Os parasitas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Quando a realidade se transforma em ficção nada melhor que transformar a própria ficção em atividade lúdica.

Surto de coronavírus na China. Pandemia de incompetência administrativa no Brasil. Servidores públicos sendo chamados de “parasitas” por um ministro suspeito de ter enriquecido mediante expedientes questionáveis. Um cheiro nauseabundo de Guerra Mundial exalando da Casa Branca em virtude de Donald Trump ter sobrevivido ao Impeachment. Quando a realidade se transforma em ficção nada melhor que transformar a própria ficção em atividade lúdica.

O texto publicado abaixo foi escrito há uns vinte anos. O nome original dele era “Uma história qualquer”.

“O Brasil havia acabado de entrar na Segunda Guerra, enviando para o fronte a Força Expedicionária Brasileira, e, nos recantos mais remotos do país, onde as notícias chegavam com várias semanas, as vezes com meses de atraso, a população apoiava a iniciativa de Getúlio, mas secretamente nutria uma admiração toda especial pelo Eixo. Apesar do pesar das famílias dos pracinhas, torcia-se inconsciente para que os nazistas vencessem os americanos e seus submarinos traiçoeiros, que covardemente haviam afundado várias embarcações brasileiras.

Embaixo de uma moita de capim-gordura, nasceu o herói. Tinha garras fortes e um aspecto assustador. Impunha respeito nos insetos menores que ele e certamente causaria temor a muitos homens se não tivesse tamanho microscópico. Ladino, logo que nasceu foi para beira da estrada esperar o meio dia, que é o horário em que os cachorros vadios procuram sombra. Assim, em menos de um dia, encontrou um hospedeiro provisório.

O infeliz que deu abrigo ao nosso herói, era um vira-lata mal alimentado, carregado de sarna, que adotara por senhor o pai de Mario. Seu nome, se não me engano, era Leão. O cachorro era alimentado pela dona Ester, sendo muito querido do menino, razão pela qual não o importunavam quando resolvia aparecer. É interessante a relação de fidelidade entre um cachorro vadio e o seu dono. Ela é a maior prova de que não se pode comprar o carinho de qualquer animal de sangue quente. Todo dia, lá pelas tantas, quando o estômago apertava, o cachorro aparecia. Pagava o preço da refeição brincando com Mário e, logo que o menino cansava e ia para o rio tomar banho, ele voltava à vida de caçador das baratas-d’agua que se arriscavam em terra firme e dos sapos-cururus que saiam do charco a cata de alguma mosca perdida. A água atiçava a sarna, que danava a coçar mais enquanto ele secava, por isto banho não era coisa de que gostasse muito.

Foi assim que, numa tarde qualquer do ano da graça de 1938, o herói trocou a pata do cachorro pelo pé do menino. Quando percebeu que o hospedeiro tinha companhia, saiu da loca e esperou a melhor oportunidade para trocar de casa. O sol ia alto e, enquanto aguardava a mãe chamá-lo para o almoço, o menino agachou no quintal, a fim de acariciar o cachorro. Este, como fiel escudeiro, esticou-se que nem cobra cipó no chão. Quando tocou a pata no pé de Mário, o herói largou o último pelo que o prendia ao cachorro, transpôs ligeiramente a distância que o separava dos dedos do pé do menino e tentou acomodar-se. Sua primeira investida foi um desastre. Custou-lhe uma perna esfolada, uma garra arrancada e algumas outras escoriações.

O herói já estava vendo o céu através da unha do menino, quando foi violentamente repelido por um rival. O canto direito do dedão do pé esquerdo já estava ocupado e o dono da bola não queria saber de outro craque naquele campo. Confiante, ele não arredou pé. Então, seguiu-se uma violenta luta corporal. Para desgosto de Mário, a contenda durou a tarde e a noite daquele dia, que acabou sendo o dia em que ele mais coçou o pé esquerdo em sua vida.

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Resolvida a contenda em favor do oponente, que além de mais experiente, contava com a vantagem de ter o ventre protegido pelo dedão, o dorso pela unha e a traseira pelo fundo da loca, o herói migrou resignado durante a noite para outro dedo. Após peregrinar muito, foi encontrar guarida no dedinho do pé direito do menino. Havia uma fêmea lá. No entanto, por uma razão ou por outra, ela resolveu dar abrigo ao estranho. A proximidade instiga ao amor. Assim, a estória entre os dois foi quente e rendeu muito, mas muito incomodo ao menino, principalmente depois que a primeira dezena de lindos filhinhos do casal nasceu.

Logo que pôde, o herói despachou os filhos recomendando-os aos dedos dos amigos de Mário, enquanto se ocupava em fecundar novamente sua esposa. Em pouco tempo, várias e várias gerações do casal deram cabo de povoar a cidade. Alguns, agarrando-se a caixeiros-viajantes, foram dar na capital e dali, um ou outro partiu para o velho mundo em guerra.

No verão de 1940, as forças do Eixo varriam a Europa. Enquanto isto, de olho no controle do Atlântico Sul, diplomatas alemães e ingleses faziam do Rio de Janeiro um verdadeiro palco de batalhas. Esperto, Getúlio mantinha-se neutro, flertando ora com um ora com o outro lado. Queria saber o que ele e o Brasil poderiam ganhar com a guerra.

Mais ou menos na época em que uma importante comitiva de empresários alemães visitou o Brasil, vários descendentes do herói tomaram de assalto o Palácio do Catete, onde chegaram pelos pés de um faxineiro. Até hoje, o nome dele é segredo de Estado. Segundo informações extraoficiais que obtive de um Capitão-de-Mar-e-Guerra aposentado, o pobre mal sabia que seus passeios noturnos pelos corredores do poder provocariam o fim da II Guerra Mundial. Carregado de descendentes do herói, por motivos ideológicos ou não, os frutos da coceira do faxineiro acabaram nos pés desprotegidos dos visitantes da sede do Governo.

