O caso do candidato a PGR: o bolsonarista nato que era marxista convicto quando tentava o STF nos anos Dilma, por Eugênio Aragão 

Se for escolher o lindão, poderá ter seu Brindeiro ou seu Janot. Só depende dos ventos. Se favoráveis, poderá ter a cumplicidade; se contrários, a perfídia. Só não vai ter um magistrado, como exige o figurino constitucional.

Divulgação PGR

O caso do candidato a PGR: o bolsonarista nato que era marxista convicto quando tentava o STF nos anos Dilma

por Eugênio Aragão 

O que mais ouço no público que frequento é crítica às escolhas feitas pelos governos populares de 2003-2016 para a composição do STF. “Como puderam errar tanto?” – é a pergunta constante. 

E, no entanto, é muito fácil errar, quando não se lança mão dos próprios quadros, seja por medo de se ficar parecendo “aparelhar” as instituições, seja por necessidade de agradar parte da base do governo que não comunga dos mesmos valores e objetivos de seu núcleo duro.

E tem outro problema também. A falta de sinceridade de auto-lançados candidatos ao cargo, que fazem juras de eterna gratidão ao presidente, que choram lágrimas de crocodilo na sua frente ou que sugerem que processos contra sua liderança partidária não passam de pontos “fora da curva”.

Meu pai dizia com sua sertaneja sabedoria: todo estelionatário é simpático. Já viu vigarista grosso? Claro que não. Não enganaria ninguém. A conversa amena, cheia de mesuras, perninhas cruzadas, indicador de aconselhamento com olhar de fingida benquerência e biquinho de cara de inteligente são estratagemas e gestos mui encontradiços entre velhacos. 

Querem a proximidade e a confiança de sua vítima, para trair quando estiver mais distraída.

A sucessão na PGR me faz muito lembrar das palavras de meu pai egipciense. Na disputa para agradar o capitão que fizeram presidente, há quem lance mão de todos os engodos. Pergunto-me, bem a calhar, por que um deles, hoje na dianteira, quer tanto esse cargo de chefe do MPU? 

Afinal, conseguiu, mesmo que só por antiguidade, chegar ao topo da carreira. Teve, ainda como membro do MPF, uma advocacia muito lucrativa que lhe propiciou um senhor patrimônio. 

Foi conselheiro do conselho superior da instituição mesmo sem ter votos, graças ao conchavo entre Janot e a ala conservadora da cúpula corporativa. Falta só se aposentar para ganhar mais dinheiro e viver com qualidade em sua ensolarada terra natal.

Não. O homem é ambicioso. Precisa da cerejinha glacê para enfeitar o chapeuzinho de chantilly do seu bolo curricular. Ah, a vaidade! Para chegar lá, não tem receio do ridículo. Apresenta-se hoje como protofascista e parte para puxar o saco do capitão.

Enche a boca contra a “ideologia de gênero”; promete cargo para Ailton Benedito, o Julius Streicher do MPF; rasga elogios ao colega Eitel Santiago, ex-candidato a deputado do DEM, um “homem sério, católico conservador”…

Não acredito que inteligência seja o forte de Bolsonaro. É um esperto, um finório, mas não é pessoa de muitas luzes. E a batota em excesso mata o bilontra. Se for escolher o lindão, poderá ter seu Brindeiro ou seu Janot. Só depende dos ventos. Se favoráveis, poderá ter a cumplicidade; se contrários, a perfídia. Só não vai ter um magistrado, como exige o figurino constitucional.

Lembro-me bem das andanças desse hoje candidato a PGR pelos corredores do executivo e do legislativo para ser ministro do STF, quando era presidenta Dilma Rousseff. Era de uma convicção marxista a enrubescer um György Lucacs! 

Prometeu de tudo ao meu amigo Luiz Carlos Sigmaringa, de saudosa memória, que se pôs a rir quando me contou do encontro; se apresentou aos ministros do STF que supunha mais próximos ao governo, com um discurso de “aliado”… enfim, meteu-se pelo modo mais rasteiro na gincana para a indicação. Mas não enganou ninguém.

Tentou, mais modestamente, um lugar ao sol com Rodrigo Janot, quando já encabeçava a lista para PGR, nos idos de 2013. Promoveu-lhe um jantar em sua confortável residência no Lago Sul, com toda a bancada do PT. Valeu até coluna social. Depois, ficou de mal, porque queria ser Vice-Procurador-Geral Eleitoral e a pretensão lhe foi negada. Mas não ficou no ostracismo. Foi ouvidor e depois ajeitou-se como conselheiro do conselho superior.

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Segundo leio nos jornais, esse candidato a PGR tem elevadíssima chance de ser escolhido pelo capitão. Uma jogada de alto risco e de pouca lisonja para a instituição do ministério público. Se Eitel Santiago é tão bom, que serve de chaveirinho para dar ares de conservador ao colega que o elogia, talvez fosse melhor escolhê-lo no lugar do autoproclamado candidato a PGR!

