Por quê importa a presença da disciplina de Sociologia no Ensino Médio?, por Cristiano das Neves Bodart

Qual o sentido em saber calcular juros sem compreender seus impactos sobre a sociedade?

Por quê importa a presença da disciplina de Sociologia no Ensino Médio?

por Cristiano das Neves Bodart

Por quê importa a presença da disciplina de Sociologia no Ensino Médio? Para responder essa pergunta buscamos apresentar alguns dos motivos que evidenciam ser um erro reduzir a sua carga-horária ou retirá-la do currículo escolar.

A Lei de Diretrizes e Base da Educação preconiza que o Ensino Médio deve ser capaz de formar cidadãos conscientes, preparar para o mercado de trabalho e dar condições dos estudantes acessarem o Ensino Superior. A Sociologia ao abordar a sociedade contemporânea em suas múltiplas dimensões (social, econômica, política, cultural, etc.) contribui para que o aluno compreenda melhor as relações sociais e as instituições, o que é essencial para sua inserção no mundo do trabalho, bem como dotar os estudantes de maior consciência de seus direitos e deveres enquanto cidadãos. Atualmente o acesso ao Ensino Superior passa pela avaliação da capacidade dos estudantes em compreender os diversos fenômenos sociais, o que envolve problemas e avanços contemporâneos. Diversas análises evidenciam o papel dos conhecimentos sociológicos para um bom desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), sobretudo na produção de redações, nas interpretação de textos e nos próprios conteúdos cobrados no exame. Dito isto, a Sociologia é um componente curricular que, juntamente com os demais, colabora para que os objetivos preconizados pela Lei de Diretrizes e Base da Educação sejam alcançados.

Embora outras disciplinas de Ciências Humanas tratem de fenômenos sociais, a Sociologia tem especificidades que a tornam insubstituível no Ensino Médio. Os conhecimentos sociológicos a serem ensinados são resultantes de rigorosos conceitos, teorias, perspectivas e métodos próprios, capazes de desvelar facetas do social que não são preocupações centrais de outras áreas, tais como a Geografia e a História. A Sociologia volta-se, grosso modo, para uma análise que visa à compreensão das relações entre indivíduos e sociedade, assim como as relações entre os indivíduos, desvelando as coerções, os conflitos, as acomodações, as ressignificações, os discursos, os interesses, os sistemas de dominação, etc. É justamente por ter conceitos, teorias, epistemologias e métodos próprios, que a Sociologia não pode ser “dissolvida” no interior de outras disciplinas em forma de “estudos” e “práticas”, como indicado na Lei nº 13.415/2017, que reforma o Ensino Médio. O professor não empregando as teorias, os conceitos, os métodos e as perspectivas próprias da Sociologia estaria a ensinar qualquer outro saber, mas não o sociológico, nem lecionando Sociologia. É possível (e desejável) o diálogo entre Sociologia e as demais Ciências. Contudo, como afirmado, o seu ensino não é passível de ser dissolvido no interior das demais disciplinas. Ao “diluir” deixará de ser Sociologia.

Outro motivo pelo qual a Sociologia deve figurar o currículo do Ensino Médio está em sua colaboração na execução de uma pedagogia do cultivo, capaz de superar uma pedagogia tecnicista voltada a formar técnicos reprodutores de tarefas. O Ensino Médio deve buscar desenvolver as múltiplas potencialidades do Ser Humano, por tanto, ter um currículo que não se resuma à Língua Portuguesa e à Matemática. Um currículo que prioriza apenas essas duas disciplinas interessa apenas aos políticos – e suas exposições de dados estatísticos com fins eleitoreiros– e aos ávidos por subordinados não críticos. Não que essas disciplinas não sejam importantes, contudo a educação precisa envolver as múltiplas dimensões do desenvolvimento intelectual dos estudantes. Além do mais, há um auxílio mutuo entre as disciplinas. Por exemplo, como ignorar a importância da Sociologia para a interpretação e produção de textos? Qual o sentido em saber calcular juros sem compreender seus impactos sobre a sociedade?

