Sobre o racismo: cá no Brasil e lá nos EUA ou por acaso não sou uma pessoa?, por Carlos Eduardo Marques

Porque não causa na Globo o mesmo horror o genocídio da população negra jovem brasileira? O etnocídio dos praticantes do Candomblé? Dos quilombolas e dos parentes indígenas?

Sobre o racismo: cá no Brasil e lá nos EUA ou por acaso não sou uma pessoa? Olhem para mim? Olhem para meus braços! 

por Carlos Eduardo Marques

Cecília Oliveira escreveu um belo texto para o The Intercept Brasil, denominado: Comentários racistas na cobertura dos protestos antirracistas na CNN e Globo News. Quase que simultaneamente, a ex-consulesa da França em São Paulo, uma mulher  negra afirmava ao vivo na CNN não ser adequado: 1- que somente pessoas brancas participassem dos debates sobre o racismo e 2 – era inaceitável que um jornalista (W. Waack) demitido por proferir comentários racistas de uma outra emissora comentasse sobre esse tema no referido canal. A partir dessas duas falas de mulheres negras, quero trocar um dedo de prosa sobre o tema. E já adianto, que chegarei no mesmo lugar pessimista de ambas: o racismo no Brasil é mal absoluto que nos mata (nxs os negrxs) de diversas maneiras. A começar pela ausência do direito de fala.

Não vou resumir o texto de Cecília Oliveira, recomendo que leiam dada a alta qualidade. Concordando com ela quero relatar um episódio do racismo a brasileira. No domingo a noite tive a oportunidade de acompanhar o canal GloboNews por umas duas horas de sua cobertura ao vivo dos protestos nos EUA. Primeiro ponto notável é a própria duração da cobertura que depois pesquisando vim a saber foi de mais de 4 horas ao vivo. Isso no mesmo domingo em que a emissora dedicou muito menos espaços aos brasileiros que também ocuparam as ruas em busca de recuperar a democracia. Democracia que aliás no nosso caso precisa se confundir com o próprio lugar do debate racial.

O segundo ponto notável foi a cobertura em si dos eventos. Em uma única manifestação em NY a globo tinha 03 ou 04 repórteres. Fora os repórteres em outras cidades e protestos. Repórteres esses que se espalharam por diversos setores do protesto. Que marcharam por horas e horas com os manifestantes. Capitaneados por apresentadores e comentadores nos estúdios da Globo, no Brasil e em NY. De todos, a presença de duas pessoas negrxs: a apresentadora e um dos convidados especiais, um pesquisador brasileiro de Columbia University. Na hora pensei com meus botões, é mais fácil ter um pesquisador negro brasileiro em Columbia Univ. do que na USP, ou na UFMG e Unicamp que conheço melhor.

Mas voltando a cobertura: repórteres, comentaristas, apresentadores todos irmanados em mostrar dentre outras questões que: 1- os EUA são um país racista. Afirmação dita com todas as letras e em tons condenatórios; 2- o racismo é uma chaga, que produz danos estruturais; 3- a sua existência e permanência coloca em dúvida a própria ideia de Nação (nos EUA); 4 – a violência policial é causa e consequência de um racismo estrutural e histórico, os dilemas da escravidão; 5 – a questão da interseccionalidade entre raça e classe (e uso o termo em homenagem as intelectuais negras dos EUA e do Brasil que tão bem tratam do tema), ou seja, o homicídio de George Floyd denunciava também problemas como os homeless e a gentrification, em bom português: a questão dos sem: sem casa, sem teto, sem emprego e o fenômeno de alteração material e imaterial por parte do capital econômico ou público, ou do consórcio de ambos, de um bairro, região ou similar em que consorcia a expulsão de moradores others (outros) em geral negros, pobres, hispânicos e indesejados e sua substituição por novos equipamentos urbanos, edifícios e comércios e um “estilo de vida” de alto valor e poder aquisitivo. A cobertura ensejava entender o fenômeno por vários aspectos: sociais, econômicos, culturais, históricos, ambientais.

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Lá pelas tantas da cobertura, não por acaso, a apresentadora que era negra exclamou: “Não se trata de não ser racista, é preciso ir além, é preciso ser antirracista”. Pensei na hora, eis nosso grito. Mas falas assim são espasmos ou entre atos, pois o normal é a fala do comentarista branco e homem. Aliás cada canal com o seu comentarista com rusgas raciais. Se na CNN era Waack, na Gnews esse papel coube a D. Magnolli, que foi notório opositor das políticas de ações afirmativas. Mas eis que Demétrio que é um cara – ressalve-se inteligente – manteve o ritmo progressista da cobertura e nos brindou com um comentário em que afirmava a legitimidade das manifestações e seu caráter pacífico, para ele as “badernas” eram frutos de grupelhos radicais que não representavam o ato, ou até mesmo de infiltrados da ultra direita, e chegou mesmo a questionar se a participação policial não era a indutora da violência, usada como forma de desestabilizar a legitimidade do protesto.

Enfim como se vê uma cobertura que não se poderia dizer trivial, descuidada e ligeira. E aí, como pessoa negra, foi me subindo uma indignação, fosse eu dado as belas letras, poderia dizer que tive um tremor seguido de estupefação, mas foi raiva mesmo. Ora, ora, ora se a Globo tem capacidade e competência para uma cobertura assim. Porque não o faz com as nossas dezenas de George Floyd? Porque não causa na Globo o mesmo horror o genocídio da população negra jovem brasileira? O etnocídio dos praticantes do Candomblé? Dos quilombolas e dos parentes indígenas? Me causou dor profunda, perceber que os Josés e as Marias, os Jorges e as Dandaras brasileirxs não merecem de seu principal veículo de mídia o mesmo respeito. A mesma deferência, dignidade, seriedade e homenagem. Triste e revoltante.

