Todas as cores não passam de luz branca, por Eliseu Raphael Venturi

Perguntávamos, então, diante do espetáculo: precisar-se-ia de tais vazamentos para se ver tudo aquilo que já estava ali, posto na praça pública; tudo aquilo que havíamos visto exigia tamanha canibalice?

Picasso com máscara, em Cannes, 1959. (1)

Todas as cores não passam de luz branca

por Eliseu Raphael Venturi

E foi numa arena corroída de tourada pós-moderna que o Matador decidiu descumprir algumas regras clássicas de figurino, conduta, jogo, apresentação. Quem se importa? 

Havendo sangue, sangrando-se as técnicas, as éticas, as interpretações e as argumentações, destruir a razão junto com o corpo é lucro à plateia! Afinal: quem gosta de Lei? Aplausos à sombra.

Rasgou-se por si aquele traje incrustrado de pedras preciosas, penduricalhos, ornamentos em ouro; não fora pelo chifre veloz que as contas explodiram ao chão como pérolas aos porcos.

Pois que, verdadeiramente, eram as entranhas do Toureiro: vazaram como um corte de chifre na barriga gorda, caíram ao chão fezes, sangue, gordura, carne, água, com um som insuportável de líquido amniótico pré-parto de um nascituro indistinto. Restou aos bofes e continuava esnobista. 

Perguntávamos, então, diante do espetáculo: precisar-se-ia de tais vazamentos para se ver tudo aquilo que já estava ali, posto na praça pública; tudo aquilo que havíamos visto exigia tamanha canibalice? Uma semiótica da conduta não bastara? Por que o vício derradeiro da violação quando ao óbvio do teatro não se precisava de bastidores?

Aquela tourada menor não era novidade – não a nós que vivemos vida sobre vida após morte sobre morte, e que já estávamos um tanto velhos e cansados naquela época que nos recolhia os fluídos das juntas. 

A Rainha de Copas, nascida da entorpecência, que o dissesse: das profundezas de um buraco surrealista hiperreal ela ordenava, ordenava e ordenava cortar, cortar e cortar. Lá habitávamos, a propósito, naqueles anos vencidos, todos riscados dia-a-dia da nossa ampulheta apressada. 

E eu, sinceramente, era feliz por estar vivo. Ao invés de me preocupar com toda aquela gente bem alimentada que vivia muito mais do que eu, eu me preocuparia mesmo com quem me nutriu a vida inteira, decidira, me dando aos trabalhos da metáfora com pitadas de fábula apenas por compromisso como devaneio, quando queria mesmo era garimpar cada vez mais o belo e o monstruoso.

Era, de mais a mais, o Matador, muito estranho. Esperava-se virilidade, descolada do gênero; esguio e forte, elegante e cruel, preciso e artístico, um ápice de humanidade, um acrobata da luta e da dança, um deus na terra, um demônio na terra, um maldito irresistível. Era uma crença, porque visto de perto exalava o fudum do antiperfume, eram homenzinhos cujo bolo algum ampliaria. Dizem que o recrudescimento da boquinha e a recalcitrância do nariz de sua esposa eram um protesto facial de incontinência, nada de estética cubista naquilo tudo, mas as pessoas só se horrorizavam com o melhor das vanguardas modernas e suas representações pictóricas. É possível entender?

Mas, vejam: os tenores do nosso tempo iam mal, umas vozes estridentes pagando-se sapo de virtuose da técnica, analisem o sentido de jurisdição, parece claro, audível. Puros temores que cassariam sua liberdade, plenos tumores. Que artista nos representaria, chorávamos às escadarias fumando, pedindo por alguém que não viria mais na imensa solidão daquele reino confuso, decadente, decaído, acabado, devastado. Nós estávamos era condenados aos engodos, um gado enganado.

No meio de toda sorte de contradições performativas, contradições lógicas, contradições jurídicas e, diziam mais, em meio a uma feira de contradições quaisquer, como que em um belíssimo herbário de barbáries, os escribas menores apagavam as diferenças e diziam: “todos são culpados, afinal em polarizações tudo se equivale”. Mas de onde foi que saiu essa gente, Deus do céu? 

Alguém lembrou à Rainha que haveria diferenças entre a ordem da sentença e do veredito, mas não se ouviu, não se compreendeu, não se quis. Monarcas desejam e o desejo deles é a regra nata como pingo de suor, saliva de fome. Insistiu-se, inutilmente, com toda sorte de explanações, boatos de que até se faria um seriado destes, destas televisões obtusas cultuadas, explicando. Vão esforço, vãos de boataria por dentre os quais era tudo correria.

O homem mais lido da minha cidade, devo citar, até debochava de que se faziam bolos de cenoura empregando-se beterrabas, e aos alunos advertia com o mais concreto, didático e pedagógico dos exemplos elucidativos, mas ele não era compreendido e, então, seu olhar se tornava vidro. É bem verdade que rimos muito naqueles anos de ferro… Oxidado. Tempos crônicos.

Os séculos de esforços da humanidade em criar diferenciação foram esforços inócuos. Palavras vãs. Para quê consoantes quando tudo é vogal? Pouco importou o esforço do primata em, ao som de Strauss, levantar o osso do cadáver animal em ferramenta. Todas as cores não passam de luz branca.

Eliseu Raphael Venturi é radicado em Curitiba/PR.

(1) Detalhe de imagem disponível em: < https://www.spectator.co.uk/2017/05/bullfighting-with-picasso/>. Acesso em: 25 jul. 2019.

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