Por que comemos pipoca no cinema?, por Wilson Ferreira

O impulso voyeurista de olhar para o que é exibido acompanhado pelo prazer oral da pipoca é um fenômeno psíquico que tem a ver com a própria lógica mercadológica da sociedade de consumo.

Por que comemos pipoca no cinema?

por Wilson Ferreira

Por que o impulso de comer pipoca no cinema? Ou em casa, assistindo a um filme em uma plataforma de streaming com um balde de pipoca ao lado? Por que a experiência do cinema é acompanhada pela pipoca? A história social da pipoca e a psicanálise do cinema nos ajudam a entender que essa conexão não é assim tão natural como imaginamos. No início, os cinemas resistiram à ideia de comer pipoca dentro da sala de projeção, enquanto espectadores escondiam os saquinhos nos bolsos. Desde as origens da sociedade do espetáculo (circos e feiras no século XIX) a pipoca tornou-se sinônimo de entretenimento. O impulso voyeurista de olhar para o que é exibido acompanhado pelo prazer oral da pipoca é um fenômeno psíquico que tem a ver com a própria lógica mercadológica da sociedade de consumo. A psicanálise do cinema pode ajudar a entender por que essa dupla cinema/pipoca funciona tão bem. 

Há algo no cinema que atrai as pessoas, além dos blockbusters com elencos estelares e produções milionárias: o cheiro tentador de sal, manteiga e pipoca. Pipoca no cinema se tornou um item básico. Mesmo nesse período de pandemia no qual os cinemas estão fechados, tentamos emular em casa a experiência de uma sala de cinema assistindo aos filmes nas plataformas de streaming ao lado de um balde de pipocas de micro-ondas.

Talvez o leitor nunca tenha se perguntado: por que comemos pipoca no cinema? Qual a origem dessa combinação perfeita que parece ser tão natural quanto o conhecido “romeu e julieta”, queijo com goiabada?

Uma história social dessa simbiose pipoca/cinema pode ser reveladora tanto das origens do prazer da experiência do cinema quanto da natureza dos prazeres engendrados pela própria sociedade de consumo do pós-guerra.

Apesar da óbvia conexão da pipoca com a experiência lúdica de assistir a um filme, se olharmos na História isso não foi sempre assim. Na verdade, as salas de cinema resistiram à ideia de comercialização não só de pipoca, mas também de doces, refrigerantes ou qualquer tipo de salgadinho.

Isso pode ser encontrado no livro “Popped Culture: A Social History of Popcorn” (Smithsonian Institution, 2001), de Andrew Smith. Já na segunda metade do século XIX a pipoca literalmente já havia explodido em cena nos EUA – especialmente nos locais de entretenimento como circos e feiras.

Uma das razões da popularidade crescente da pipoca foi sua mobilidade: em 1885, Charles Cretor inventa a primeira máquina móvel de pipoca a vapor para comercializar o produto nas ruas. Uma máquina de produção perfeita para qualquer evento de entretenimento ao ar livre. E mais uma vantagem: a pipoca podia ser produzida em massa sem cozinha, ao contrário da bata frita – feitas em pequenos lotes para ser vendida nas ruas, não era a ideal para lanches em massa.

Segundo Smith, a nascente indústria cinematográfica das primeiras décadas do século XX queria distância dos saquinhos de pipoca. As salas de exibição queriam imitar as distintas salas de teatro: tinham decoração suntuosa, camarotes e belos e caros tapetes – não queriam ver neles pipoca triturada a saquinhos amassados e pisoteados.

Cinema para as classes médias

Era o esforço das salas de exibição se tornarem respeitáveis para as classes médias e se afastar das imagens dos velhos “nickelodeons” do primeiro cinema – antigas salas de cinema nas quais eram servidas bebidas alcoólicas e comidas, enquanto todos acompanhavam os filmes conversando ruidosamente. Agora, tentava-se emular a experiência do cinema a algo como assistir a uma noite na ópera.

Bem diferente dos nickelodeons, as novas salas de exibição eram escuras, com filas de confortáveis poltronas e com todos em respeitável silêncio. Nada a ver com o som perturbador dos saquinhos de pipoca e o barulho de salgadinhos sendo mastigados enquanto migalhas emporcalhavam os caros tapetes vermelhos.

O novo cinema era mais elitizado: os filmes agora exigiam um público alfabetizado para ler as legendas que iam os elementos narrativos dos filmes. Mas quando os filmes acrescentaram o som em 1927, a indústria do cinema abriu-se para um público mais amplo. Sem a necessidade da leitura de legendas, em 1930 a frequência aos cinemas havia chegado a 90 milhões por semana.

A chegada do som favorecia a entrada da pipoca nas salas: os filmes sonorizados agora poderiam abafar o barulho dos saquinhos. Mas ainda os proprietários hesitavam em trazer lanches para dentro dos cinemas.

A Grande Depressão apresentou uma excelente oportunidade tanto para o cinema quanto para a pipoca: o cinema passou a ser a diversão mais barata enquanto a pipoca era um luxo que, mesmo na crise, qualquer um ainda podia pagar. Vendedores ambulantes ficavam nas portas dos cinemas com suas máquinas a vapor, enquanto muitos espectadores tentavam entrar clandestinamente com saquinhos do produto escondidos nos bolsos dos casacos.

Com a crise econômico se estendendo, logo os proprietários dos cinemas viram na venda de pipoca nos lobbies das salas uma grande oportunidade de lucros. Em 1945, pipoca e cinema já estavam inextricavelmente ligados: mais da metade da pipoca vendida nos EUA era consumida dentro dos cinemas.

Continue lendo no Cinegnose.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora