Democracia em vertigem: ninguém passa incólume, por Marcia Noczynski

Como disse Petra, o Brasil, depois da votação do impeachment no Congresso, nunca mais seria o mesmo.

Democracia em vertigem: ninguém passa incólume

por Marcia Noczynski

Ontem terminei de assistir à Democracia em Vertigem.

Vertigem, é isso que o filme da Petra Costa causa. Vivi todos os momentos do filme, alguns ativamente e em outros, apenas transtornada. Me vi na Paulista, passando embaixo do túnel da Rebouças, caminhando junto a um mar de gente em direção ao Largo da Batata. Me vi sozinha no meu apartamento, no décimo sexto andar de um prédio de gente cínica e cafona, tapando meus ouvidos enquanto eles batiam panelas e urravam em suas varandas, numa demonstração patética de selvageria elitizada.

Democracia em Vertigem não é para os fracos. Tem que ter estômago para ver e ouvir aqueles deputados e senadores de cara sebosa e alma corrompida. Bárbaros, indecentes, degenerados, vulgares, asquerosos e vexatoriamente ignorantes. Como disse Petra, o Brasil, depois da votação do impeachment no Congresso, nunca mais seria o mesmo. Vergonha eterna daquele show obsceno. Ao lado deles estava um povo tão boçal e incivilizado quanto aqueles deputados, espumando ódio como cães raivosos, dando vazão a sua agressividade e seus preconceitos.

Pronto, o terror havia sido autorizado e já estava instalado. O mal/mau venceu.

O filme me fez reviver o pesadelo. Sou espectadora de cenas em que estive. Ninguém passa incólume por isso.

Também vi muitas pessoas admiráveis no documentário, militantes, políticos, jornalistas, artistas que lutaram ferozmente para defender a Democracia da vertigem. Foram muitas as manifestações, reuniões, aulas públicas, encontros. Nada disso conseguiu atravessar aquela parede grotesca, construída unicamente para assegurar a continuidade das tenebrosas transações.

Nem Chicos, nem Chomskys, nem Esquivels, nem Glenns. A parede da elite do atraso foi blindada, é à prova de humanidade e decência.

Leia também:  Será o fim dos princípios?, por Aracy Balbani

 

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9 comentários

  1. Esse filme tem que sair em blu ray….é pra ver, rever, e guardar para sempre…..

    E para o jornalixos que criticaram o filme…….a ignorância continua…….

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  2. Disse tudo Márcia! Mesmo vivenciando um Brasil grotesco, vulgar, racista, indiferentes as dores alheias vamos continuar lutando, pois sabemos que estamos do lado certo da história. Resistiremos e venceremos!

  3. Trailer do filme no YouTube

    (voz Petra): Eu e a democracia brasileira temos a mesma idade. Eu achava que nos nossos trinta e poucos anos estaríamos pisando em terra firme.

    (voz Petra): Eu tinha 19 anos quando Lula foi eleito —Lembro da euforia—Parecia um grande passo para a nossa democracia—20milhões de pessoas saindo da pobreza—A taxa de desemprego atinge o menor índice da história e o Brasil emerge como um dos protagonistas no cenário mundial.

    (voz Petra): Para sucede-lo ele escolhe Dilma Roussef que se torna a nossa primeira Presidente mulher (voz) Dilma: «Todos nós seremos julgados pela história»

    Parecia uma mudança de símbolos. [Close up Dilma]

    (voz Petra): Mas algo no nosso tecido social começa a mudar.
    O país de divide em duas partes. E esse muro dá lugar a um abismo.

    ——

    (voz Petra): O partido é pego num escândalo de corrupção, a maior investigação na história do país — (voz) Dilma: «O que vão pensar de nós» — (voz Lula) «Meu maior arrependimento é não ter feito mais» [na sequência aparecem Sergio Moro, Lula preso, Cunha preso, Lula sendo levado preso etc.].

    (voz Petra): Um Presidente destituído—Um Presidente preso.
    A nossa democracia está desmoronando.

