As imagens seduzem e iludem no filme “Cópia Fiel”

“Cópia Fiel” (Copie Conforme, 2010) é um curioso olhar etnográfico de um diretor iraniano para a cultura das imagens ocidental: Abbas Kiarostami vai ao polo irradiador do cânone da ilusão figurativa das imagens (a Itália dos museus, igrejas e arte sacra) para mostrar, paradoxalmente por meio do artifício (um escritor que promove um livro sobre o valor das cópias em relação a obra artística original e que voluntariamente participa de um “role-playing” proposto por sua admiradora), que as imagens são intransitivas, não remetem a nada fora delas mesmas, seja uma suposta natureza divina ou real. Elas sempre foram meros simulacros.

Artifício, ilusão, simulação, mentira. Essas são algumas críticas feitas à civilização ocidental das imagens feitas por autores como Guy Debord (Sociedade do Espetáculo), Jean Baudrillard (Simulacros e Simulações) chegando a filmes como “Matrix” onde a imagem tecnológica alcança o paroxismo ao criar mundos virtuais onde o homem torna-se prisioneiro.

O aclamado diretor iraniano Abbas Kiarostami vai ao centro irradiador dessa cultura da imagem no Ocidente (a Itália, repleta de arte sacra, afrescos religiosos renascentistas e ícones cristãos por todos os lados em pequenas capelas, Igrejas e lojas de antiguidades) para fazer uma reflexão dos problemas filosóficos que envolvem as imagens que nos cercam e a nossa percepção delas. E talvez mais do que isso: mostrar como fomos seduzidos pela ilusão.

De um lado temos o olhar de um diretor iraniano, cuja cultura islâmica sempre nutriu a desconfiança e condenação à ilusão figurativa ocidental pela sua poderosa influência através do seu poder de invocar idolatria e feitiço – daí a arte muçulmana abominar a arte figurativa e ser dominada por mosaicos e figuras abstratas.

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E do outro, a Itália, polo disseminador da religião católica que desde o início ignorou as advertências do Velho Testamento bíblico sobre a idolatria das imagens e as colocou nos altares e catedrais como as verdadeiras representações figurativas do Divino. Primeira forma de propaganda de massas baseada na sedução e idolatria das imagens que mais tarde a sociedade ocidental vai perpetrar através da tecnológica.

Kiarostami divide nitidamente o filme em dois momentos de reflexão: a discussão da ilusão da imagem em si, como arte; e na segunda metade, a sedução pela ilusão na própria vida real.

O Filme

Nos primeiros 50 minutos “Cópia Fiel” evolui como um drama simples com inclinações românticas: James Miller (William Shimell) e Elle (Juliette Binoche) passam uma tarde juntos em sua loja de antiguidades, fazem um passeio de carro por uma linda estrada cercada de ciprestes e vagam por pequenas ruas de um vilarejo no interior da Toscana. Elle é fã do escritor e pesquisador James que está lançando o seu livro “Cópia Fiel” onde defende a tese de que na arte a cópia por ser tão boa ou melhor que a original, o que colocaria em xeque toda a questão da autenticidade e da própria definição sobre o conceito de arte.

Uma falsificação poderia ter a mesma validade que a original? Mona Lisa teria um original? Ou o que chamamos de “original” já seria uma falsificação da Gioconda real? O que chamamos de arte, nada mais seria do uma percepção humana influenciada pelo contexto onde o objeto se encontra como, por exemplo, o museu? Tudo isso são discussões que o casal vai travando em seu passeio de carro através das lindas paisagens.

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Na segunda metade do filme o casal visita uma pequena cantina onde pedem café. Enquanto James sai para atender o seu celular, a proprietária os confunde como marido e esposa e observa: “ele parece ser um ótimo marido”. Essa confusão de identidade permite a Elle fazer um catálogo de deficiências atribuíveis a seu “marido”. Quando James retorna, Elle revela o engano da proprietária, mas decidem participar da simulação juntos, como vivessem em uma vida conjugal. Até o final, irão interagir como um casal, onde discutirão seus problemas, a sua irritação pela frieza e distância do marido, o fato de raramente estar em casa e ter de criar o filho praticamente sozinho etc.

Ocasionalmente, James discutirá o seu próprio papel imposto por Elle, fazendo uma metalinguagem encenação.

A desconfiança com as imagens

A peça central do quebra-cabeça de “Cópia Fiel” é, naturalmente, como conciliar as duas partes do filme.  Na primeira parte o debate filosófico sobre a arte e as imagens e, na segunda, um exercício de stand in onde James é o ator substituto do verdadeiro marido de Elle, onde se pretende reproduzir com fidelidade a essência dos problemas conjugais após 15 anos de casamento.

Em “Cópia Fiel” há duas linhas de diálogo reveladoras sobre a desconfiança em relação às imagens do olhar iraniano do diretor. Na loja de antiguidades de Elle, James observa as diversas estátuas, quadros e demais objetos sacros e diz: 

“Convém manter distância. São atraentes, mas… podem ser ruins para você. Têm um certo valor, mas… podem ser perigosas, em certo sentido. Eu as estudo, eu as admiro, escrevo livro sobre elas, mas mantenho distância. Em casa prefiro objetos práticos”.

E outra, quando James fala sobre o objeto artístico: “um objeto qualquer é colocado num museu e muda o modo como é visto pelas pessoas. O principal não é o objeto, mas a sua percepção dele”. 

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O diretor Kiarostami revela dois pontos principais sobre a cultura das imagens em “Cópia Fiel”: a natureza intrínseca às imagens – a sedução pelo artifício figurativo das imagens, o perigo da ilusão em confundir a imagem com o seu próprio referente, o signo com a própria coisa ou o mapa com o território, isto é, a base da idolatria das imagens; e a percepção das imagens artificialmente construídas em espaços como museus, lojas de antiguidades e igrejas.

Imagens e a “partilha do sensível”

Essa tese defendida no filme por James de que o objeto artístico é uma percepção construída socialmente vai lembrar o conceito de “partilha do sensível” do francês Jacques Rancière: a política como atividade essencialmente estética, fundada sobre o mundo sensível, assim como a expressão artística. Toda forma de poder tem uma dimensão estética. E o poder católico foi o primeiro fundado na ilusão figurativa das imagens – a ilusão de que estátuas, afrescos e imagens não são meros ícones, mas índices da presença divina (veja RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível, São Paulo: 34, 2005).

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4 comentários

  1. Pois é, Gunter, uma das

    Pois é, Gunter, uma das revistas criticas de cinema que leio, também não gostou muito. Criticou bastante esse filme de Kiarostami, apesar de gostarem bastante da obra em geral do cineasta iraniano. Eu fui ver e gostei. Gosto do olhar que  Kiarostami tem sobre as coisas. Tem um filme dele, que não sei como se chama em português, “Le Vent nous Emportera” (O vento nos levara), de que gosto muito. O filme se passa num lugar perdido do Irã e é muito poético, além de engraçado e revelador da cultura iraniana do interior do Pais. 

    Enfim, em breve saira “A vida de Adèle” de Abelatif Keschiche. Imperdivel. 

    Muito boa a critica do Wilson Ferreira sobre Copia Fiel. Na politica sobretudo, a imagem vale mais que qualquer realidade.

     

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