Ainda elencando as potencialidades do ensino de Sociologia, destacamos sua contribuição ao (auto)reconhecimento da identidade social dos alunos. Temáticas tratadas nas aulas de Sociologia, tais como, gênero, etnias, classe social, juventude e grupos sociais,  auxiliam os alunos a se (auto)reconhecerem e a reconhecer o outro; aspectos fundamentais para o desenvolvimento do apreço pela tolerância e o respeito às diferenças e valorização da diversidade.

O conhecimento sociológico é um instrumento de emancipação social. Auxilia o estudante a reconhecer o seu lugar no mundo social e seus direitos, assim como o desperta à necessidade de fala, compreendendo as disputas pelas definições de “verdades”.  Temas como movimentos  sociais, cidadania, desigualdade social, Estado, Políticas Públicas tratados à luz dos conhecimentos sociológicos são fundamentais no Ensino Médio para o desenvolvimento da valorização do bem comum e da coletividade, assim importante para a emancipação social dos jovens e, consequentemente, do país.

Os conhecimentos sociológicos transmitidos aos alunos são fundamentais em um contexto de fake news. Já no ano de 1954 Florestan Fernandes apontava sua importância, destacando que a Sociologia proporciona aos estudantes “instrumentos de análise objetiva da realidade social”, dotando-os de “um conjunto de noções básicas e operativas capazes de dar ao aluno uma visão não estática nem dramática da vida social […] estimulando o espírito crítico e a vigilância intelectual que são social e psicologicamente úteis, desejáveis e recomendáveis numa era que não é mais de mudança apenas, mas de crise, crise profunda e estrutural”.

A presença da Sociologia no Ensino Médio dá-se também pelo seu papel de despertar o interesse dos futuros universitários para as Ciências Sociais, seja em se tornar cientistas sociais ou para que se atentem para a importância dessa grande área para as demais presentes no Ensino Superior e sua futura profissão. São imensuráveis as contribuições da Sociologia para a solução de diversos problemas sociais, demográficos, econômicos, culturais etc.

A maior parte das Secretarias Estaduais de Educação está, nesse momento, reformulando o currículo do Ensino Médio. Discute-se quais disciplinas serão ofertadas e quais suas respectivas carga-horárias. Estranhamente ao discurso em voga de ampliação do acesso ao conhecimento e da carga-horária desse nível de ensino, há agentes políticos que, por desconhecimento de causa ou má fé, defendem a redução de carga-horária da Sociologia. Sua importância é racionalmente inconteste. Quanto a carga-horária, afirmamos que a Sociologia deve estar presente nos três anos do Ensino Médio. Sua presença em uma (1) ou duas (2) séries do Ensino Médio seria a materialização de uma concepção de educação depositária, aquela que ignora a educação como processo. A aprendizagem dá-se como processo diretamente imbricado ao desenvolvimento psicossocial dos alunos. Nos é claro que o ensino de Sociologia deve acompanhar as experimentações sociais dos estudantes, auxiliando em suas descobertas e estar no mundo. Por isso, e por diversos outros motivos, deve estar presente em todo o Ensino Médio.

A presença da disciplina Sociologia no Ensino Médio importa aos que desejam uma formação de cidadãos capazes de “ler” o mundo a sua volta, de se valorizarem e se reconhecerem, de respeitar os diferentes, ter apreço pelas causas coletivas e comuns, capazes de atuar sobre seu espaço social e contribuir para o futuro do país a partir de seu lugar.

Cristiano das Neves Bodart é vice-presidente da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS). Professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).

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13 comentários

  1. Creio que a maioria aqui não teve Sociologia no secundário. Tempos atrás nem se pensava nessa possibilidade. E isso não impediu ninguém de tentar entender o mundo, qual é o seu lugar nele e para que servem os juros. Muito menos impediria hoje, quando qualquer garoto tem acesso a todo tipo de ideia sobre esses e outros assuntos na Internet.

    Além disso, nesses tempos polarizados, quem vai dar a aula de Sociologia? O professor filiado ao PT? O que segue o currículo inspirado pelo Olavo de Carvalho? O sujeito sempre será acusado de defender um lado. E geralmente defende mesmo.

    Vamos focar naquilo que é básico e em que estamos cada vez pior. Me parece muito mais importante saber Matemática e Português do que pretender explicar o mundo e acabar escrevendo “apreço” com “ss”.

