Sebastianismo: D. Sebastião lá e cá – II, por Walnice Nogueira Galvão

Sebastianismo: D. Sebastião lá e cá – II, por Walnice Nogueira Galvão

Como ninguém ignora, o Rio de Janeiro, durante séculos capital do Brasil e até hoje seu cartão postal, é uma cidade dedicada a D. Sebastião, seu padroeiro. Foi fundada como: A mui leal e valerosa  cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, no dia do aniversário daquele que era então o rei de Portugal (20 de janeiro de 1565). Ele próprio assim se chamava porque nasceu no dia de S. Sebastião (20 de janeiro de 1554), e por isso o papa lhe enviara de presente uma das flechas que tinham traspassado o santo em seu martírio. Como, na realidade, a cidade foi fundada no dia 1º de março de 1565, até hoje disputa-se qual a verdadeira data do aniversário – mas a homenagem se perpetuou.

Todavia, D. Sebastião não permaneceu apenas em seu país de origem. Antes, dotado do dom da ubiquidade, como qualquer mito que se preze, tratou de atravessar o Atlântico.

Entre as mais famosas, e até famigeradas, manifestações sebastianistas em nosso país, destaca-se o episódio de Pedra Bonita, que ficou conhecido pelo nome da localidade onde ocorreu. O tétrico episódio incluiu sacrifício humano e massacres.

Tempos depois, haveria a Guerra de Canudos. Nesse lance, ocorrido em 1896-1897, o exército assediou e destruiu o arraial de Canudos, onde se concentrava uma população pobre que, sob a liderança de Antonio Conselheiro, passava o tempo em rezas e penitências para salvar a alma. A resistência heróica dos canudenses, vista de perto pelos militares, suscitou muitos livros, dentre os quais se destaca Os sertões, de Euclides da Cunha, seu “livro vingador” (como ele mesmo o chamou), escrito com o fito de celebrar a valentia e a fé dos sertanejos, e que erigiu em sua memória um monumento perene.

O movimento era messiânico e milenarista, mas só impropriamente pode ser chamado de sebastianista. Todavia, foram encontrados nos escombros do arraial pelo menos duas quadrinhas e uma profecia falando em D. Sebastião, o que mostra como essa figura praticamente está pronta para ser utilizada, se for o caso. 

A maior das rebeliões sebastianistas, e esta sim francamente sebastianista, foi a Guerra do Contestado, que conflagrou  parte dos estados de Paraná e Santa Catarina, de 1914 a 1916. Era assim chamada porque uma faixa de terras ao longo das divisas entre os dois estados era considerada território contestado. Os rebeldes eram posseiros sem título de propriedade expulsos de  suas terras pela construção de uma estrada-de-ferro inglesa, a Brazil Railway, que juntamente com a concessão obteve a propriedade das terras que se situassem por 15 km a cada margem dos trilhos, indiferente a quem já as ocupasse. O levante durou vários anos, envolveu um número enorme de pessoas e cobriu um vasto território.

A Guerra Santa, como era chamada pelos crentes, criou uma “Monarquia Celeste”, onde o rei, ao mesmo tempo o líder e D. Sebastião /S. Sebastião,  era acolitado por uma guarda de honra de 24 cavaleiros, chamados “Os Pares de França”, por influência da saga de Carlos Magno. Eram contra a República, a que se referiam como a “Lei do Diabo”. Suas hostes eram conhecidas como o Exército Encantado de S. Sebastião (ou D. Sebastião). Quando obtivessem a vitória, D. Sebastião se desencantaria. Reprimida pelas forças armadas, a rebelião tinha vários redutos, um deles chamado S. Sebastião, para os quais os rebeldes foram se retirando e se fortificando para resistir. Efetuaram muitos saques e invasões de fazendas. Seriam dizimados pela fome e pelas armas, em 1916.

Para que não se diga que D. Sebastião desertou do Brasil, é recente sua intervenção em favor de uma festa popular, de que é testemunha o CD intitulado “D. Sebastião veio salvar o carnaval de Olinda”. Entra ano, sai ano, El-Rei frequenta a maior de todas, o carnaval do Rio de Janeiro, no qual a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, uma das mais tradicionais, já devotou seu enredo a louvá-lo, com “O Rei de França na Ilha da Assombração”. E em Lençóis, no Maranhão, ainda hoje é assíduo no Tambor de Mina, quando aparece encantado num touro negro com estrela de ouro na testa.

 

 

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