Renuncie, senhor Bolsonaro, por Lucia Helena Issa

Renuncie, senhor Bolsonaro, para que depois do luto, possamos testemunhar, como aconteceu na linda Itália depois da Peste Negra medieval, o Renascimento.

Renuncie, senhor Bolsonaro

por Lucia Helena Issa

Amanhece no Rio de Janeiro e o sol, alheio às mortes e a toda a dor humana que invade nossos corações, volta a brilhar, quase como uma metáfora nos céus da cidade que me adotou há alguns anos, depois que que voltei da Itália.

Penso nos mais de 50 mil infectados e nos mais de sete mil mortos da linda Itália em cujo solo eu vivi e fui imensamente feliz por seis anos.

Penso na dor vivida pela Cidade Eterna, para onde eu embarcaria hoje, por amor ao engenheiro Luigi il Grande, e pela literatura, se uma pandemia assustadora não tivesse despedaçado os nossos sonhos.

Penso hoje no seu último discurso, senhor Bolsonaro, e penso na distopia que estamos vivenciando.

Decidi escrever-lhe, como sempre faço em momentos de extrema alegria ou de extrema dor, pois percebo que a única pessoa a quem eu gostaria de pedir algo hoje é o senhor.

Escrevo- lhe para pedir-lhe, com toda a humildade e serenidade, que renuncie, senhor Bolsonaro.

Em nome do Deus em que nós cremos, em nome de nossos filhos, de nossas mães e avós, renuncie, senhor Bolsonaro.

A sua renúncia seria um ato de imensa nobreza nesse momento, senhor Bolsonaro.

Pelas milhares de vidas humanas que ainda podemos salvar, pela aurora que sempre renasce depois das mais longas noites e das mais longas pestes, renuncie, senhor Bolsonaro.

O Brasil se tornou refém de dois vírus mortais.

Leia também:  Políticas sociais: os respiradores do capitalismo, por Albertino Ribeiro

Desde as eleições ou mesmo antes delas, o Brasil tornou-se refém de um ódio medieval e de um sectarismo sem precedentes, um terreno fértil para os conflitos que eu testemunhei pessoalmente na Síria e em Israel, onde vigora um extremismo religioso que já matou milhares de crianças e jovens palestinos.

Temos sido reféns de um outro vírus letal, além do novo coronavírus, o vírus da ignorância e do ódio aos pesquisadores científicos, o ódio às universidades, o ódio ao conhecimento humano, ao legado de gigantes como Galileu e Isaac Newton, um ódio insano alimentado diariamente pelo guru da morte, Olavo de Carvalho, e por tantas pessoas que hoje não mais reconheço.

Renuncie, senhor Bolsonaro, pelo amor que temos aos nossos filhos, já que somente essa atitude poderia reconstruir algumas pontes e derrubar os muros do ódio.

Renuncie, senhor Bolsonaro, para que possamos redescobrir a resiliência e a identidade que nos une como brasileiros, para que paremos de retroalimentar o ódio que nos dilacera e diminui a nossa imunidade.

Renuncie, senhor Bolsonaro, para que, depois do luto coletivo que nos caberá viver, a aurora de um novo dia possa finalmente chegar.

Renuncie, senhor Bolsonaro, para que possamos vislumbrar essa aurora que renascerá, eu tenho certeza, depois de uma das mais longas noites atravessadas pela humanidade.

Renuncie, senhor Bolsonaro, para que depois do luto, possamos testemunhar, como aconteceu na linda Itália depois da Peste Negra medieval, o Renascimento.

O Renascimento que um dia nos deu Michelangelo e sua Pietá, nos deu a genialidade de Leonardo da Vinci, as descobertas de Galileu, as cores de Rafael e de Boticelli, a poesia de Dante, a Capela Sistina, a Catedral de San Lorenzo em Gênova e o Duomo de Santa Maria del Fiore, em Florença, que me fez chorar na primeira vez em que o vi.

Renuncie, senhor Bolsonaro, para que, depois dessa longa noite de inverno que nos toca viver, possamos todos ver a primavera que vive dentro de nós e que renascerá no Brasil.

