Evolução e seleção natural não são sinônimos, por Felipe A. P. L. Costa

Em sentido amplo, evolução abrange toda e qualquer mudança que ocorre no fundo gênico, mesmo as acidentais.

Evolução e seleção natural não são sinônimos

Por Felipe A. P. L. Costa [*]

Evoluir é um processo restrito a coletividades (e.g., populações) – indivíduos não evoluem. O que não significa dizer que toda e qualquer população evolua.

No âmbito deste livro, importa ainda distinguir entre evolução e evolução por seleção natural.

Em sentido amplo, evolução abrange toda e qualquer mudança que ocorre no fundo gênico, mesmo as acidentais. O processo decorre de três propriedades inerentes aos seres vivos: multiplicação, hereditariedade e variação. (O uso do qualificativo inerente não implica dizer que tais propriedades sejam imutáveis.)

Evolução por seleção natural – tópico central deste livro – é um tipo especial de evolução. Para que a evolução ocorra desse modo particular, é necessária uma propriedade adicional: aptidão darwiniana – ou tão somente aptidão, referida às vezes como valor adaptativo. Ao contrário das outras três, esta quarta propriedade não é inerente aos organismos. Também não é algo que tenha valor absoluto e permanente. Trata-se de um parâmetro – relativo e transitório –, cujo valor momentâneo depende do contexto ecológico em que os organismos se encontram.

Em resumo, a evolução por seleção natural é um processo que se manifesta em toda e qualquer população (de seres humanos, inclusive) cujos integrantes exibem as seguintes propriedades:

(1) Multiplicação. O potencial reprodutivo dos seres vivos é enorme – o tamanho da prole excede em muito o número mínimo necessário para substituir os genitores na próxima geração. Se todo esse potencial fosse efetivado, a massa dos descendentes de um único casal em poucas gerações ultrapassaria a massa da Terra [1].

(2) Transmissão. A prole tende a se assemelhar aos genitores, mais do que aos outros adultos da população. A explicação dada hoje a esse fenômeno – e que era desconhecida na época de Darwin e Wallace – é genética: os pais transmitem parte do seu genoma aos filhos (em média 50%, no caso de organismos diploides que se reproduzem por via sexuada).

(3) Variação. Embora haja uma correlação positiva entre os fenótipos parentais e filiais, conforme dito no item anterior, os descendentes de um casal diferem tanto entre si como dos genitores. Três fenômenos ajudam a explicar essas diferenças: mutação, recombinação e plasticidade fenotípica.

FIGURA. A figura que ilustra este artigo ressalta a distinção entre evolução e evolução por seleção natural. (a) Evolução é um fenômeno populacional resultante de três propriedades: multiplicação (M), transmissão (T) e variação (V). A composição da população muda de uma geração a outra, mas de modo errático, pois não há correlação entre traços fenotípicos (e.g., tamanho ou cor) e o contexto. (b) Evolução por seleção natural depende de uma quarta propriedade, aptidão (W). Há uma correlação entre o fenótipo e o contexto, de sorte que as esferas acinzentadas passam a ter chances privilegiadas de sobrevivência e reprodução.

(4) Aptidão. Diz-se que os integrantes de uma população são dotados de aptidão quando há uma correlação entre algum traço fenotípico e o contexto ecológico. Se a correlação é positiva, os portadores desse item têm chances privilegiadas de sobrevivência e reprodução – e.g., sobrevivendo por mais tempo, eles produzem mais descendentes, elevando assim as chances de que algum deles integre a próxima geração. (Se a correlação é negativa, claro, ocorreria o oposto: chances reduzidas.) A correlação pode ter efeitos sobre diferentes componentes da aptidão (e.g., crescimento, viabilidade e fertilidade).

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Notas

[*] Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019), assim como 22 artigos anteriores – ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Veja o caso da borboleta Hypothyris (Lepidoptera: Nymphalidae). Admitindo que (1) adultos vivem 180 dias; (2) durante o seu tempo de vida, uma fêmea grávida produz 900 ovos (~5 ovos/dia), a uma razão sexual de 1:1 (450 fêmeas / 450 machos); e (3) adultos eclodem pesando ¼ de grama (1 g = 4 adultos). Com base nesses números, em pouco mais de 5 anos (i.e., entre 10 e 11 gerações: 1, 450, 4502, 4503 etc.), os descendentes de uma única fêmea atingiriam (e ultrapassariam) a cifra de 2,3894 x 1028 indivíduos – os quais teriam juntos a massa da Terra (5,9736 x 1027 g)!

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