Viva! Crescemos 0,4. Viva?, por César Locatelli 

O crescimento no segundo e o terceiro trimestres de 2018 davam a impressão de que a retomada estava por acontecer. Os trimestres seguintes, os dois primeiros do governo Bolsonaro, frustraram essa expectativa.

Viva! Crescemos 0,4. Viva? 

por César Locatelli 

Vi algumas pessoas animadas no twitter: “Foi o dobro do que o mercado esperava!”, “Cem por cento a mais!”, “A confiança está de volta!”, “Mais um resultado positivo para a economia!” e por aí vão os comentários.

Bem, em primeiro lugar, não sei se posso afirmar que são pessoas porque o Twitter está cada dia mais dominado por robôs que, com alguma grana, fazem as hashtags mais esdrúxulas que se pode pensar irem para o topo dos tópicos mais comentados.

Mas vamos olhar para o resultado do PIB.

Sempre tendo a olhar para períodos mais longos nas estatísticas, porque os eventuais erros vão sendo corrigidos e a chance de nos enganarmos existe, mas é menor.

O gráfico abaixo, elaborado pelo IBGE e divulgado hoje (29/8), mostra o quanto o PIB cresceu, ou encolheu, nos quatro trimestres anteriores, ou seja, os percentuais mostrados referem a períodos de um ano. Assim o último dado registrado, crescimento de 1%, refere-se ao período de um ano, que começou no terceiro trimestre de 2018 e se encerrou no segundo trimestre de 2019, agora em junho. O penúltimo dado, 0,9%, é relativo ao ano terminado em março deste ano. O governo Bolsonaro tem, até o momento essas duas taxas, 0,9% e 1%, computadas.

Voltemos um pouco para mostrar o que aconteceu com essa mesma taxa em quatro diferentes períodos um pouco antes do início do gráfico. O primeiro período será de 1996 até 2002, o segundo irá de 2003 até o final de 2010, o terceiro cobrirá os anos de 2011 até 2015 e, por fim, os anos de 2016 até 2018.

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O primeiro período, 1996 a 2002, mostra um crescimento médio de 2,13%. O período apresentou dois trimestres de queda, -0,2% e – 0,4%, respectivamente do segundo e o terceiro trimestres de 1999, quando se iniciava o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. O ponto mais alto se deu no quarto trimestre de 2000 com crescimento de 4,4%.

O segundo período, 2003 a 2010, mostrou média de crescimento de 3,97%, ou, praticamente o dobro da média do primeiro período. Os pontos máximos aconteceram no terceiro e quarto trimestres de 2010, ambos apontando crescimento de 7,5%. Tivemos no período dois trimestres de queda, -1,2% no terceiro trimestre de 2009 e-0,1% no quarto trimestre do mesmo ano. O IBGE assinala que “o PIB começou a recuar em função dos efeitos decorrentes da crise econômica internacional até chegar à queda de 1,2% no terceiro trimestre de 2009. Após isso, voltou a acelerar e superou o patamar de crescimento observado no período pré-crise no terceiro trimestre de 2010 (7,5%)”. Esse foi o governo Lula.

O terceiro período que observamos no gráfico, 2011 a 2015, que é a gestão de Dilma Rousseff, mostra uma média de 2,02%, que é o mesmo nível médio do período FHC aqui analisado. Os pontos mais alto aconteceram nos quatro trimestres de 2011 (6,6%; 5,6%; 4,8% e 4,%). As quedas do produto foram verificadas em todos os trimestres de 2015 (-0,7%; -1,3%; -2,2% e-3,5%).

O quarto período, 2016 a 2018, já sob o comando de Temer a partir do segundo trimestre de 2016, aponta uma média negativa de 1,1%. O crescimento mais alto foi de 1,4% e ocorreu em dois trimestres de 2018, o segundo e o terceiro. As maiores quedas foram em 2016 (4,4%; 4,5%; 4,1% e 3,3%).

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O crescimento no segundo e o terceiro trimestres de 2018 davam a impressão de que a retomada estava por acontecer. Os trimestres seguintes, os dois primeiros do governo Bolsonaro, frustraram essa expectativa.

Não observamos, na série analisada, nenhum período após uma queda que não reflita uma retomada forte. A exceção fica por conta desse final de 2017, o ano de 2018 e o início de 2019.

Aparentemente aqueles que esperavam por um ‘V’, recuperação forte após a queda de 2015 e 2016, com o “auxílio” das medidas de austeridade desde de Temer/Meirelles, terão de se conformar com um ‘W’.

O resultado divulgado hoje vale um ‘Viva’?

Nota

1 O relatório completo do IBGE está em https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/2121/cnt_2019_2tri.pdf

 

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1 comentário

  1. Tem algo de podre no Reino da Dinamarca, por José Luis Oreiro → https://jlcoreiro.wordpress.com/2019/08/29/tem-algo-de-podre-no-reino-da-dinamarca/

    O IBGE acaba de divulgar os dados do PIB do segundo trimestre de 2019, apontando uma elevação de 0.4% com respeito ao primeiro trimestre do corrente ano. Trata-se de uma dupla surpresa. Em primeiro lugar, a mediana das projeções de mercado apontavam para uma expansão de apenas 0.2%, ou seja, um resultado 50% menor do que o divulgado hoje pelo IBGE. Em segundo lugar, o resultado do IBGE diverge totalmente do comportamento do IBC-Br, o índice de atividade econômica calculado pelo Banco Central do Brasil, que mostrou um recuo de 0,13% no segundo trimestre na comparação com o primeiro trimestre de 2019. Mais intrigante ainda é o fato de que os dados do IBGE e do IBC-Br para o primeiro trimestre de 2019 foram idênticos, ou seja, ambos mostraram uma queda de 0,2% na atividade econômica no primeiro trimestre de 2019 na comparação com o ultimo trimestre de 2018.

    Por que razão o PIB do IBGE e o IBC-Br do Banco Central apresentaram comportamentos tão diferentes no segundo trimestre de 2019? Enquanto o índice do BCB mostrou uma economia se contraindo no segundo trimestre, os dados do IBGE mostram uma economia em expansão vigorosa. Parece o BCB e o IBGE estão mostrando países diferentes. Me parece que há algo de podre no Reino da Dinamarca …

    Figura → https://jlcoreiro.files.wordpress.com/2019/08/previa-do-pib-do-banco-central-recua-013percent-no-2o-trimestre-e-indica-inicio-de-recessao-tecnica.png?w=529&h=327
    Fonte da figura: https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/08/12/previa-do-pib-do-banco-central-recua-013percent-no-2o-trimestre-e-indica-inicio-de-recessao-tecnica.ghtml

    Leia também:
    ‏“O PIB subiu 0,4%, mas todas as pesquisas mensais do IBGE apontavam queda seja a PIM, PMC e PMS, isso sem contar o IBC-BR. Não entendi ate agora esses números das Contas Nacionais”.
    — André Perfeito @perpheito → https://twitter.com/perpheito/status/1167072637178306561
    Figura → https://pbs.twimg.com/media/EDJGXyTWsAI5m3j.jpg

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