Resenha literária: J.M.G. Le Clézio – Peixe Dourado

 

Jean-Marie Gustave Le Clézio – Peixe Dourado 
Companhia das Letras – 210 páginas

 

        Nascido na França em 1940, Le Clézio viveu no Panamá e nos EUA, retornando a Nice, sua cidade natal, em 1996. Foi eleito o maior escritor vivo de seu país em 1994 e ganhou vários prêmios importantes, inclusive o Nobel de Literatura (2008).

        Escrito de modo linear, em primeira pessoa, “Peixe Dourado” narra a trajetória de Laila, menina raptada no Saara ocidental e vendida no Marrocos a Lalla Asma, uma judia-espanhola que se torna sua patroa, avó, mestra e protetora. Surda de um ouvido por causa de um atropelamento, sem saber sequer seu nome de batismo, ela passa os dias trabalhando numa casa situada no bairro judeu, onde varre o pátio e lava a roupa, recebe carinho e os rudimentos de sua educação, porém sofre com as perseguições que lhe são impostas por Zohra e Abel, a nora e o filho de Lalla Asma. Oito anos mais tarde, após a morte da velha senhora, Laila começa a vencer os medos que a acompanham desde a infância: foge e atira-se ao mundo, em busca de sua própria identidade.

        Acolhida numa estalagem (funduq), conhece madame Jamila, parteira e cafetina que lhe oferece abrigo e proteção. As outras “princesas” recebem-na como a irmãzinha mais nova, a boneca do funduq. Nesse ambiente, Laila experimenta plena liberdade, aprende a roubar, perde por completo a noção de limite e autoridade. Vai parar num juizado de menores, que a encaminha para a temível guarda de Zohra e Abel. Passa a ser tratada com escrava, apanha e sofre humilhações.
        Conhece, então, o Sr. Delahaye, um francês convidado da casa, que por ela se afeiçoa. Porém, como se cumprisse um desígnio em sua vida, todas as pessoas que dela se aproximam acabam por oprimi-la de alguma forma, estendem redes como tentáculos, procuram se aproveitar de sua beleza exótica e de sua fragilidade. Laila foge outra vez.
        Assim será a sua peregrinação pela vida e pelo mundo, uma sucessão de partidas que vão pouco a pouco erigindo sua personalidade, histórias de aprendizado e libertação, de abuso e sofrimento. Viaja para a França, conhece a marginalidade e o preconceito com que são tratatos os imigrantes na Europa, vive num porão, trabalha como doméstica, chega a revolver os monturos de um lixão, estabelece amizades com outros excluídos, descobre o sexo e, ainda que vagamente, o amor.
        Em suas andanças, chega aos Estados Unidos, onde sobrevive recolhendo as migalhas do consumismo desenfreado norte-americano. Consegue um número da seguridade social e, após se recuperar de uma doença, é salva pela música, que se manifesta em seu espírito através da fusão de experiências sonoras que acumulou desde pequena. É o fim de todos os seus medos. Os aproveitadores que lhe estendem redes não a atemorizam mais.
        A França, revisitada, é apenas o caminho de passagem no regresso à África de suas origens, terra onde a luz do deserto é branca e o vento queima a pele de seus ancestrais. 

        “Peixe Dourado” é 
uma sinuosa jornada, escrita com delicadeza e sensibilidade, com uma dureza desprovida de qualquer pieguice, capaz de enternecer sem embriagar. Este é um belo romance, sem sombra de dúvida, literatura para quem não vive sem.

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