoso. Somos terroristas porque assumimos a luta contra as ideias, os procedimentos e as instituições que intentam colocar a democracia no pau-de-arara, outra vez.

Somos terroristas todos nós, e em grande quantidade, os sem-teto, os sem-terra, os sem-emprego e os sem-dignidade humana. Lutamos contra a exploração econômica que concentra renda na mão de poucos. Nós gritamos contra a ignorância preconceituosa dos privilegiados que não sabem o que é estar em nossas peles, e tampouco se importam, de verdade, com mudar a nossa situação. E lutar por isso faz de nós terroristas, uma vez que o governo que está aí vislumbra em nossos direitos de luta um ato terrorista.

Somos muitos terroristas: juristas, artistas, esportistas, escritores, cientistas, terceirizados, políticos, historiadores, ambulantes, mascates, dançarinos, músicos, pedreiros, artesãos, psicólogos, enfim, muitos brasileiros que recusamos a ser ovelhas-robôs ou robôs-soldados de quem não está do lado da democracia e, sobretudo, a manipula conforme seus interesses.

Somos terroristas porque não concordamos com a Pax Romana dos políticos e dos burocratas que vilipendiam o Estado Democrático.

Nós, os terroristas brasileiros, aceitamos e desejamos apenas a democracia, com todos os seus direitos. Aos que forem contra nós, anunciamos: Não vai acontecer aqui.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora