Os efeitos do primeiro ano do bolsonarismo para LGBTs, por Cesar Calejon

A ascensão do bolsonarismo no Brasil do século XXI foi viabilizada por meio de uma plataforma política extremamente homofóbica.

Os efeitos do primeiro ano do bolsonarismo para LGBTs

por Cesar Calejon

Os simbolismos de qualquer presidência sempre se transformam em ações concretas que estão invariavelmente relacionadas ao caráter das mensagens que foram transmitidas à população por meio destes símbolos

A ascensão do bolsonarismo no Brasil do século XXI foi viabilizada por meio de uma plataforma política extremamente homofóbica. Ainda enquanto candidato, Jair Bolsonaro afirmou que preferiria ver o filho “morto” caso o próprio progênito fosse homossexual. Apesar de não ser responsável por incutir a homofobia no inconsciente popular do brasileiro médio, ao surfar esta onda, o bolsonarismo agudiza consideravelmente a questão.

Segundo dados do Grupo Estadual de Combate aos Crimes de Homofobia (GECCH) da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Mato Grosso, por exemplo, houve um aumento de 26% considerando as ocorrências de crimes motivados por homofobia entre os anos de 2018 e 2019. Entre janeiro e dezembro de 2019, foram registradas 139 ocorrências no Estado, contra 110 casos verificados no ano anterior.

Não por acaso, os meses que mais apresentaram registros de crimes de homofobia no ano passado (no Mato Grosso) foram setembro (17), período que antecedeu a eleição de outubro, e novembro (17), quando o ex-capitão que preferia ver o próprio filho gay morto já havia sido eleito por mais de 57 milhões de brasileiros.

Joy Agoston, mulher trans, analista de comunicação que trabalha em uma empresa multinacional francesa em São Paulo, explica como o simbolismo presidencial do bolsonarismo atua no âmbito prático da vida social de quem é LGBT. “Temos um presidente que, ao longo de sua vida pública, sempre pregou que as ‘minorias’, e em especial a classe LGBT, estavam fora do contexto social ‘padrão’. Ainda que fosse apenas para chamar a atenção, Jair Bolsonaro conseguiu acender a faísca do preconceito que estava enraizado e internalizado nas pessoas. Hoje, essas pessoas se sentem no direito de atacar, ofender e falar o que bem querem à comunidade LGBT. O que mais choca é o apoio e o embasamento que elas encontram nas palavras do próprio presidente. É como se existisse um aval tácito por parte dele, de que tudo aquilo é correto de se fazer”, ressalta a comunicóloga.

“Agressões verbais a gente acaba por escutar no nosso dia a dia, por exemplo: Corre para trocar o seu nome enquanto dá tempo, porque daqui a pouco vai ter que usar o seu nome de macho”, conta Agoston. “Alguns amigos meus já passaram por lugares onde foram humilhados e motivo de chacota. Os que voltaram para tirar satisfação ainda foram fisicamente agredidos. Em dezembro (de 2018), um conhecido estava passeando pelo (bairro dos) Jardins (em São Paulo) com seu namorado, quando foi motivo de chacota de alguns rapazes que aparentemente estavam fazendo uma atividade física na rua. Então, ele perguntou qual era o problema. Foi agredido com um soco no rosto e, ainda por cima, teve que escutar: ‘Aproveita por enquanto, porque em janeiro as coisas vão piorar para você se te encontrarmos por aqui.’ Ou seja, claramente esses rapazes se sentiram no direito de agredi-lo, ainda por cima contaram vantagem pelo fato de Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil a partir de janeiro (de 2019) e finalizaram com uma ameaça de que aquilo se tornaria normal”, conclui Agoston.

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Este cenário não se apresentou somente no Brasil. No ano em que Trump foi eleito nos Estados Unidos, por exemplo, as mortes de pessoas da comunidade LGBT atingiram o recorde histórico até o presente momento naquele país, segundo dados da Coalizão Nacional de Programas Antiviolência dos EUA. Incluindo as vítimas da boate Pulse, o número subiu 217% entre 2015 e 2016.

Isso acontece porque, invariavelmente, os simbolismos de qualquer presidência sempre se transformam em ações concretas que estão relacionadas ao caráter das mensagens que foram transmitidas à população por meio destes símbolos.

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas e escritor, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI

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