    (voz) Bolsonaro triunfante: «Estou cada dia mais vivo perante a opinião publica»
    (voz Petra): Eu temo que a nossa democracia tenha sido apenas um sonho efêmero.

    ……………..……………..……………..

    A mensagem final de Petra é maliciosa: Lula e PT trairam o sonho dos brasileiros.

    Não vi o filme, somente o trailer no YouTube onde Petra subliminarmente distorceu a realidade. E como ela fez para distorce-la?
    Sequenciou locução / imagem em posições estratégicas, estudando as pausas. Explicita o crime do PT e a frustração das massas numa relação de causa e efeito. Isolou e colocou maliciosamente o termo escândalo junto com Dilma e Lula: «O que vão pensar de nós? pergunta Dilma» «Meu maior arrependimento é não ter feito mais» voz do Lula que naquele ponto insinua a audácia de quem fez e faria ainda mais se não fosse blocado pelo juiz Moro que aparece imediatamente na sequência da montagem.

    Em 1971 Umberto Eco escreveu um artigo publicado no jornal italiano Il Manifesto, com o titulo “Como a imprensa burguesa entrelaça a mentira à informação”: «se eu penso que um jornal diz mentira, não acredito no que ele diz, mas, como sempre acontece quando escuta-se coisas nas quais não acreditamos, permanece sempre o suspeito: e se naquela mentira existe alguma coisa de verdadeiro??» E concluiu o artigo dizendo que aquele é o melhor modo para dizer mentira. «Se aprende sempre com os ricos que sabem mentir melhor que os pobres».

    Em janeiro de 2007 (Petra tinha 23 anos) circulava na Rede pietra desse tipo:

    «Muitos se dizem aviltados com a corrupção e a baixeza de nossos políticos.
    Eles são apenas o espelho do povo brasileiro: um povo  preguiçoso,
    malandro, e que idolatra os safados. É o povo brasileiro que avilta!
    Não é difícil entender porque os eleitores aceitam o LULA e  a
    quadrilha do PT como seus líderes. A maioria das pessoas fariam
    as mesmas coisas que os larápios oficiais. Com MUITAS exceções, os brasileiros se dividem em 2 grupos: grupo 1) Os que roubam e se beneficiam do dinheiro público
    grupo 2) Os que só estão esperando uma oportunidade de entrar no grupo 1.»

    ———

    Contraponho a maliciosidade de Petra com esse trecho do Jessé que explica — magistralmente — a questão do escândalo mostrado no trailer:

    JESSÉ: «Para os brasileiros, moral deixa de significar, por exemplo, tratar todos com dignidade e ajudar os necessitados, para se resumir ao suposto “escândalo com o dinheiro público”, desde que aplicado seletivamente aos inimigos da elite».

    «A elite de proprietários pode roubar à vontade. Seu roubo “legalizado” passa a ser, inclusive, uma virtude, uma esperteza de negociante. Como a mesma elite possui como aliada a imprensa venal, e, por meio dela, manipula a opinião pública, a “escandalização”, sempre seletiva, é usada como arma de classe apenas contra os candidatos identificados com interesses populares. Assim, a função real dessa pseudomoralidade passa a ser criminalizar a própria soberania popular e tornar palatáveis golpes de Estado sempre que necessários.
    «O esquema pseudomoralista foi utilizado contra Vargas, Jango, Lula e Dilma, ou seja, todos que não entregaram o orçamento do Estado unicamente para o saque da elite via juros extorsivos, isenções fiscais criminosas, perdão de impostos, livre sonegação de impostos, “dívida pública” e outros mecanismos de corrupção ilegal ou legalizada».
    «Em virtude disso, o ódio a Lula é a mera “personalização” do ódio ao negro e ao pobre. (…) É com essa canalhice brasileira que a revolução de Glenn Greenwald está ajudando a acabar».

    Petra citou os auditórios cheios? Os carros de som? As organizações como Instituto Millenium, Movimento Brasil Livre (MBL), Instituto Liberal, Instituto Ludwig Von Mises e Estudantes Pela Liberdade, que improvisamente emergiram no cenário político brasileiro, publicando livros e realizando manifestações com enormes estruturas, treinamentos e palestras – encontrando terreno fértil no país, devido à crise mundial e à Operação Farsa Jato? Analistas como Pedro Marin explicaram tudo isso muito bem já em 2016.

