Uma crítica ao modelo primário exportador brasileiro como estratégia de inserção global, por Heldo Siqueira

Alguns analistas entendem que o modelo chileno não é replicável no Brasil pois se baseia em um padrão de exportações que não é compatível com a economia brasileira.

Uma crítica ao modelo primário exportador brasileiro como estratégia de inserção global

por Heldo Siqueira

Desde meados da década de 1980 o Brasil encontra-se sob um dilema entre um a visão sobre a necessidade projeto estratégico de desenvolvimento ou a inserção no mercado global a partir das vantagens naturais que o país teria em mercados específicos. A crítica dos defensores de um projeto estratégico de desenvolvimento dá conta de que o modelo (neo) liberal, levado a consenso pelo governo federal, não apresenta base material em termos de volume de comércio global para elevar a renda brasileira a níveis médios, como o exemplo do Chile, ou elevados como os Estados Unidos. Nesse sentido é importante trazer os números que baseiam essa crítica.

Segundo dados do Observatório de Complexidade econômica a renda per capita do Chile pela paridade do poder de compra a preços correntes foi de US$ 24.634,97 em 2017. No caso brasileiro esse indicador chegou a US$ 15.483,54. A título de comparação, para os EUA a renda por esse padrão foi de US$ 59.531,66 e para a China US$ 16.806,74. Por essa perspectiva, alcançar o padrão chileno de riqueza parece um avanço razoável pois indicaria um aumento de quase 60% da renda per capita. Ao mesmo tempo, chegar ao padrão americano representaria um sonho impossível de praticamente multiplicar por três a renda por pessoa. É nesse argumento que se baseia a ideia liberal de que seria necessário copiar o padrão de desenvolvimento chileno como modelo.

Em contraposição a esta visão, outros analistas entendem que o modelo chileno não é replicável no Brasil pois se baseia em um padrão de exportações que não é compatível com a economia brasileira. Assim, para iniciar a análise sobre as diferenças do padrão da economia chilena optou-se por identificar em qual medida o modelo de desenvolvimento chileno é dependente de exportações[1].

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De fato, em comparação com os países escolhidos, o Chile é aquele que apresenta a maior proporção de exportações per capita na renda média. Para alcançar o padrão chileno por esse indicador o Brasil deveria aumentar em mais de 125% as exportações por pessoa. Mesmo tendo sido o país que mais expandiu a proporção de exportações em proporção per capita da renda não foi possível aproximar o padrão de renda média: em relação ao Chile o país apresentava a renda per capita ligeiramente maior em 1995 (US$ 7.853,65 – Brasil; US$ 7.221,00 – Chile), passando a uma renda que hoje é 62,8% da chilena (US$ 15.483,54 – Brasil; US$ 24.634,97). Mesmo a renda chinesa (US$ 16.806,74) já era ligeiramente maior que a brasileira em 2017. Ou seja, o esforço de ampliar as exportações brasileiras como proporção da renda foi bem sucedido, apesar de não ter trazido os resultados na renda média.

Mesmo esse diagnóstico superficial parece indicar que o modelo baseado na expansão das exportações não parece trazer os resultados. Contudo uma análise um pouco mais aprofundada do tipo de exportações nos quais o Brasil se especializou pode indicar as dificuldades do modelo brasileiro[2].

Apesar da renda per capita chilena ter ficado em 41,4% da americana (US$ 24.634,97 – Chile; US$ 59.531,66 – Estados Unidos), o volume de exportações per capita dos dois países é muito semelhante (US$ 3.824,40 – Chile; US$ 3.836,58 – Estados Unidos). Além disso o valor é mais de duas vezes o volume chinês e mais de três vezes o brasileiro. Nesse sentido é possível corroborar a ideia de que o Chile baseia sua renda per capita nas exportações. Mesmo assim, desse valor 54,9%, US$ 2.089,46, foi de produtos minerais (US$ 1.062,51) e metais comuns e suas obras (US$ 1.026,59). Somente esses valores já são muito superiores a todas as exportações brasileiras per capita (US$ 1.055,70). Essa concentração das exportações chilenas é ainda mais profunda que de setores específicos. Na verdade 24% dessas exportações são de “Minérios de cobre e seus concentrados” e mais 21% de “Cobre afinado e ligas de cobre, em formas brutas”[3]. Ou seja, 45% das exportações chilenas por este indicador estão baseadas na indústria de extração e beneficiamento de cobre.

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Para o caso das economias mais complexas analisadas a maior parte de suas exportações está baseada nas indústrias de máquinas e aparelhos elétricos, de gravação e reprodução de mídias. Além disso, no caso dos Estados Unidos há destaque para a indústria química, além de instrumentos e aparelhos de ótica, médico cirúrgicos e instrumentos musicais e a própria indústria de transporte. No caso chinês há destaque para matérias têxteis e suas obras e ainda para mercadorias e produtos diversos.

No caso brasileiro, as principais exportações se dão em produtos minerais, produtos do reino vegetal e indústrias alimentares, bebidas, tabacos e líquidos, somando metade das exportações per capita. Mesmo assim, ao analisar os mercados globais, o aprofundamento desse modelo a níveis chilenos, 3,6 superior (US$ 3.824,40/US$ 1.055,70) ao volume de exportações atual, teria que levar o Brasil a ocupação de posições no mercado global que dificilmente seriam factíveis. Tratam-se de volumes próximos de 30% do mercado de produtos do reino vegetal e valores superiores de 20% das indústrias alimentares ou de armas e munições. Essa necessidade acontece pela proporção pequena que os produtos nos quais o Brasil busca se especializar tem no mercado global. Mais que isso, dada a proporção do mercado global, o aumento da participação em 1% das exportações mundiais de máquinas aparelhos elétricos, de gravação e reprodução de mídias, por exemplo, aumentariam em 19% as exportações brasileiras totais.

Outro elemento a ser questionado se refere à dinâmica dos mercados. Mesmo que haja suposição de que os mercados nos quais o Brasil se insere se expandam de maneira significativa, o volume necessário para cumprir a tarefa de elevar o padrão de exportações a níveis chilenos parece incompatível com a realidade. Dito de maneira simples é necessário que haja demanda para a aquisição dos produtos brasileiros em cifras que dificilmente se concretizariam.

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Mesmo que a análise tenha trazido apenas elementos especulativos, alguns elementos podem ser identificados. O esforço de expansão das exportações brasileiras parece ter dado o resultado ao qual se propôs em aumentar os volumes de recursos exportados. Entretanto, o efeito em termos de expansão da renda per capita não foi semelhante. Uma das respostas parece ser a impossibilidade de reproduzir o modelo chileno para o Brasil, dadas as características do próprio país andino e das características das exportações brasileiras. Por outro lado, China e Estados Unidos com outros modelos de inserção no mercado global parecem ter resultados superiores ao brasileiro e inclusive ao chileno. Nesse sentido, caso se opte pela manutenção dessa estratégia de inserção internacional dificilmente o país terá resultados significativos em termos de ampliação da renda per capita e da qualidade de vida da população.

 

 



[1] Fonte: Renda per capita – Observatório da complexidade econômica (https://oec.world/pt/); População – Base de dados do FMI (https://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2019/01/weodata/index.aspx)

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