A gnose de um fantasma em “A Ghost Story”, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

Muitas religiões falam de um ponto entre a vida e a morte no qual vagam, entre os vivos, fantasmas daqueles que por algum motivo não conseguem deixar esse mundo. Mas “A Ghost Story” (2017) nos apresenta um fantasma diferente: um jovem morto prematuramente coberto por um lençol como um fantasma de Halloween. Um observador silencioso preso a uma casa que vê moradores chegando e mudando-se. Um filme sobre a percepção do tempo e a permanência. O que o prende naquela casa, silenciosamente observando os vivos? Talvez, os mesmos motivos que fazem os vivos serem prisioneiros dessa vida, sem jamais alcançarem a gnose. E como as questões nietzschianas como a morte de Deus e o eterno retorno permeiam a angústia existente tanto nos vivos como nos mortos. 

Há um ponto comum em muitas religiões sobre a vida pós-morte: a existência de algum purgatório ou estado intermediário entre a vida e a morte habitada por indivíduos que se recusam a deixar a vida que eles não podem mais ter.

Seja no candomblé (indivíduos que não cumpriram seu destino podem continuar vagando entre os vivos), no espiritismo (espíritos apegados à vida material e afetos podem continuar na crosta terrestre, às vezes sequer acreditando que morreram) e no judaísmo (almas dos mortos ficam entre os vivos até um ano e precisam ser ajudadas pelos familiares com preces auxiliando a alma a se elevar), há alguma espécie de, por assim dizer, uma interzone com indivíduos que simplesmente não conseguem de desprender dessa existência.

Pode ser o apego aos prazeres ou posses materiais. Mas há um quê de ausência de resposta a uma simples questão que ainda nos atormenta quanto mais tomamos consciência da finitude: quando dermos o último suspiro e nossos olhos fecharem, o mundo e o tempo continuarão seu fluxo indiferentes à nossa ausência? Seremos esquecidos? Ou essas perguntas são supérfluas já que a existência não tem sentido e, junto com o planeta Terra, um dia seremos tragados pelo Sol e todo o Universo retornará à singularidade inicial?

Esse é o tema principal do filme indie A Ghost Story (2017). Um filme com um truque de roteiro bem recorrente no cenário independente norte-americano atual: narrativas que carregam iconografias clássicas de gênero, mas que nada mais são do que pretextos para discussões existenciais e espirituais. 

Como diz o título, é a estória de um fantasma: tem uma casa com estranhos barulhos no meio da noite e até efeitos tele-cinéticos como copos se erguendo no ar e pratos voando do armário. Mas os seus longos planos em cenas absolutamente corriqueiras e conjugais, as conversas sussurrantes entre um casal e o ritmo lento e meditativo (sem abrir mão de imagens surpreendentes e impactantes) mostram que A Ghost Story não é um thriller de horror e sustos como o filme do gênero Atividade Paranormal

 

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Ao contrário, todos esses elementos iconográficos são oportunidades para uma sensível reflexão sobre o tema da finitude e as marcas que deixamos nesse mundo principalmente através da arte e da música. E a principal dúvida: vale a pena deixarmos um legado em um universo que caminha inexoravelmente para um fim?

O Filme

A Ghost Story é um conto sobre um homem que morre jovem e, transformado em um fantasma, permanece na casa em que vivia com sua esposa. 

Um jovem sem nome, interpretado por Casey Affleck, que morre em um acidente de carro a poucos metros de sua casa – um talentoso compositor freelancer. Sua esposa, também sem nome, interpretada por Rooney Mara, despede-se do corpo do marido coberto por uma grande mortalha no necrotério local. 

Ela vai embora para vermos um longo e perturbador plano de câmera fixa naquele corpo coberto sobre a mesa de um necrotério. Após quase um minuto, o corpo levanta-se com o lençol e sai andando. O fantasma nada mais é do que a clássica representação infantil de um fantasma de Halloween: lençol com dois buracos toscos na altura dos olhos.

Essa é o grande insight narrativo de A Ghost Story: o diretor David Lowery nega ao ator protagonista a maioria dos recursos dramáticos para expressar emoções. O fantasma exprime surpresa, tristeza ou raiva simplesmente ao manear a cabeça ou os ombros de uma maneira particular ou virando a cabeça lenta ou rapidamente para ver algo.

 

O fantasma volta para casa e passa todo o tempo em um canto em silêncio enquanto observa sua esposa chorando, comendo, relembrando e tentando retomar sua vida. E ocasionalmente faz tremer algum objeto ou peça do mobiliário. 

Junto com o fantasma acompanhamos o fluxo do tempo: uma sucessão de acontecimentos banais até sua esposa mudar-se daquela casa. Mas, a entidade permanece no local como se alguma coisa a prendesse ali. Pode ser um processo de negação do seu processo íntimo de luto. Ou simplesmente quer criar raízes ali, como tentasse se apegar em alguma coisa de concreta. Como uma espécie de boia salva-vidas numa existência pós-morte na qual descobre a inexistência de sentido ou propósito.

Ocasionalmente descobre que na casa vizinha há um outro fantasma na janela. Assim como ele, preso naquela casa à espera de algo ou alguém há tanto tempo que ele próprio já esqueceu do quê.

E lá o fantasma vai ficando, testemunhando a chegada de novos inquilinos como, por exemplo, uma mãe solteira e seus dois filhos. Irritado com a chegada dos “invasores” o fantasma derruba pratos e copos. Para depois vê-los irem embora e, depois, chegada de jovens que fazem muitas festas com artistas boêmios.

 

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Tempo e permanência

O tempo continua avançando até todo o quarteirão ser demolido e substituído por uma grande torre empresarial. E o fantasma permanece, vagando pelos corredores até chegar na cobertura daquele arranha-céu e observar uma cidade transfigurada e parecida com a Los Angeles sci-fi de Blade Runner. Ele chegou décadas no futuro, enquanto a percepção do fluxo temporal parece ser bem diferente para ele. Porém, não consegue encontrar respostas, sentido ou propósito do porquê ser uma testemunha solitária da existência dos vivos.

A Ghost Story é sobre a percepção do tempo e permanência. Um filme para ser observado atentamente, principalmente as sequências com longos planos fixos nos quais estão contidas muitas chaves narrativas, como na sequência da queda de um livro de Nietzsche que se abre ao bater no chão.

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