Por que o Brasil chegou até aqui? Qual poder controla?, por Roberto Bueno

Sucessivas administrações norte-americanas veem a América do Sul pela lente do dos interesses das grandes corporações e, portanto, como um mero território no qual garantir a operação colonizadora

Por que o Brasil chegou até aqui? Qual poder controla?

por Roberto Bueno

A América Latina vive sob a espada de Dâmocles e sobre o fio da tão gélida quanto afiada navalha imposta pelos EUA, desafiantes condições nas quais persevera à procura de seus caminhos, enfrentando repetidamente estes cortantes instrumentos cujo acionamento se materializa nas intervenções imperiais em momentos de ruptura aberta nas vísceras da América Latina. Há concretização da ameaça com o suscitar de quaisquer nacionalismos, pretensões de soberania e concepções políticas orientadas ao desenvolvimento social e econômico dos povos latino-americanos, o que consumiria as riquezas que o império poderia amealhar a qualquer título, sob qualquer espécie de pretexto, estratagema, ardil, chantagem, violência, expressa ou implícita, ou manipulações as quais podem ser submetidas às lideranças políticas de cada um dos países da região a ponto de promover reversões radicais de biografias congruentes.

A situação de controle imposta à América Latina é bem documentada, e periodicamente torna-se ainda melhor conhecida através do acesso aos documentos desclassificados por parte da administração dos EUA, quando resta evidente o seu desprezo aos princípios democráticos que recheiam a sua retórica política e através dos quais visam obter legitimação internacional. Os documentos comprovam o desrespeito a qualquer limite fronteiriço geográfico quando os interesses econômicos do império estão em questão, que embora sofrendo variações e oscilações históricas, não deixam de existir na América do Sul. Tal política externa aplicada à América Latina deixa transparecer que o conceito de soberania aplicável aos Estados foi sendo tornado alvo direto de ataque pelo império. Dentre as múltiplas consequências, no campo geopolítico os EUA substituíram o conceito de “soberania” pelo de “Ocidente”, transmutando a titularidade de seu controle da multiplicidade de Estados para a unidade imperial. A defesa do “Ocidente” agora deveria ser empreendida conjuntamente pela metrópole e pelas colônias, para além de quaisquer veleidades nacionalistas. Deveriam reunir-se ao redor do conceito de “valores da cultura ocidental” reputando como cerne comum, embora artificial, habilitado para reunir em ação conjunta países com interesses flagrantemente antagônicos, quando não inconciliáveis, mas que sob a potência imperial devem atuar como se constituíssem um espaço de vida comunitário e com interesses afins.

Sucessivas administrações norte-americanas veem a América do Sul pela lente do dos interesses das grandes corporações e, portanto, como um mero território no qual garantir a operação colonizadora, um hemisfério fechado em um mundo aberto. Tão intensa como esta formulação da administração Harry S. Truman (1945-1953), também a interpretação sobre o Caribe, reputado nada mais do que um mar interior do império, e não apenas por objetivos de segurança militar, mas visando hermético fecho ideológico, objetivo a ser alcançado através de programas de colaboração na área cultural (bolsas e financiamentos diversos) assim como o adestramento ideológico dos militares em cursos oferecidos nas escolas militares dos EUA. As formas de controle às quais está exposta a América Latina ultrapassa de longe a mera vigilância defensiva, pois está em causa é um “pentagonismo agressivo” aliado aos propósitos de Wall Street e as profundezas da geopolítica traçada por Washington e avançada pela inteligência em Langley.

Não há qualquer possibilidade de compreender a situação vivida pelo Brasil desde o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff senão pela prévia e exaustiva compreensão do papel dos EUA na América Latina. Compreender a situação brasileira configurada a partir da efêmera administração Temer e as condições que envolveram o processo eleitoral em 2018 implica analisar o histórico papel de interferência dos EUA na América Latina, que hoje continua sob outras formas, algo mais sutis do que o modelo anterior militarizado e operativo à céu aberto, mas de não menos nefastas e tétricas consequências para as condições de vida do povo latino-americano. Em tempos pretéritos, os EUA reiteradamente patrocinaram e apoiaram movimentos golpistas na América Latina, e não apenas nela como também na América Central e Caribe, e são exemplos históricos disto as ações na República Dominicana (1956), a falida invasão da Baía dos Porcos em Cuba (1961), no Peru (1962), na Guatemala (1963), no Equador (1963), na República Dominicana (1963), em Honduras (1963), no Brasil (1964), na Bolívia (1964), na Argentina (1966), no Uruguai (1973) e no Chile (1973). Em todos os casos os interesses norte-americanos coadunaram com a proteção dos interesses econômicos das oligarquias locais em detrimento do desenvolvimento socioeconômico em prol do povo.