    Organizações que contam com financiamento estrangeiro, conforme detalhou a reportagem de Marina Amaral (A nova roupa da direita, Agencia Pública, 2016), mostrando como uma rede de ONGs promovia treinamento de lideranças, patrocinava “intelectuais” para aglutinar consensos nas redes e movimentos para incendiar as ruas.

    Entre as organizações presentes na América Latina e leste europeu, Marina Amaral ressaltou a Atlas Network, fundada em 1981 um think-tank que financia declaradamente as atividades da direita em mais de 90 países; e deu o alarme: «a direita liberal cresce exponencialmente e combate no Brasil, país com apenas 31 anos de tradição democrática, de abismos sociais no campo e nas cidades, onde o PT governou poucos anos com apoio maciço e manteve alianças com governos populares da região. Até a rua, historicamente de esquerda, foi tomada pela direita».

    No trailer termina com Petra frustrada e resignada mas a resignação é somente sua.
    Petra ou quer nos confundir ou ela não entendeu nada: a posse do Lula não PARECEU um grande passo, FOI efetivamente um grande passo para a nossa democracia. Petra tinha 2 anos (dois) quando um dos mais importantes brasileiros, o grande Luiz Carlos Prestes, entrevistado no Roda Viva, recordou que um operário de talento de nome Lula sintetizara um processo numa frase que ficou escrita para sempre na história do Brasil: depois de dirigir três greves econômicas vitoriosas em 1981, Lula declarou que não bastava mais aumentar salário, era preciso mudar o regime; Para Prestes aquele foi um passo adiante na consciência da classe trabalhadora brasileira.

    Deve ter sido naquele exato momento histórico que os especialistas de Harvard deram início ao programa que culminou com a prisão de Lula e a resignação de Petra (que tinha apenas 1 ano (um) quando os milicanalhas impuseram as condições da “redemocratização” seguindo os ditames entre outros, de Samuel Huntington que lecionava também em Harvard e era conhecido como declarado defensor das instituições autoritárias (outro de Harvard foi Lincoln Gordon, embaixador no Brasil escolhido por Kennedy).

    Harvard conspira com elites estrangeiras para derrubar governos e líderes legítimos. Seus especialistas estudam o modo para destabilizar uma liderança politica e em seguida gerar o caos na economia de um país e por em prática programas que não ofereçam outra saída à população que não seja a de perder direitos e caminhar rumo à miséria. A classe politica aplica estes programas, os especialitas de Harvard corrigem onde for necessario e depois, cinicamente, dão palestras sobre lawfare (chegando ao ponto de pedir a substituição do Moro como fez o debochado John Comaroff, professor de Harvard). Isso também é denunciado no filme ‘Democracia em Vertigem’?

    Se as burguesias estadunidense e europeia aplaudirem esse filme ele pode ganhar um Oscar. Roberto Benigni fez um filminho banal com o titulo La Vita é Bella. Malandro esperto como ele, previu uma cena com um tank estadunidense liberando um campo de concentração alemão quando todos sabem (ou deveriam saber) que foram os soviéticos os libertadores. Essa falcatrua valeu-lhe um Oscar.

    • Parabéns pela análise precisa desnudando o discurso subliminar do filme.
      Eu percebi exatamente essa mensagem. Um discurso udenista (pseudomoralista) e simplório disfarçado com tintas de melancolia e de ódio contra o PT. No fim, um convite ao choro da impotência e à aceitação do “destino inexorável”, a ditadura.
      Uma forma sutil de dizer o que a direita, PSOL e Rede gritaram por tantos anos: “A culpa é do petê!”

      Não, Dona Petra! Lula não está preso por corrupção! ELE ESTÁ ENCARCERADO POR SER DO POVO E REPRESENTAR A SOBERANIA POPULAR!

  4. chorei ao ver o trailer, imagine vendo o filme,
    talvez pela percepção de que será difícil
    recobrar o que perdemos…

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