Os heróis amazônicos contra os Cavaleiros do Apocalipse, por Sebastião Nunes

Tudo estava silencioso na clareira, quando um helicóptero desceu para levar as dezenas de mortos rumo ao Palácio do Planalto.
– Parece que a festa aqui foi das boas – disse o piloto coçando a cabeça. – Tem defunto pra tudo quanto é gosto.
– Foi ótima – respondeu o cavaleiro Messias. – E vai melhorar muito quando a gente botar a mão no que restou daquele saci desgraçado.
– Desculpa, chefe, mas não entendi – disse o piloto. – O senhor está dizendo que andaram brigando com um saci?
– Verdade verdadeira – confirmou o cavaleiro Messias. – Não só brigamos como ele levou mais de 500 tiros. Deve ter virado farelo, por isso não encontramos o corpo do amaldiçoado.
– Farelo? Duvido muito, o senhor me perdoe – discordou o piloto. – Mas ainda tá pra nascer o homem capaz de matar um saci.
O cavaleiro Messias pensou em mandar pra PQP aquele FDP, mas lembrou que tinha virado crente e não podia mais falar palavrão em público.
– Deixa de conversa fiada, piloto – arrematou o cavaleiro Messias arreliado. – Trata de levar a defuntada e entregar nas mãos daquele ministro com nome de pedra.
– Ônix, chefe – ajudou o pau mandado, perdão, o escudeiro-Moro.
– Ônix, isso. Ele vai deixar claro pro povo que não estamos de brincadeira.

ENQUANTO ISSO, NA MATA
Depois de cismar bastante, o Saci concluiu que era preciso tomar providências sérias para salvar a Amazônia daqueles assassinos.
Assim, procurou alguns amigos que viviam nas redondezas: a Iara, o Curupira, o Caipora, a Mula sem cabeça, o Boitatá, o Boto cor-de-rosa, a Cuca e a Boiuna.
– Meus irmãos – discursou o Saci depois de reunir os amigos noutra clareira ali perto. – Fomos invadidos por um bando de assassinos. Eles atiram pra matar. Até contra mim tentaram, os ignorantes. Precisamos fazer alguma coisa.
– Você tem alguma ideia? – perguntou a Iara, ainda sem compreender.
– Conversar com eles não adianta, isso já percebi – continuou o Saci. – Temos muito assassino na floresta, mas todo assassino tem seu motivo, por pior que seja esse motivo. Os grileiros e invasores de terras, por exemplo, mandam matar pra garantir suas ladroeiras.
– E tem os matadores de aluguel – lembrou o Curupira. – Esses são contratados por alguém e matam por dinheiro, sem remorsos e sem deixar rastros.
– E os latifundiários – acrescentou a Mula sem cabeça. – Quanto mais terras têm mais querem, e por isso mandam matar os pequenos proprietários.
– Verdade – concordou o Saci. – Só que esse bando não tem objetivo nenhum. Mata por puro prazer.
– Mas isso é horrível – disse a Iara, fazendo uma careta. – Nunca vi nada igual!
– Nem eu – admitiu o Saci. – Por isso marquei esta reunião com vocês.

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DECIDINDO O QUE FAZER
Agachados numa roda, matutaram, matutaram, matutaram.
O Sol passou três vezes por cima da mata e eles lá, matutando.
A Lua passou de crescente a cheia e eles lá, matutando.
Até que o Saci levantou, espreguiçou e disse, bocejando:
– A única solução é prender esses assassinos e manter eles presos. Além disso, é preciso destruir as armas deles.
– Mas como vamos prendê-los, se não temos armas?
– Mas somos imortais – disse o Curupira, coçando um calcanhar no outro.
– E podemos fazer cordas com cipó, coisa que não falta por aqui, e amarrar uns nos outros – ponderou a Mula sem cabeça.
– E o que vamos fazer com eles, depois de amarrados? – perguntou o Caipora.
– Boa pergunta – concordou o Boitatá. – O que vamos fazer com eles?
Eles então se agacharam de novo e começaram a matutar no que fazer.
Matutaram, matutaram, matutaram.
O sol passou mais três vezes por cima da mata e eles lá, matutando.
Então o Boto cor-de-rosa deu um pulo e gritou:
– Já sei! Vamos botar todos eles de enxada na mão bem no meio do Sertão!

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