Os governantes, os governados e a democracia flamenguista?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ontem o esporte que encanta as multidões passou a celebrar o fracasso das instituições do Sistema de (in)Justiça do Rio de Janeiro.

Foto Gazeta Esportiva

Os governantes, os governados e a democracia flamenguista?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Desde tempos imemoriais os governantes se distinguem dos governados em razão dos privilégios que desfruam. A distinção entre os próprios governantes, entretanto, somente pode ser feita em razão daquilo que eles decidiram sacrificar.

Após o grande incêndio de Roma, Nero (38 dC – 68 dC) se tornou odiado porque sacrificou recursos públicos para construir a Domus Aurea e uma estátua gigante em sua própria homenagem. Vespasiano (9 dC – 79 dC) reaproximou o poder do povo sacrificando o palácio construído por Nero para dar à população romana uma imensa casa de espetáculos: o Coliseu.

Embriagado por suas crenças racistas, Adolf Hitler (1889 – 1945) fez o povo alemão se sacrificar para construir um Reich de 1000 anos que durou pouco mais de uma década. Derrotado, o Führer mandou Albert Speer (1905 – 1981) colocar em prática o Decreto Nero, diretriz que preconizava a destruição de toda a infraestrutura alemã que havia ficado intacta ao fim da guerra. Speer preferiu sacrificar sua lealdade ao chefe: as pontes, ferrovias, estradas e fábricas que deveriam ser dinamitadas foram preservadas para ajudar a reconstruir a Alemanha no pós-guerra.

Prevendo a possibilidade de uma guerra que destruiria toda a indústria pesada de seu país, Josef Stalin (1878 – 1953) impôs um imenso sacrifício à população. Ele mandou transferir todas as indústrias siderúrgicas, metalúrgicas e eletromecânicas da URSS para além dos montes Urais. Essa decisão se mostrou crucial para garantir a vitória do Exército Vermelho sobre as hordas nazistas que invadiram e devastaram parcialmente o território soviético.

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O Rio de Janeiro já teve governantes capazes de sacrificar recursos públicos para construir os monumentos que embelezam aquela cidade (o Cristo Redentor, o Bondinho do Pão de Acúcar) e que possibilitaram a vida numa região que não era bem servida de água potável (o aqueduto, obra que no século XIX se destacava na floresta retratada nas aquarelas do pintor Thomas Ender). Quando foi governador Leonel Brizola (1922 – 2004) sacrificou uma parte do orçamento do estado pensando no futuro da sociedade carioca. A construção dos CIEPS foi interrompida por causa da estupidez e do racismo da elite do Rio de Janeiro. O governador Sérgio Cabral preferiu sacrificar recursos públicos num esquema de corrupção que lhe garantiu propinas para comprar objetos de luxo para si e para sua esposa.

Qual é o sacrifício feito por Wilson Witzel? Desde que tomou posse ele iniciou um verdadeiro genocídio. O governador do Rio de Janeiro está sacrificando o sistema constitucional e a dignidade humana do povo ordenando aos policiais matar indistintamente bandidos, suspeitos e inocentes. Adultos e crianças, homens e mulheres, desde que sejam pobres e morem em favelas os cariocas podem ser abatidos a tiros como se fossem moscas. E para piorar as coisas, Witzel comemora pessoalmente a matança como se o Rio de Janeiro fosse um imenso templo de horrores erguido para celebrar o culto de morte que ele comanda.

Ontem o governador carioca tentou participar da vitória do Flamengo. Ao fim do jogo, quando ele se ajoelhou em campo diante da Gabigol o jogador se afastou recusando a homenagem. Ao não se associar ao flâmine do culto de morte witzelriano, Gabriel Barbosa marcou o maior gol de sua carreira. Ele fez aquilo que os desembargadores do TJRJ se recusam a fazer. O futebol já era uma celebração da vida e não da violência. Ontem o esporte que encanta as multidões passou a celebrar o fracasso das instituições do Sistema de (in)Justiça do Rio de Janeiro.

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Os modernos estádios de futebol são herdeiros arquitetônicos do Coliseu, mas os jogadores não precisam se comportar como se fossem gladiadores. Essa foi a lição que Gabigol deu a Wilson Witzel. O problema é que ele próprio desaprendeu a lição ao posar ao lado do genocida depois.

Os ídolos dos torcedores não precisam comemorar o espetáculo sanguinário organizado por um governador genocida que se comporta como se fosse um Hitler tupiniquim. Os vivos e os mortos saudariam o renascimento da democracia corintiana. Mas ela não renascerá pelas mãos de Gabriel Barbosa.

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