Quando os olhos coçam: a pandemia, o riso e o idoso, por Natalia Negretti

É muito bom que a compaixão sobre o envelhecimento exista. Pena que essa preocupação ocorra só quando com os “seus” velhos. 

Quando os olhos coçam: a pandemia, o riso e o idoso

por Natalia Negretti

O maior inimigo do riso é a emoção. Isso não significa negar, por exemplo, que não se possa rir de alguém que nos inspire piedade, ou mesmo afeição: apenas, no caso, será preciso esquecer por alguns instantes essa afeição, ou emudecer essa piedade.

(Henri Bergson)

É muito bom que haja opiniões, curiosidades e sentimentos frente ao envelhecimento. Pena que não sobre ele.

É muito bom que a compaixão sobre o envelhecimento exista. Pena que essa preocupação ocorra só quando com os “seus” velhos.

É muito bom que a Organização Mundial da Saúde, que há muito fala sobre envelhecimento, comece a ser conhecida para alguns e reconhecida por outros. Pena que neste contexto.

É muito bom que o debate sobre as aposentadorias retorne neste período. Pena que apenas quando falamos dos futuros aposentados e de trabalhadores informais, – um segmento bem antigo no país e que as trajetórias sociais de muitas pessoas com mais de sessenta anos podem explicar tim tim por tim tim.

É muito bom que haja vídeos sobre saídas dos idosos. Pena que sejam editados como fonte de inspiração para riso e não como uma mirada a possíveis desesperos e clamores por autonomia.

É muito bom que haja textos sobre como lidar com idosos, pena que com aproximações do aditivo “teimosia”.

Entre “muito bom” e “pena que”, conforme Guita Debert informou, o velho ainda é sempre o outro.

Sobre o riso, o filósofo francês Henri Bergson escreveu, na aurora do século XX, que o cômico se dá a partir de uma relação entre “insociabilidade do personagem” e “insensibilidade do espectador”. Essas duas condições essenciais estão presentes nas edições de vídeos que mostram pessoas idosas em suas tentativas de sair do isolamento.

O conteúdo dos vídeos, quando de tal desdém, atribui o envelhecimento à pecha de ridículo – afirmando uma falta de importância: a da autonomia dessas pessoas, como se não houvesse motivo para quererem tanto ganhar as ruas; como se não precisassem do espaço público. Mais do que isso, deveríamos perguntar por que não consideramos a possibilidade de que estas pessoas têm coisas a fazer tão importantes ou tão desejadas por todas e todos que tiveram suas rotinas alteradas? Como seria a performance de memes e audiovisuais cômicos sobre outros grupos, sobre pessoas não chamadas de “vovó” e “vovô”, nessa situação, tentando quebrar uma norma de isolamento? Por que esse comportamento é motivo de graça?

Doris, interpretada por Regiane Alves em Mulheres Apaixonadas (2003), tem sido lembrada em rede também. A personagem, naquela novela, trazia a oposição entre convivência e harmonia entre netos e avós e entre gerações. Recordemo-nos então de um conjunto de relações e, assim, dos avós de Doris: Flora (Carmem Silva) e Leopoldo (Oswaldo Louzada), o casal de idosos cuja situação de distintas formas de violência se popularizou em visibilidade no mesmo ano da promulgação do Estatuto do Idoso no Brasil. É forçoso ainda que recordemos falas e episódios de riso com atrizes e atores longe dos palcos das novelas. Para além das personagens, cito Betty Faria, que há quase dez anos respondia a comentários esdrúxulos sobre as fotografias divulgadas enquanto a mesma saía do mar. Os episódios de riso desse conteúdo têm semelhança com os episódios entre isolamento social e envelhecimento naquilo que exatamente estimula ou relembra, entre outros, o lugar de atitudes, corpos e desejos considerados velhos.

Se problemas sobre família, autonomia, tutela, imagem e fobia estão mais intensamente em rede neste período, tenhamos também uma informação verdadeira: tais problemas não são novos; em outras palavras, aos idosos desses tempos não são temas estranhos. Por que menos perguntas e mais risada? Por que não há dúvidas sobre essas pessoas que tentam sair do isolamento, já que a dúvida é uma das velhices mais valorizadas que a humanidade preza em distintas temporalidades?

Se todos estes conteúdos nos chegam em massa pelo whatsapp agora, seria interessante pensá-los também como produções de episódios de riso e, para além de produtores de modelos e estereótipos frente ao envelhecimento, refletores de feixes visíveis. Nessa pandemia, há luzes, manuseadas, que apontam construção de velhices risíveis. E é aqui também um dos pontos que podemos nos indagar sobre esses lugares temáticos em nossos sentimentos.

Onde moram as velhices em nossas emoções? E os risos? Quando e como convivem juntos? Em tempos de temer coçar o olho, é prudente lembrarmos também que passar os dedos nos olhos como hábito de secá-los em momentos de choro se relaciona a um certo evitar. Evitar queda d´água. Entretanto, rir demais, nas reações dos nossos olhos, também pode gerar lágrima.

Talvez a alternativa seja o tipo de riso sugerido por Pirandello, que acaba por culminar num sorriso de identificação, quando percebemos que, ao rir do outro, rimos de nós mesmos; no caso do envelhecimento, sermos alvo do riso da juventude é apenas uma questão de tempo. Para isso, no entanto, é preciso abandonar o sentimento de superioridade e ruptura de expectativa com o comportamento de outrem; como aponta o dramaturgo, o devir do riso pode transformar-se em “sentimento do contrário”; quem ri chega à conclusão de que poderia estar no lugar do outro e, deste modo, o riso se mistura a compreensões e se transforma num sorriso.

Se o sorrir se aproxima mais de sensibilidade e se afasta de dicotomias, certamente é com ele que podemos visualizar também a importância de uma estratégia de convencimento sobre a necessidade de não encontrar pessoas, de não se encontrar com os afazeres temporariamente interrompidos. Importância e responsabilidade cuja ação é felizmente multietária porque todas as idades têm o que fazer e com o que sorrir.

É muito bom que trabalhemos então nosso foco nas vontades e necessidades de pessoas idosas. Pena que seja num momento de permanecermos isolados.

Natalia Negretti é antropóloga, doutoranda em Ciências Sociais pela Unicamp, com estágio doutoral na Universidade de Buenos Aires, e especialista em gerontologia. Área de pesquisa: antropologia, envelhecimento, estudos de gênero.

 

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4 comentários

  1. O cruel desprezo com que se trata o idoso reflete os valores que o neoliberalismo impôs à sociedade, a supervalorização da juventude é uma ação de mercado… então quando a pessoa idosa escolhe, ou não pode, artificialmente rejuvenescer utilizando procedimentos, serviços ou produtos, ele perde sua importância econômica para o mercado…

  2. O artigo traz uma importante e necessária reflexão. Vamos pensar e discutir com responsabilidade e respeito pelo “outro”, que muito em breve será o “nós”.

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