Uma breve nota sobre o Chile em chamas, por Rodrigo Medeiros

Baradit mostra que os planos para impedir um governo popular existiam desde antes de Allende ganhar as eleições.

Uma breve nota sobre o Chile em chamas, por Rodrigo Medeiros

Os recentes distúrbios sociais no Chile merecem reflexão. Afinal, como pôde o oásis neoliberal na América do Sul ter se transformado em um campo de batalha? Para responder a tal questionamento, evoco um livro de grande repercussão recente no Chile, “La dictadura” (2018), de Jorge Baradit. Para o autor, é preciso reconhecer que a ditadura foi uma luta de classes na qual a elite chilena semeou o terror, acusando Allende de querer instalar uma ditadura do proletariado e suprimir as liberdades individuais. Pinochet encabeçou a via armada ao neoliberalismo.

Baradit mostra que os planos para impedir um governo popular existiam desde antes de Allende ganhar as eleições. A União Soviética não tinha interesse no projeto democrático chileno e nunca o apoio. Com o apoio dos Estados Unidos, por sua vez, a elite chilena adotou várias ferramentas de desestabilização do governo. Uma classe média influenciável e medrosa apoiou essa sabotagem do governo de Salvador Allende. Baradit cita documentos desclassificados de órgãos da inteligência norte-americana e reconhece ainda os erros políticos da Unidade Popular.

O contexto da Guerra Fria e a famigerada Escola das Américas são descritos como elementos de tempos sombrios para a América do Sul. Deve-se destacar que sob a Unidade Popular ocorreu a nacionalização do cobre, então em poder de empresas norte-americanas. Ao final de 1972, houve uma greve de caminhoneiros que paralisou o país, obstruindo a distribuição de alimentos e artigos de primeira necessidade. A pressão derivada da sabotagem sobre a economia era enorme, inflação e desabastecimento. No plano externo, a escassez de crédito ajudava a estrangular o país. O espantalho do comunismo era manipulado pelos golpistas, que provocavam medo ao falar de cubanos inexistentes e tanques russos que viriam cruzando os Andes. Em junho de 1973, já estava claro que o golpe viria.

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De acordo com Baradit, “la economía se iba al carajo. Unos temían lo peor, otros buscaban lo peor. Las diferencias se volvierón irreconciliables”. A paralisação dos transportes públicos agravou a situação do governo Allende. No dia 30 de agosto, o presidente Allende declarou em discurso público: “!Solo acribillándome a balazos podrán impedir la voluntad que es hacer cumplir el programa del pueblo!” Seus partidários sentiam que estava escapando pelos dedos as possibilidades de realizar mudanças sociais em um país espantosamente desigual.

Em seu último pronunciamento, descrito no livro citado, Allende falou para a história: “En nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente; em los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las líneas férreas, destuyendo los oleoductos e los gaseodutos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder. Estaban comprometidos. La historia los juzgará”.

O primeiro momento do golpe foi de massacre indiscriminado. Segundo afirma Baradit, “el valle de Santiago era un campo de concentración cercado por controles militares armados”. A Direção Nacional de Inteligência (Dina) seria a Gestapo do novo regime. Os Chicago Boys entregaram um plano chamado “El Ladrillo”, a ser seguido após o golpe de 11 de setembro de 1973. As privatizações e a redução do poder regulatório do Estado integravam esse plano. As manufaturas chilenas regrediram e o país se viu como vendedor de matérias-primas novamente, vendedor de cobre e comprador de cabos de cobre. A implantação de um modelo econômico liberal selvagem transformou vários aspectos sociais básicos da vida coletiva em negócios privados. Em 1990, a ditadura entregou um país com índices de pobreza entre 40% e 45%. A redemocratização chilena teria que lidar com a tutela das Forças Armadas, comandadas pelo general Pinochet.

Segundo Baradit, “los peores años de la economía chilena se vivieron durante la dictadura de los Chicago Boys”. Nenhuma governo democrático suportaria tais experimentos. Ainda segundo o autor, “nuestro principal error fue pensar que el fin de Pinochet en el gobierno significaba el fin de la dictadura, porque no fue así”. O espírito da ditadura continuaria por outros meios. A distribuição de rendas e riquezas piorou sob a ditadura e a Concertação foi pouco ousada para mexer na estrutura do modelo econômico herdado, por temer o Exército e o poder econômico estabelecido. Conforme aponta Baradit, “este país es dirigido económicamente por una militancia pinochetista agradecida de los privilegios recibidos. Una elite que tiene el poder económico, militar, de los medios, de las tierras, de las industrias, de la prensa, de todo”.

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Como lição, talvez caiba citar mais uma vez um trecho do livro de Baradit: “Quisimos la vía democrática al socialismo y nos dieron la vía armada al neoliberalismo”. A sombra da ditadura segue vigente no Chile. O Chile é um dos países mais desiguais do mundo (aqui). Uma pesquisa divulgada recentemente pelo instituto Ipsos revela que 67% dos entrevistados naquele país “se cansaram de suas condições de vida nas áreas econômica, de saúde e aposentadoria”, que consideram “desiguais e injustas”. Assim como no Chile, no Brasil o 1% mais rico da população detém mais de 25% da renda.

Estive no Chile neste ano e não captei então a convulsão social que tomaria conta das ruas do país. Alguns colegas me disseram que conversei mais com os adultos e muito pouco com os jovens. Enquanto os primeiros guardam as dores da ditadura e, portanto, o medo do questionamento do modelo econômico herdado, os mais jovens seriam os protagonistas das manifestações por não terem vivido esse período de trevas da história chilena. Faz sentido. Deixo aqui algumas das últimas palavras públicas de Salvador Allende para encerrar: “Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad mejor”.