E quem adivinhar o nome do cristão novo bolsonarista aqui descrito ganha um pirulito! Mas, desde logo, cabe-lhe lembrar que Albert Speer, o arquiteto predileto de Adolf Hitler, passou, depois de condenado a vinte anos de reclusão pelo Tribunal de Nuremberg, sua vida a justificar o injustificável. Fez-se de arrependido para lavar sua imagem. 

Será que quer isso para si, ou, talvez, não prefere ser bem-quisto por seus colegas, de esquerda e de direita, como o bonachão, gente-boa que sempre foi? A vida é feita de escolhas.

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9 comentários

  1. É fácil errar, quando se é displicente.
    Apenas como um exemplo, quem procurasse conhecer a opinião dos frequentadores da Câmara Municipal de SP, conheceria bem o Cardozão.
    O mesmo vale para quem foi íntimo do Janota e para quem teve a genial Dilma como ministra.

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  2. A base da degradação de uma pessoa em rumo a tornar-se corrompido é quando os seus valores e crenças perdem consistência. Nos últimos tempos tem havido um número crescente de novos convertidos, os de moralidade fraca com seus interesses comezinhos e imediatistas. Houve um tempo antigo em que muitos tiveram de tornar-se novos cristãos e atualmente é a era da conversão aos falsos cristãos.
    Gente que desconfia de suas próprias convicções querem julgar a ações dos outros. Pior, são pagos e tem o poder para isto. Em eras de teorias de conspiração e as do domínio do fato e tempos de “prisões por convicções e ausência de provas”, ou mudam-se as coisas ou a cova será o breve destino desta pátria maltratada, Brasil.

  3. Parece a descrição do Aras.

    Que coisa terrível essa falta de caráter que me remetu imediatamente a dois textos clássicos de Shakespiere e Machado. No de Shakespiere, em Hamlet o personagem Polonio aconselha seu filho, que está partindo para a França a se portar como um sabonte.
    No ” O medalhão” de machado, que tenho convicção que foi inspirado no bardo de Avon, o personagem de Machado dá ao filho os mesmos conselhos.

    Me parece que a especialidade de Brasília e produzir esses tipos em série, como uma linha de produção.

    O Medalhão eu já postei aqui, vou ver se acho a fala de polonio e ponho no fora de pauta a manhã.

  4. Aí a Lampada se apagou. Ou a Lampada considera que, em sua lógica, o próprio Aragão teria sido displicente ao empunhar a bandeira da candidatura Janot a PGR e ser assumidamente o seu principal eleitor?

    Não! O Aragão acreditou no escorpião traiçoeiro de boa fé e, em troca, ganhou a peçonha do seu traiçoeiro e criminoso indicado.

    Mas, já que a conversa é falar do que é fácil. Fácil é fazer a previsão do passado. Porque o que já aconteceu é sabido. O resto são xurumelas de aspirantes a Olavo de Carvalho.

    https://marceloauler.com.br/de-eugenio-aragao-a-rodrigo-janot-amigo-nao-trai-amigo-e-critico-sem-machucar-amigo-e-solidario/

  5. mudam de partido, mudam de religião, mudam sua convicções com tal de agradar o mandante de turno e assim ganhar o cargo.
    Ratas imundas e rasteiras!

  6. Ri muito com o excelente texto do Eugênio Aragão. Dizia meu avô que se deve tomar cuidado com os falas mansas, com caras de preocupados com os negócios ou a vida alheios.
    Se inferno existisse e o capeta junto certamente teriam aqueles que fariam de tudo para ficar à sua direita e esquerda. É próprio ao humano.

  7. Não há espaço na Procuradoria-Geral da República para juízos politizados. Ser “esquerdista” ou ser “direitista” está no plano de uma ciência política superada.
    As opiniões expressas por um professor, mormente no exercício do seu direito de cátedra, não devem ser enquadradas em classificações como essas, que servem para simplificar um discurso, por natureza, muito mais complexo.
    Vejo Augusto Aras como detentor das qualidades necessárias para o cargo de Procurador-Geral da República.
    É Doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005), Mestre em Direito Econômico pela Universidade Federal da Bahia (2000) e as suas teses de doutorado sobre a adoção do Mandato Representativo Partidário e da Fidelidade partidária foram acolhidas como jurisprudência (leading case) pelo Supremo Tribunal Federal (MS 26.603/DF e MS 30.380/DF).
    Foi admitido em 1989, por concurso público, professor da Faculdade de Direito da UFBA e, atualmente, é professor da Universidade de Brasília, lecionando as disciplinas de Direito Eleitoral e Direito Privado.
    Conferencista e palestrante, ministrou aulas magnas em distintas instituições, sendo autor de artigos jurídicos e diversas obras.
    Como dito, acredito que Augusto Aras possui as qualidades necessárias para assumir o cargo de Procurador-Geral da República.

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