Por acaso no Brasil estamos livres: 1- de ser um país racista? 2- de que o racismo é uma chaga que produz danos profundos e irreversíveis? 3 – que esses danos estruturais e ao mesmo tempo conjeturais colocam desde sempre em risco, ou melhor é parte central, do que não nos permite tornar efetivamente uma Nação? 4- Por acaso, por aqui a polícia não atua ao arrepio das regras e normas principalmente contra pessoas tidas, vistas e havidas como sendo negras (genotipicamente e fenotipicamente)? 5- Não se trata da polícia aqui a continuidade, agora de modo legitimada no aparelho do Estado, do odioso racismo estrutural? Aquele que de tão estruturado é capaz de se valer lá no passado, como cá no presente, de violentar tanto o oprimido como o opressor? Não é mero acaso. Não é coincidência que o capitão do mato de ontem e o cabo da esquina de hoje seja um negrx e esteja aniquilando outro negrx; 6- Por acaso no Brasil a questão não é de interseccionalidade entre classe e raça? Não por outro motivo, defendemos políticas diferencialistas e específicas, porque a questão do negro se imiscui com as relações de classe, mas já não faz 50 anos que uma mulher intelectual negra (Carolina de Jesus) nos disse aquilo que um espetacular cientista social branco, mas de origem tão pobre, que quase negro concordou (F. Fernandes) que: mesmo em casos de mobilidade de classe, o racismo persiste; 6- Por acaso não ocorre no Brasil as mesmas questões absurdas de homeless e gentrificações? Não se trata, a ausência de moradias as pessoas negras, de uma questão já secular (o nosso homeless e suas gentrificações se intensificaram no dia 14 de maio de 1888, quando milhões de negros continuaram com o mesmo tratamento recebidos na escravidão mas agora sem ter onde morar), lembremos, que a Lei de Terras de 1850 – com a finalidade de interditar o acesso de pessoas negrxs a propriedade de terras – é reação coetânea as legislações que acabariam de forma lenta, gradual e segura para a elite branca com a escravidão formal mas nunca aquela estruturalizada no modo de construção da nação; 7 -Por fim, no Brasil a Polícia não incita ela própria a violência em protestos justos e pacíficos, de modo a criminalizar a justa luta do povo? São singelas perguntas de quem não entende como tudo isso pode ser visto lá, no EUA, e não cá no Brasil.

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Fiquei pensando tanto cá, no Brasil, quanto lá, nos EUA os negros chegaram na condição de coisa. Mas será que os negros de lá, para as cabeças brancas colonizadas de cá, atingiram o estatuto de humanidade? Será isso? Se for assim. Faz sentido a comoção causada na cobertura jornalística de cá do assassinato de lá. Afinal George é um humano e não pode ser brutalizado, ainda que seus antepassados tivessem sido animalizados. Mas cá, e nem vou citar nomes, porque são aos milhares os negrxs assassinados pelo Estado (sim na casa de milhares anualmente, pelo Estado!!!. Para ser preciso 6.220) a comoção é interditada afinal, aqui os negrxs ainda não atingiram a capacidade de humanos. E quem compreendeu isso bem, em uma sapiência incompreendida por muitos outros foi o atual Presidente da República, quando se referiu a pessoas negras como se fossem reses. Correto estava o presidente, que de tão preciso recebeu inclusive a deferência do STF (para quem o uso do termo arroba quando dirigido a pessoas negrxs quilombolxs não é um ato criminoso racista). A nós negrxs brasileiros rendendo homenagem a uma sister afro-americana, chamada Sajourner Truth cabe a pergunta feita por ela em 1851: “E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços!” Vidas Negras importam aqui também!!!

Carlos Eduardo Marques é Doutor em Antropologia.

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1 comentário

  1. O racismo é um mal crônico brasileiro e mundial, combatido há séculos até hoje.
    Hoje, estamos sofrendo outros males, maiores por serem mais amplos ainda, responsáveis pela fomentação e ampliação do racismo.
    São os males maçônicos oportunistas, estratégicos, premeditados, arquitetados e conduzidos até o presente momento por maçons militares ku-klux-klanianos. Dentre eles, o auto declarado racista que é um ditador de esgôto a céu aberto, o vice presidente da ex-república, o maçom General Mourão, ao declarar que negro é sinônimo de malandragem, justo êle que não bastasse ser um cú, não peida). É essa ditadura em curso desde o golpe de estado de 2016, onde o fascismo e o nazismo tomaram conta dos poderes públicos fomentando o racismo, bem como envenenando com ódios e intolerâncias os racistas de carteirinha, que é responsável maior pela potencialização proposital do racismo.
    Portanto, ao lidarmos com racismo, o importante não é a luta discutindo o assunto e fazendo matérias kilométricas… o importante é dar nomes, denunciar… faça como eu, denuncie como denunciei o filhodumaputa do vice-presidente da repúclica o maçom da casadocaralho racista crônico JENERAL HAMILTON MOURÃO, aquele que não bastasse ser um cú, não peida.

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