Nós, os primatas (final). III. Somos todos macacos africanos, por Felipe A. P. L. Costa

Acima de todas as controvérsias, no entanto, uma coisa parece certa: todos nós – americanos, asiáticos, europeus etc. – descendentes de um mesmo ramo ancestral. É por isso que somos tão parecidos

Nós, os primatas (final). III. Somos todos macacos africanos

Por Felipe A. P. L. Costa [*]

Alguns autores acreditam que os seres humanos modernos surgiram na África, na Ásia e na Europa, independentemente. É a chamada hipótese Multirregional. Muitos outros, no entanto, defendem uma origem exclusivamente africana – é a hipótese Oriundos da África.

A segunda é a mais aceita, atualmente: os seres humanos modernos teriam surgido na África; colonizando em seguida a Ásia e a Europa, onde conviveram e terminaram substituindo os povos indígenas que viviam naquelas regiões.

A história poderia ser resumida da seguinte maneira: há cerca de 300 mil anos, nossos ancestrais africanos teriam se dividido em duas linhagens, a primeira permaneceu na África, enquanto a outra (os neandertais – Homo neanderthalensis ou H. sapiens neanderthalensis) saiu do continente africano, indo colonizar a Ásia e a Europa, onde prosperaram e viveram até cerca de 40 mil anos atrás, quando foram extintos. A linhagem que permaneceu na África deu origem aos humanos modernos (H. s. sapiens), alguns dos quais migraram depois para o Oriente Médio, a Europa e a Ásia; em seguida, para a Austrália e ilhas próximas; e, por fim, há uns 15-30 mil anos, para as Américas (do Norte, Central e do Sul). Os humanos modernos e os neandertais teriam convivido por milhares de anos em diversas regiões, principalmente na Europa e na Ásia.

Evidências moleculares

A noção de que a espécie humana veio da África é antiga. Wallace não acreditava nisso, imaginando que o berço fosse a Ásia. Mas Darwin acreditava e argumentou a favor de tal hipótese – na época, vale notar, ainda não havia sido identificado qualquer fóssil de hominídeo extinto [1].

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra a correlação entre a variabilidade genética (eixo vertical) e a distância em relação à cidade de Adis Adeba (Etiópia) (e. horizontal), tomada como o marco zero da evolução humana. A variabilidade (extraída de uma amostra de 938 indivíduos não aparentados, de 51 populações ao redor do mundo) decresce à medida que nos afastamos do marco zero (reta). Favorável à hipótese Oriundos da África, o resultado reflete a antiguidade das populações.

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Desde então, as pesquisas sobre as origens da espécie humana tem se guiado muito pelos achados fósseis. O mesmo vale para o estudo da colonização dos continentes ou das migrações regionais. Todavia, após o advento e a disseminação de técnicas moleculares, tem sido possível reconstituir capítulos importantes da nossa história evolutiva com base em marcadores genéticos presentes em populações contemporâneas. Um desses capítulos diz respeito à controvérsia em torno da saída do H. sapiens da África. Outro tem a ver com a questão da colonização das Américas, os últimos continentes a serem ocupados por seres humanos.

A opinião tradicional, com base principalmente no exame de artefatos (e.g., pontas de projéteis) e vestígios (e.g., carvão atribuído a fogueiras) sustenta que os primeiros colonizadores chegaram a pé, vindos da Ásia, atravessando uma conexão terrestre entre a Sibéria e o Alasca. A partir daí, eles teriam colonizado a América do Norte, a América Central e ilhas próximas e, por fim, a América do Sul. Mais recentemente, porém, evidências moleculares – obtidas a partir do estudo de certos marcadores genéticos de populações viventes – serviram de base para uma hipótese radicalmente diferente. De acordo com esse novo ponto de vista, os primeiros colonizadores teriam chegado primeiro à América do Sul (atravessando o oceano, vindos da África) e só depois teriam colonizado as Américas Central e do Norte. Ainda mais recentemente, uma nova reviravolta tornou a favorecer a opinião tradicional, só que agora recuando o calendário da colonização para até 50 mil anos atrás.

Coda

Evidências fragmentárias dão origem a opiniões divergentes. Mais pesquisas de campo devem ser conduzidas antes que se possa equacionar e eventualmente resolver as divergências. Só então será possível elaborar um quadro mais detalhado e completo do que se passou nas Américas com os nossos antepassados.

Acima de todas as controvérsias, no entanto, uma coisa parece certa: todos nós – americanos, asiáticos, europeus etc. – descendentes de um mesmo ramo ancestral. É por isso que somos tão parecidos [2].

No fim das contas, viemos todos do mesmo lugar.

Somos todos macacos africanos [3].

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Notas

[*] Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019), assim como 18 artigos anteriores – ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. (A versão impressa contém referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Os primeiros Australopitechus foram encontrados em 1924, na África do Sul, enquanto A. afarensis (Lucy) só foi descrito na década de 1970.

[2] O genoma humano foi mapeado pelo Projeto Genoma Humano (1990-2003). Até então, imaginava-se que os 24 (22 + X e Y) cromossomos humanos transportassem ~100 mil genes codificadores de proteínas. Em 2003, os resultados indicaram 35 mil; em 2004, o total foi rebaixado para 20-25 mil. (Há ainda genes que não codificam proteínas.) Eles são formados de ~3,08 bilhões de pares de bases. Estima-se que dois seres humanos difiram em média em 0,01% de suas bases. Significaria dizer que cada um de nós compartilha 99,99% do genoma com os demais seres humanos.

[3] Devo ressaltar que aqui e nos dois artigos anteriores (‘Nós, os primatas’, I e II), eu adotei uma abordagem parcial: como teria sido a história evolutiva do H. sapiens, sem discutir os porquês – i.e., que fatores poderiam ter moldado essa história?

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