Tecnologias digitais e seu senso de imediatismo, por Tereza Cristina Mello de Brito Carvalho

Se de um lado as tecnologias digitais aproximam universos distantes, como o do cliente e do produtor de bens e prestador de serviços, de outro lado cria demandas que nem sempre podem ser atendidas

Foto: Frederic J. Brown/AFP

do Jornal da USP 

Tecnologias digitais e seu senso de imediatismo

por Tereza Cristina Mello de Brito Carvalho*

A sociedade contemporânea está cada vez mais permeada pelas tecnologias digitais, presentes na maioria das atividades humanas. Essas atividades vão desde a educação, o trabalho, os negócios, a produção de bens, a produção e a oferta de serviços até o entretenimento, as compras e outras. Muitas dessas atividades podem ser realizadas a partir da palma de nossa mão. Empregando-se um smartphone, podemos assistir a um vídeo, participar de um curso remoto, pagar nossas contas, fazer transferências bancárias, fazer compras, encomendar o nosso jantar, pedir um táxi ou carro e assim por diante. Isso cria um senso de imediatismo, pois com algumas poucas operações a partir do nosso smartphone temos acesso a um mundo de serviços.

Neste cenário efervescente, discute-se qual é o papel do ser humano, tanto do lado do usuário ou cliente como daquele que produz bens ou presta serviços. Tomamos o exemplo de um cliente que decide comprar sua refeição via internet. Planeja sua refeição, seleciona um site e daí escolhe tudo que gostaria de comer, esperando que sua encomenda seja entregue no período de minutos na porta de sua casa ou do escritório. Do outro lado, o prestador esmera-se para atender o cliente e para garantir que nenhum item do seu cardápio fique em falta. Assim, além de produzir alimentos just in time, precisa ter um bom controle de seu estoque de ingredientes para garantir que nada falte.

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Contudo, nem sempre isso é possível, porque ontem teve um jogo de futebol e os torcedores acabaram com seu estoque de comidinhas rápidas e petiscos. Eventos sazonais criam demandas diferenciadas, que inviabilizam um nível de qualidade de serviço constante, a menos que se opte por ter margens grandes de estoque, o que implica riscos de perda de alimentos no caso de seu vencimento.

Ou seja, as tecnologias digitais viabilizam o acesso direto do cliente ao produtor de bens e prestador de serviços. Esse elo de conexão, cada vez mais forte, é criado dentro de paradigmas bem diferentes dos existentes atualmente. Do lado do cliente, existe a expectativa de excelência operacional, isto é, de produtos sem defeito ou problemas, com entrega quase imediata e possibilidade de devolução quando a empresa não atende completamente às expectativas do cliente. Do lado do prestador de serviços ou produtor de bens, existe a demanda de disponibilidade de produtos, componentes e bens para poder atender com qualidade, de modo quase imediato, ao pedido do cliente.

Se de um lado as tecnologias digitais aproximam universos distantes, como o do cliente e do produtor de bens e prestador de serviços, de outro lado cria demandas que nem sempre podem ser atendidas. Tais demandas não podem ser atendidas porque nem todas as atividades humanas são automatizadas e não serão pela própria natureza e, além disso, muitas vezes dependem da disponibilidade de insumos inexistentes para consumo imediato.

“Tomamos o exemplo de um cliente que decide comprar sua refeição via internet. Planeja sua refeição, seleciona um site e daí escolhe tudo que gostaria de comer, esperando que sua encomenda seja entregue no período de minutos na porta de sua casa ou do escritório.”

Como exemplo, pode-se usar ainda o caso da encomenda de uma refeição, que pode ser um hambúrguer, cuja produção pode ser automatizada, ou uma refeição preparada por um chef. Do ponto de vista do cliente, são serviços semelhantes com qualidades e preços diferentes e, então, sua demanda deve ser entendida porque há um diferencial de preço. Do ponto de vista do prestador de serviço, pode ocorrer uma grande perda de eficiência, que exigirá estoques maiores de insumos e alimentos pré-preparados com decorrente elevação de preço e risco de perda de qualidade.

Portanto, as tecnologias digitais têm criado paradigmas na relação entre cliente e produtor de bens ou prestador de serviços que em muitos casos precisam ser revistos, pois no final todos pagam a conta em decorrência da perda de eficiência. Voltando ao nosso exemplo, o cliente paga mais caro por uma refeição feita pelo chef, não somente pela qualidade do preparo e dos ingredientes, mas também porque há muito desperdício de insumos e alimentos pré-preparados que acabam perdendo sua validade.

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A maior eficiência e sustentabilidade das práticas decorrentes desse novo modo de relação entre cliente e produtor de bens ou prestador de serviços requer novas regras de mercado e a revisão dos novos hábitos de consumo. A revisão dos nossos hábitos passa também pela própria necessidade do ser humano de estar consigo mesmo, cuidar de si e dos pequenos afazeres do dia a dia, como comprar seus alimentos, preparar seu café da manhã e suas refeições e não ser apenas um mero consumidor de bens e serviços oferecidos na internet. Somos pessoas e precisamos de cuidados da alma e do corpo para não cairmos na alienação que as tecnologias têm nos conduzido.

*Tereza Cristina Melo de Brito Carvalho é professora associada da Escola Politécnica (Poli-USP)

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1 comentário

  1. Um breve reparo:

    “Somos pessoas e precisamos de cuidados da alma e do corpo para não cairmos na alienação que as tecnologias têm nos conduzido.”

    Somos pessoas e precisamos de cuidados da alma e do corpo para não cairmos na alienação que as pessoas que exploram tais tecnologias têm nos induzido a cair.

    Pessoas nos conduzem, não tecnologias. Ou melhor ainda, nós aceitamos que pessoas nos conduzam, não tecnologias. Questão de evitar alienar-se de si mesmo…

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