      • Degas, uma das discussões que nós professores trabalhamos com os estudantes é justamente a distinção entre o senso comum (esse que você experimenta cotidianamente) e o conhecimento sociológico (que requer um mergulho na realidade social e busca de forma científica – por meio de métodos – explicá-lo). É notório, principalmente nos dias atuais a crescente desvalorização de explicações sérias da realidade social por meio do achismo, de exemplificações generalizantes e muitas vezes irracionais. Muitos acreditam que entendem de determinadas temáticas e para explicá-las basta suas experiências particulares ou mais próximas. Isso gera atraso, intolerância, violência e demais formas de manifestação da ignorância. Não que esse conhecimento adquirido no dia-a-dia não tenha importância, pelo contrário, é muito rico para nós sociólogos, como fonte de análise e entendimento do mundo.
        Sobre a outra questão, seguimos alguns documentos de referência, bem como normas internas da escola, assim como todas as outras disciplinas. Anualmente, construímos um Plano de Ensino Anual que teve ser fundamentado a partir do Currículo Básico Comum e temos como referência o Plano Nacional de Educação (PNE). Cada estado divulga anualmente uma Resolução procedimentos que devem ser seguidos. Em relação ao posicionamento político – tema também que muito interessa a Sociologia – todos nos posicionamos, temos pensamento, liberdade de expressão e, no caso de nós, professores, liberdade de cátedra. Isso não significa que buscamos doutrinar ou melhor, obrigar que os estudantes pensem como nós, ao contrário, a Sociologia, possibilita ao estudante construir senso crítico a ponto de confrontar ideias que estão postas, inclusive dentro do sistema no qual está inserido.
        Em tempos sombrios, básico mesmo é ser humano, entender a diversidade, respeitá-la, ser crítico, refletir sobre o seu papel e lugar no mundo e repudiar qualquer tipo de violência.

    • O principal problema, sobretudo de quem nao tem nenhuma familiaridade com a matéria, é achar que Sociologia é sinônimo de “socialismo”…

      Não. Sociologia tem o status de Ciência. E não é nem mais tao nova assim. Sao bem uns 150 anos de saber acumulado, desde os precursores até sua institucionalização atual. Muita pesquisa seria, metódica, sistemática é realizada. Não é uma questão de mera “opiniao”, embora haja linhagens distintas como, aliás, ocorre nos diversos ramos do pensamento científico.

      O que não querem é ouvir falar de desigualdade, das suas causas e das suas consequências: é isso que chamam de “petista”; querem oculta-las, considera-las “naturais”; ou, até mesmo, com base sabe-se lá em quê, fazer juizo de valor positivo sobre.

      Até pra isso é preciso estudar. No fundo o que existe é uma aversão ao pensamento. Não aceitam que a evolução do conhecimento se dá por meio da critica e da contracritica. É o que acontece com o marxismo (UMA, apenas uma das linhagens de pensamento social): ninguém estuda, ninguém lê, e desata a falar todo tipo de bobagem ginasiana sobre a obra do autor.

  2. Degas, seu caso é sintomático de como a Sociologia faz falta na educação de uma pessoa. Grato por se colocar aqui como exemplo concreto das consequências da ausência da Sociologia nas escolas.

  3. Fascistas e neoliberais têm em comum um tremendo déficit de formação humanística; pifia mesmo; no máximo para citações desconexas. Por isso são CONTRA; sequer reconhecem na Sociologia o status de Ciência. Pra eles, biblia e coaching substituiria Sociologia, Historia e Filosofia no ensino médio.

  4. Se me permite: há uma carência brutal de professores de ensino médio em todas as disciplinas ( fácil acesso via publicação do mec – estou com preguiça de por o link). Está se criando mais duas, esqueceu filosofia, que serão ministradas between legs. Por no papel é fácil, arrume os professores. Diga como.

  5. Um exemplo da influência da sociologia na economia , política e religião como formadores de padrões éticos e sociais . É a obra de Webber A ética protestante e o “espírito” do capitalismo que teve como base a reforma encabeçada por Lutero e os outros notáveis reformadores como Calvino que tiveram notáveis participações na formação educacional e sobretudo econômica na Europa pós reforma protestante.

  6. Parabéns pelo rico texto, professor Cristiano Bodart. Ele veio reforçar verdades e realidades dentro do nosso atual contexto político, social e educacional.

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