Os novos modelos de intervenção imperial na América Latina passaram pela criação de potentíssimos bancos de dados digitais cuja alta sofisticação é capaz de cruzar os dados de todas as autoridades – e atores políticos em geral – daqueles determinados Estados e objetivos que lhes interesse manipular. Estes equipamentos são utilizados tanto para atingir objetivos civis quanto pelos militares, econômicos e geopolíticos, eventualmente articulados, para potencializar os fins do complexo industrial-financista do império. Estes potentes instrumentos são capazes de escrutinar os mínimos detalhes não apenas de vidas individualmente consideradas, mas também de, cruzando dados, estabelecer conexões entre indivíduos, entre eles e coletivos, de suas inserções em grupos políticos e empresas, assim como rastrear a estas últimas, e também os seus negócios e projetos estratégicos. Este é instrumento que viabiliza a manipulação e condicionamento das decisões da cúpula do Estado assim como exercer efetivo controle sobre os altos organismos do Estado, à despeito da congruência da biografia dos atores e dos interesses dos Estados e dos objetivos mais prementes de suas populações. A assimetria de poderes é tamanha que confere tal poder a uma das partes que lhe permite agir com a selvageria típica do estado de natureza.

No limite, os Estados são operados por controle remoto desde as profundezas da burocracia armada do império. A operação à distância transforma os governos latino-americanos em meros títeres bem adestrados de Washington, permanecendo tantas decisões incompreensíveis aos olhos da média da opinião pública precisamente pela real dissensão de propósitos entre os interesses que foi constituída para defender e aqueles que efetivamente deve perseguir. Este vão pode ser perigoso se não for preenchido pela suavização e amortecimento, papel que a mídia desempenha adequadamente. Em seu apoio concorrem as forças militares para casos críticos.

As Forças Armadas (FA) são transformadas em meras guardas pretorianas para cumprimento da função protetiva dos interesses do império quando sobrevenham ameaças políticas. Malgrado a eficiência dos recursos disponíveis para a alta eficiência de controle dos meios ideológicos, políticos, culturais e eleitorais, surpresas podem advir em meio às disputas, sendo inconveniente para o império, por ora, simplesmente eliminar os processos eleitorais absolutamente viciados das democracias latino-americanas que a mídia corporativa transforma em elemento formalizador de legitimidade, cumprindo a função de amortecedor das evidentes disfuncionalidades das democracias no hemisfério que comprometem a sua própria essência. Mas, quando após todas as manipulações, ainda assim os processos eleitorais redundem em surpresas, o império dispõe de estratégias, resumíveis em diferentes camadas de intervenção: desestabilização social, política, econômica e, por fim, a derrocada do regime. Usualmente a insatisfação do império encarna regimes cujas lideranças políticas adotem os interesses populares como objeto políticas nacional-desenvolvimentistas como instrumento.

Os processos de derrocada de regimes não poderiam ser concretizados sem a prévia operação sobre os alicerces últimos do regime, o aparato militar. Como argumentamos ao início, o oficialato das FA latino-americanas já foi cooptado e o bloqueio de segmentos resistentes é perceptível, dada a homogeneidade da cúpula. As FA operam no plano prático como guarda pretoriana da associação da oligarquia interna e transnacional, e dedica-se a tranquilo e bem remunerado período de hibernação enquanto a esfera da política cumpre o seu cometido de preservar os interesses nucleares do império. As FA permanecem incólumes durante períodos de transitório revés eleitoral sempre e quando a nervura do sistema financeiro não seja atingida nem tampouco os interesses das grandes corporações transnacionais. As FA seguem à sombra, discretas, divulgando o mito de que são apolíticas, profissionais, “não partidárias”, disseminando eficientemente a sua suposta independência de opções ideológicas ou político-partidárias através dos aparelhos ideológico-culturais quando, inversamente, em sua essência, estão decididamente vinculadas à interdição das políticas populares, no aguardo de oportuno acionamento por controle remoto pela burocracia armada do império para deflagrar o processo de ruptura democrática.

A imparcialidade inexiste nas FA assim como em outras instituições do Estado que se jactam de tomar decisões segundo este paradigma, quando nada mais fazem do que valer-se do espesso véu do suposto descompromisso ideológico para potencializar as suas opções elitistas contra as maiorias e a sua ideologia que reiteradamente deu suporte nas urnas do Brasil a governos nacionalistas e soberano-desenvolvimentistas. Estas versões ideológicas serão destituídas do poder segundo graus variados de intervenção, desde desestabilizações e sabotagens à violência aberta sob o falsificado fim da promoção da Pax Latina.

O Brasil está preso em uma armadilha histórica, realidade a qual chegou parcialmente devido a que seus atores políticos foram testemunhando com avançado grau de passividade o solapamento de sua soberania enquanto esta era transferida para esfera de controle cujos interesses são francamente contraditórios aos do país e de sua gente. O combate pela retomada da soberania passa por prévia identificação do espaço onde o controle do poder é efetivamente exercido, pois atacado o falso espaço de poder nada mais haverá do que uma alteração formal de objetos de manipulação. Cometem equívoco aqueles que hoje creem que o poder reside majoritariamente na errática figura do ocupante da Presidência, desprezando que o real poder já foi deslocado deste espaço esvaziado de tessitura e densidade. O núcleo do poder ao qual é preciso combater está situado muito além do que os olhos públicos têm alcançado. Na superfície do poder acessível ao olhar público transitam apenas os títeres do real soberano, figura que busca adequada proteção nos subterrâneos, espaço desde o qual opera habilmente a nervura socioeconômica devidamente resguardado pelo poder das armas. Este, e não outro, é o alvo a superar para que o Brasil possa vencer a armadilha em que está aprisionado.

 Roberto Bueno. Professor universitário.

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