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Dentre as vítimas, diz-se que Getúlio foi o que mais sofreu em virtude de sua alergia. Não obstante, sabe-se que o ditador enfrentou o problema com o bom humor costumeiro. Quem não conhece a célebre passagem de seu diário, em que ele relata como aniquilou as forças de Luís Carlos Prestes, o rival que vivia grudado no seu pé?

Como o Catete era passagem obrigatória de todos aqueles que tivessem interesses no Brasil, os descendentes do herói acabaram aportando em terras distantes além-mar. Na Inglaterra, chegaram pelos pés de um amanuense da embaixada, que retornou a terra natal em virtude de uma doença rara, que não podia ser tratada no Brasil de antanho. À França, foram levados pelo adido militar da embaixada alemã, designado para um alto posto em Paris durante o regime do Marechal Pétain. Na Alemanha, chegaram pelos pés dos empresários da Krupp.

Aqui, antes de prosseguir, não posso deixar de fazer uma digressão. Certamente o leitor entenderá semelhante procedimento, se creditá-lo à necessidade que o contador de estórias têm, à similitude do historiador, de dar conta de todos os fatos e personagens enquanto escreve. Na vida, como na literatura, o tratamento igual é indispensável. Por outro lado, se na vida isto as vezes não é possível ou recomendável, pelo menos na literatura o princípio da igualdade pode e deve ser levado até as últimas consequências. Mas, como dizia…

Na Inglaterra, os descendentes do herói não tiveram muita sorte, talvez em virtude de uma característica muito cara aos insulanos. Diferentemente dos continentais, os ilhéus costumam levar tudo muito a sério. Assim, acometido de coceira, mesmo acamado, o rapaz foi tão fundo, mas tão fundo com o canivete, que acabou arrancando a unha, matando todos seus hóspedes antes que eles tivessem tempo de se mudar. Na França, porém, ocorreu o inverso. Em pouco tempo, os descendentes do herói multiplicaram-se. Da Normandia à Riviera, 9 entre 10 franceses foram contaminados. Por isto, até hoje eles detestam os alemães, lembrando-se de que foram os vizinhos que introduziram a coceira de pé na França. Como a Alemanha estava empenhada na realização do ideal nazista e este não era muito diferente da ideologia dos invasores brasileiros, lá os netos e bisnetos do herói encontraram um terreno fértil onde puderam crescer à sombra do partido. Aliás, segundo dizem, eles chegaram a ocupar os dedos do poder, sendo levados pelo próprio führer às cerimônias oficiais do III Reich.

Hitler, que já não era uma pessoa de fino trato, com a invasão passou a não se aguentar mais nas botas. Não conseguia atinar porque seus pés coçavam tanto. Resultado, passou a coçá-los abertamente. Isto acabou acarretando a desgraça do seu regime. Consoante documentos secretos que foram secretamente fotografados nos porões do Kremlin por agentes norte-americanos durante a Guerra Fria, a vitória dos Aliados começou a ocorrer em virtude de um equívoco.

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Em meados de 1942, o führer reuniu-se com o duce em Berlim, a fim de tratar da campanha italiana na África. Ao entrar na sala de conferências, Benito Mussolini flagrou Adolf Hitler coçando o pé. De imediato, ressentiu-se intimamente, pensando que o amigo estava lhe atribuindo pouca importância. Rapidamente recompondo-se, o führer sentou-se em sua cadeira e cortesmente ofereceu um charuto ao aliado. Mussolini acendeu-o e começou a esbravejar qualquer coisa a respeito da negligência das tropas alemãs na África. Apesar formal, o líder alemão não escondeu sua fúria. Fúria essa, aliás, que havia sido decuplicada por causa da coceira irritante e persistente. Hitler replicou que a culpa pelo malogro dos italianos deveria ser creditado aos próprios italianos, os quais, sempre que podiam, punham-se em fuga deixando desguarnecidas posições importantes. Serenados os ânimos, ambos desculparam-se e começaram a tratar seriamente do assunto, muito caro à Alemanha e à Itália.

Durante a palestra, dentro das botas do austríaco, os descendentes do herói começaram a entrar em conflito por território. Como Hitler não dormia descalço, os filhos, dos filhos, dos filhos, dos filhos, dos netos do herói não tinham para onde ir. Entretanto, continuavam a se reproduzir… Até que o natural controle da população veio em forma de uma guerra brutal. Por isso, quando daquele encontro, o führer acabou não dando muita atenção a Mussolini e o italiano voltou para casa amuado. Segundo os dados extraídos dos documentos fotografados no Kremlin, depois de abaixar-se várias vezes durante a entrevista, a fim de secretamente coçar os pés, Hitler chegou a chutar descuidadamente o aliado por baixo da mesa em duas ou três oportunidades.

Preocupado com o ocorrido, assim que o italiano retirou-se ruidosamente do recinto, de próprio punho, Adolf Hitler determinou aos seus diplomatas que reparassem urgentemente o agravo. Mas, já era tarde. Vaidoso, Mussolini não desculpou intimamente o aliado e, a pretexto de algumas derrotas insignificantes, resolveu retirar as tropas italianas da Abissínia. Sozinhos, os alemães não sustentaram a campanha no norte do continente negro. Os Aliados venceram a campanha da África, controlaram o Golfo Pérsico e arremeteram diretamente contra a Sicília e depois alcançaram a ponta da bota. Dali até Berlim, considerando-se que a maioria dos italianos não estava disposta a lutar em sua própria casa e que a Alemanha não tinha condições de combater sozinha em três frentes, a derrota do III Reich demorou apenas algumas coçadelas.”

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