Leia também:  Aldir Blanc (a Lei) e o levante da Cultura contra o Messias que nega direitos, por Railídia Carvalho

Lucia Helena Issa é jornalista, escritora e embaixadora da paz por uma organização internacional. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Roma. Autora do livro “Quando amanhece na Sicília”. Pós-graduada em Linguagem, Simbologia e Semiótica pela Universidade de Roma. Atualmente, vive entre o Rio de Janeiro e o Oriente Médio e está terminando um livro sobre mulheres palestinas que lutam pela paz.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. Não vai renunciar. Justo agora que ele vai injetar uma grana no sistema bancário?
    Ele é doido, mas não é bobo. Há, sim, uma grita contra o fechamento de empresas e que pequenos vão quebrar.
    Esse comportamento é o complementar-congruente de Bolsonaro, ou vc para e quebra ou vc continua e fica doente, podendo morrer. Só que ele está confortável, o pequeno não.
    Mas o pequeno só olha pro seu negócio, não vai além, normalmente é bolsonarista.
    O que economistas responsáveis estão fazendo? Propondo que se injete uma grana na mão das pessoas, olhando o que outros governos já estão fazendo (por aqui, teria que isentar pagamento de conta de água e luz, ou pagar a partir de um certo consumo mínimo apenas a diferença ou o que ultrapassou do consumo mínimo, ou parcelar o pagamento por 24 meses, por exemplo), dentre outras medidas.

  2. Não vejo porque pedir que o Bozo renuncie. Ele já não governa mais. No governo, só está cumprindo com o seu papel de sempre: palhaço dos outros que estão governando em seu lugar. No caso dos golpistas no poder: Forças Armadas, Congresso, Justiça, Procuradorias, estas que, no momento, não estão se metendo, estão se fingindo de mortos, já que especialidade de todos é o Presidente Lula, Dilma Rousseff e o PT e petistas. Até o fascistoide Sérgio Moro que pousava de juiz, mas na realidade era da acusação, hoje no ministério do Bozo, não quer se meter, sem querer entrar em bolas divididas (acha que ainda é candidato) e a mídia liderada pela Globo aplainando os caminhos. O general Hamilton Mourão parece tão chato, não tem graça nenhuma, e vai tirar onda de que esteja mandando, e não estará: acima o deep state golpista, para o qual o mundo está desmoronando, e não sabe o que fazer. Melhor que deixemos que não se entendam, no saco de gatos que é a extrema-direita e a direita no poder. Com o Bozo ou o general, às oposições sobrará pressionar para que os neoliberais sejam obrigados a investir nas atividades de Estado, e adotarem medidas anticíclicas que é o que menos querem fazer para prover renda aos mais pobres e à quem esteja obrigado a não trabalhar, tendo em conta a quarentena, que estão evitando querem fazer; dar cobertura aos empresários como um todo e aos Estados e Municípios na perda de receita com impostos e necessidade de manter serviços essenciais para atender principalmente a parte da população obrigada a trabalhar (médicos, transportes coletivos, doméstica etc), tudo assumido pela obrigatoriedade de contribuir para combater o coronavírus. Bozo e sua turma referem fazer conta de defuntos, concluindo aprioristicamente que, com a economia parada, que acontecerá se nada fizerem, teremos muito mais mortos, e acontecerá o caos. A proposta desses que resistem, mesmo aos golpistas, liderados pelo Bozo, e se opõem às diretrizes do próprio golpe, estão baseados nas contas macabras e erradas de Paulo Guedes, é craque nesse quesito errar, não nos diz respeito. A solução todos sabemos: passa pelo abandono da política neoliberal, reformulação da legislação trabalhista etc., dentro do marco constitucional a que devemos obedecer, tão desrespeitado por essa gente do golpe que vem desgovernando o Brasil e infelicitando os brasileiros. O problema não é bem Bolsonaro, muito menos o general Hamilton Mourão resolverá. O buraco é mais em cima, nas gônadas onde tudo foi e é gerado.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome