Ressentimentos familiares no Brasil ditatorial, em HQ de André Diniz, por Rogério Faria

A arte em preto e branco de André traz um estilo único, que vem sendo desenvolvido pelo autor no decorrer dos anos.

Ressentimentos familiares no Brasil ditatorial, em HQ de André Diniz

por Rogério Faria

Entre cegos e invisíveis, da editora Café Espacial, é ambientada em 1971, auge da ditadura militar no Brasil. Na HQ, o quadrinista André Diniz conta a história dos irmão Jonas e Leona, os quais estão voltando em viagem do enterro do pai coronel, um herói militar que, por ter outra família, a oficial, nunca os reconheceu publicamente. Os dois, juntamente com a esposa de Jonas, dão carona a um estrangeiro que se comunica em idioma que desconhecem.

Com os quatro obrigados a compartilhar essa viagem juntos, o trajeto vai trazer à tona em seu percurso os seus ressentimentos, passando por revelações, mágoas, abandonos, dores e rancores. E essa ainda é a noite do raro fenômeno da superlua, o qual só se repetirá 47 anos depois.

A arte em preto e branco de André traz um estilo único, que vem sendo desenvolvido pelo autor no decorrer dos anos. É incrível como o traço, que remete à xilogravura (arte em madeira), consegue ser expressivo, transmitindo as emoções dos personagens e a tensão requerida por cada cena. Seus trabalhos em que, além de roteirista, ele responde como ilustrador, são facilmente identificáveis. São dele obras aclamadas como Morro da Favela (2011), Matei meu pai e foi estranho (2017), e a adaptação O Idiota, de Fiódor Dostoiévski (2018).

Já o roteiro, é rico em construir tipos humanos complexos e nos brindar com diálogos que soam com naturalidade numa trama carregada de dramaticidade. André, acumulando diversos prêmios como Troféu HQ MIX e Angelo Agostini, mais uma vez, demonstra dominar a técnica como um passeio, nos jogando em uma jornada intimista, que transita por alguns fantasmas da ditadura de 64.

A história de Entre cegos e invisíveis é narrada, além de tudo, como uma viagem subjetiva. Embarcar nela, tentar desvendá-la, é pegar uma carona pela própria mente dos personagens, em que ponto de partida e destino, são o que menos importam.

O livro é uma publicação de 2019, tem 128 páginas em preto e branco e pode ser adquirido no site da editora Café Espacial.

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