Olavo, que incitou seguidores a me atacarem, é denunciado pela filha, por Lucia Helena Issa

Os seguidores assustadores de Olavo de Carvalho, que não sabem sequer que cristãos e muçulmanos acreditam no mesmo Deus monoteísta, escreveram em minhas redes e e-mail ameaças como "você merece ser estuprada".

Olavo, que incitou seguidores a me atacarem, é denunciado pela filha

por Lucia Helena Issa

Como muitos de vocês se lembram, há cerca dois anos, pelos artigos que escrevo como jornalista, dando voz aos refugiados, lutando contra a indústria armamentista, relatando o que vi na Síria e na Palestina e sobre os milhares de muçulmanos que me receberam com imenso afeto no Oriente Médio, fui atacada por mais de seis dias por cerca de 4000 seguidores do guru e por ele próprio, o ” filósofo ” que não concluiu o Ensino Fundamental.

Muitas agressões ainda podem ser vistas nas redes, outros ataques e agressões, de cunho sexual, foram apagadas para poupar minha filha, então com apenas 13 anos, que chorou e se assustou muito durante aqueles dias.

Eu havia acabado de voltar de uma estadia em um campo de refugiados sírios, havia feito um trabalho que muito me emocionou e sobre o qual estou escrevendo um livro.

Além do meu trabalho com as mulheres e crianças refugiadas, do meu trabalho contra a indústria das armas e contra a posse de armas no Brasil, eu havia cometido outro crime imperdoável para os inquisidores medievais da horda olavista: eu namorava há dois anos um jornalista muçulmano que morava em Istambul.

Os seguidores assustadores de Olavo de Carvalho, que não sabem sequer que cristãos e muçulmanos acreditam no mesmo Deus monoteísta, o Deus de Abraão, que acham que o islamismo é uma raça e não apenas uma religião, que não sabem sequer que existem quase dois bilhões de muçulmanos pacíficos no mundo, escreveram em minhas redes e e-mail ameaças como “você merece ser estuprada”, “vou te estuprar para você nunca mais namorar um muçulmano” , “você é cristã e merece morrer por ajudar refugiados e por namorar um muçulmano”.

Alguns dos seguidores mais ferozes nos ataques eram Allan dos Santos e outros do Canal Terça Livre, agora denunciado na CPI das Fake News. Outra das seguidoras mais agressivas de Olavo, uma extremista paraense de cerca de 30 anos chamada Mônica Camatti, chegou a publicar uma foto minha em sua página, pedindo que seus seguidores me atacassem por meu trabalho com os refugiados e pela paz.

Foram dias de terror.

Mas também foram dias de imenso afeto, amor, sororidade, reconhecimento e solidariedade vindos de pessoas do Brasil inteiro, de Portugal e da Itália.

O aspecto irônico dessa história é que Olavo, o psicopata, incitou seus seguidores contra mim acreditando, a princípio, que eu era professora e muçulmana, sem ler ou pesquisar nada no Google, onde há muitas matérias sobre mim e sobre meu trabalho como jornalista, correspondente internacional em Roma por alguns anos e como cristã.

Leia também:  O Debate sobre o que foi a Ditadura Militar no Brasil nas Páginas da Revista Cientifica Tempo Amazônico, por Marcos V. F. Reis

Os sujeitos agridem uma mulher por seis dias, como eles têm feito agora com outras jornalistas, como Patricia Campos Mello, Constanza Rezende e Vera Magalhaes e sequer fazem uma pesquisa elementar sobre todas elas.

Não apenas nunca fui muçulmana, e tenho imenso carinho pelos meus amigos muçulmanos, como sou sobrinha-neta de um dos arcebispos católicos mais tradicionais e conhecidos da história do Brasil.

Um outro aspecto dessa história é que Olavo, naquele seu estilo bizarro e obsessão por orifícios anais, por estupros e ataques sexuais, usou palavras que tenho vergonha de transcrever aqui, mas acreditou que eu, depois de ser agredida dessa forma, ficaria calada para sempre.

Para a infelicidade de Olavo, jamais me calei, continuei escrevendo, denunciando o neofascismo brasileiro, dando voz aos refugiados, voltei ao campo de refugiados sírios na fronteira da Síria para fazer um trabalho humanitário com 300 crianças. Chorei com elas, me emocionei, recebi muito mais do que dei. Só tenho a agradecer a Deus por tudo o que vivenciei. Acabei recebendo dois prêmios internacionais por meu trabalho, um em Paris e outro em Montevidéu, no Uruguai.

Enquanto isso, Olavo vem sendo denunciado em dezenas de jornais brasileiros e estrangeiros. Foi denunciado recentemente em uma das mais importantes publicações americanas sobre as Américas e detonado em vários programas das tvs americana e britânica.

Olavo também tentou me processar e sofreu uma derrota vergonhosa, tendo seu processo extinto pelo juiz em São Paulo.

Olavo de Carvalho foi denunciado também em um livro que acaba de ser lançado por sua filha mais velha, Heloisa, por quem tenho imenso carinho e de quem me tornei amiga depois de, naquela semana de agressões, receber dela uma linda carta de solidariedade e um telefonema que me emocionou.

Hoje é Heloísa quem merece toda a minha solidariedade, respeito e carinho.

Heloisa tem sido alvo de ataques covardes, ameaças de morte e de atitudes perigosas de olavistas doentios depois de lançar o livro, “Meu pai, o guru do presidente”, e dar entrevistas sobre a sua infância, época em que o pai a retirou da escola (Heloisa só foi alfabetizada mais tarde, através do antigo Mobral e enquanto morou com o pai não pode concluir o Ensino Fundamental) .

Segundo Heloisa, o pai também ignorou o abuso sexual sofrido por ela, negligenciou a educação dos filhos, cometeu inúmeros golpes financeiros, envolveu- se comprovadamente em seitas pseudo-islâmicas para obter vantagens financeiras e era polígamo, o que é crime no Brasil.

Leia também:  A crise da Ford e a fantástica fábrica de ignorância institucional, por Luis Nassif

Logo que Heloisa começou a denunciar o pai, em agosto de 2017, ela passou a ser agredida por seus seguidores e pelo próprio Olavo de Carvalho, que chegou a escrever um texto em suas redes sociais (onde passa cerca de 18 horas por dia, digitando boçalidades, acusações sem provas, frases escatológicas de gosto duvidoso e mandando as pessoas tomarem em seus orifícios anais), afirmando, entre outras crueldades, que Heloisa era apenas uma louca ‘necessitando de internação’.

Por eu ter vivido em Roma e ter conhecido de perto mulheres cujas mães foram mortas ou internadas pelo fascismo, a atitude de Olavo em relação à filha que ousou denunciá-lo, me parece assustadoramente mussoliniana.

Milhares de mulheres que ousaram criticar e denunciar o fascismo italiano e o uso do cristianismo para justificar o racismo foram internadas como “loucas” pelos seus pais e maridos e pelas autoridades italianas da época.

As marcas desses crimes ainda podem ser vistas na Itália e as meninas de quem foram roubadas as mães e a própria infância começaram há alguns anos a revelar mais sobre esses crimes, ainda pouco conhecidos do Fascismo.

Recentemente pude ouvir a escritora Annacarla Valleriano, autora do livro “Malacarne: Donne e Manicomio nel Italia fascista”.

Ao terminar a entrevista e deixar aquela sala em Roma, depois da entrevista com a autora, eu chorei. Chorei por todas nós, mulheres, por todas as italianas e brasileiras torturadas, enclausuradas, mutiladas e mortas pelo Fascismo e pela ditadura, daqui e de lá.

As ofensas de Olavo a Heloisa e a tantas mulheres, a semelhança de suas frases com a retórica fascista (semelhança que, quando apontada por mim, o levou a me processar e, depois, a ver seu processo extinto pelo juiz) é inegável para qualquer pessoa que tenha estudado o Fascismo italiano como eu .

Olavo usa em seus sites a mesma águia preta em fundo vermelho, usada nas primeiras bandeiras das milícias fascistas, as “milizie fasciste per la sicurezza”, nos anos 30. Seus seguidores usam a mesma frase usada nas manifestações em apoio ao Fascismo, “Mussolini ha sempre raggione”. No caso dos fascistas brasileiros, “Olavo tem razão”

Olavo de Carvalho vem obtendo uma série de derrotas judiciais. Sim, ele foi derrotado no processo contra mim, foi derrotado no processo movido por Caetano Velloso, derrotado em outras dezenas de processos e tem sido condenado a pagar uma série de indenizações, para as quais ele confessa não ter mais condições financeiras e mobiliza candidamente seus seguidores para que paguem pelos crimes cometidos por ele.

Olavo de Carvalho, o pai que, logo que foi denunciado pela filha, a agrediu com palavras que tenho vergonha de reproduzir aqui, é um psicopata que será esquecido pela História nos próximos 20 anos ou, quando muito, será lembrado como um Jim Jones tupiniquim ou um Rasputin tupiniquim. Mas isso não muda a minha tristeza por testemunhar o abismo em que mergulhamos, o triste obscurantismo medieval, que aumentou assustadoramente o número de feminicídios e de assassinatos de jovens negros no Brasil. Minha tristeza ainda é imensa ao testemunhar o mal causado por um homem que sequestrou o cristianismo para legitimar o racismo, o ódio, a misoginia, o feminicídio, o preconceito, a homofobia e a criminalização da pobreza, a criminalização dos que não tiveram as mesmas chances que eu e você tivemos ao nascer, ao testemunhar a manipulação rasteira de um sujeito que acredita que a Inquisição matou poucas mulheres, que acredita que vacinas não devem ser tomadas pelas crianças e que devemos deixá-las morrer naturalmente e do sujeito que acredita que Herodes fez um bem às crianças de sua época pois, matando- as, impediu- as de pecar.

Leia também:  O caso Ford: fragilidade industrial e crise do mercado interno no Brasil, por Uallace Moreira e William Nozaki

Esse sujeito destruiu, nos últimos dez anos, uma parcela da juventude brasileira.

Transformou jovens brasileiros em cruzados medievais, ignorantes, vis, interessados apenas em cristianismo que mata, incapazes de sentir empatia! Transformou jovens em psicopatas e em sujeitos que agora falam de “santidade” enquanto matam suas namoradas, em covardes que odeiam os mais vulneráveis e odeiam a vida, pois cultuam apenas a morte, idolatram alguém cujo grande prazer é matar ursos nos EUA e passam seus dias na internet ameaçando mulheres e jornalistas com sua palavra predileta: morte.

Jovens que odeiam o fato de existirem diferentes religiões e diferentes formas de amar e de ser feliz, pois a indigência de seus cérebros trabalha apenas com ideias binárias, duas ideias de cada vez, e pensar sobre ideias mais complexas não lhes é possível.

Preferem odiar. Não apenas a mim e a outras jornalistas, não apenas a Heloisa de Carvalho, mas a qualquer pessoa que pregue o respeito pelos mais pobres, pelos refugiados e por todos que são diferentes de nós, pelos negros, pelos indígenas e pelos que tiveram suas vidas devastadas pela ganância e pelas guerras.

Deixo aqui minha imensa solidariedade e meu afeto pela Heloisa de Carvalho.

Olavo e Jair Bolsonaro estão naufragando diante de todos, mas mergulharam o Brasil em um ciclo de ódio e de obscurantismo, um ciclo dantesco que levaremos décadas para superar completamente.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

8 comentários

  1. Criaturas como o olavo, por impotentes e incapazes, querem vulnerar as outras.
    Influenciar e fortalecer-se, para que o ego inflado pare de sofrer com a constatação da sua tibieza.
    Criaturas assim não devem ser encaradas de frente e nem ter validados seus argumentos.
    Vulnerar-se com elas é dar-lhes poder.
    Às suas vítimas faltam respostas à altura ou o simples ignorar a sua existência.
    Se o tipo entende que uma mulher deve ser estuprada e o diz pessoalmente, o que deveria ela dizer, reclamar, procurar a polícia? – o cabra está lá na PQP passando papel higiênico no seu vazante orifício.
    A resposta é crucial, e deve se dar antes da queixa:
    “pois eu acho que você deve ser castrado, tá à fim, chega mais”
    Todo machão repensa uma ameaça dessas.

  2. Contundente, pertinente e verdadeiro texto desnudando – mais uma vez – o sociopata travestido de “não-posso-sair-do-armário” que sempre foi.

    6
    1
  3. Eu parei de ler nesta parte “que não sabem sequer que cristãos e muçulmanos acreditam no mesmo Deus monoteísta”.
    Não que eu goste do Olavo, acho ele um picareta, mas a autora do texto não tem a menor ideia do que fala. O deus muçulmano é trino? Não. Então já começa por aí. Poderia prosseguir mas já nem tenho mais paciência.

    1
    15
  4. Maxwell , os maiores autores do planeta afirmam que as três religiões são irmãs , monoteístas e abraâmicasc, e qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a história das religiões sabe disso. Allah é apenas a palavra De ir em árabe e é a palavra usada na própria Biblia cristã em língua árabe. Mas , segundo você , F.Schuon , Schlomo Sand , Edward Said e eu estamos todos errados e só o Mawell está certo.

    10
    1
  5. Maxwell , os maiores autores do planeta afirmam que as três religiões são irmãs , monoteístas e abraâmicasc, e qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a história das religiões sabe disso. Allah é apenas a palavra Deus em árabe e é a palavra usada na própria Biblia cristã em língua árabe. Mas , segundo você , F.Schuon , Schlomo Sand , Edward Said e eu estamos todos errados e só o Mawell está certo.

    6
    1
  6. Ainda me pergunto como existem pessoas,sobretudo mulheres, identificadas com essa loucura. Espero que,hoje, possam entender o que uma mulher como Dilma,representava pra esses machos impotentes e frágeis. Dilma os apavorava.

    11
    1

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome