11 de junho de 2026

Guedes não abandona seu papel de vendedor de ilusões

Criou-se uma adaptação tupiniquim da chamada “fada da confiança” - que se transformou em motivo de chacota por economistas do mundo todo. É a lógica de que basta a confiança na solidez fiscal para tudo se resolver.

Os resultados do PIB, no segundo trimestre, não surpreenderam.

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Em relação ao mesmo período do ano passado, a indústria sofreu uma queda de 12,7%. Pior que isso, a queda foi amenizada pelas indústrias extrativas, de baixo impacto no emprego e na atividade, com 6,8% de crescimento. Considerada motor principal da economia, a indústria de transformação registrou queda de 20% em relação a um ano atrás., e de 17,5% em relação ao trimestre anterior.

Parte relevante dessa queda se deveu à enorme lentidão com que a equipe econômica enfrentou a crise econômica. Não criou ferramentas eficazes para levar capital de giro para as empresas, atrasou enormemente a distribuição da renda básica e a maior parte dos recursos liberados se destinou à compra pouco transparente de créditos bancários e à manutenção do nível de preço das cotas de fundos de investimento.

Como sempre vem acontecendo, desde que assumiu o Ministério, Paulo Guedes tenta contornar a ineficiência com frases de efeito.

Primeiro, tentou minimizar o desastre do PIB, com a ideia de que pertencia ao passado. Depois, apostou em uma recuperação em V da economia – ou seja, depois de uma queda profunda, uma recuperação rápida. Desde que assumiu, errou em todas suas previsões. E tentou dourar a derrota com explicações estapafúrdias, como a história de que a queda do PIB público mostrava o lado saudável do PIB privado – uma tolice teórica indesculpável.

Nos programas jornalísticos, analistas apostando em um crescimento robusto no próximo ano, se for aprovada a reforma administrativa. Mas como assim?

A ultradosagem de palpites que tomou conta do jornalismo televisivo, com todos sendo obrigados a comentar sobre tudo, acaba consolidando frases padrão para cada circunstância. E as frases são repetidas indefinidamente, pavlovianamente, sem a menor preocupação com as correlações da economia real.

Uma das mais inacreditáveis é a ideia de que basta uma reforma, fiscal, administrativa ou o que seja, para levantar a economia no próximo ano.

Ora, nenhuma reforma, por mais bem-feita – o que não é o padrão Paulo Guedes – irá ter a menor influência sobre a economia no próximo ano. Não trará nenhum impacto fiscal, nem financeiro, não mudará em um centímetro o patamar de demanda da economia, não terá o menor efeito sobre o capital de giro das empresas. Há que se ter um mínimo de noção de causalidade e de conhecimento sobre microeconomia e sobre a lógica das empresas.

O investimento depende de uma série de fatores objetivos: aumento da demanda, nível de ocupação da capacidade instalada, segurança quanto à estabilidade dos preços e do câmbio. Mas os dois pontos centrais são demanda e capacidade instalada.

Desde Joaquim Levy, repete-se o mesmo bordão: se houver reforma A ou B, o mercado vai se entusiasmar com o futuro e haverá a volta dos investimentos, mesmo que as medidas tomadas comprometam profundamente a demanda e, por consequência, a capacidade instalada.

O pacote Joaquim Levy aumentou os juros, travou o crédito, explodiu os custos de tarifas públicas e de câmbio e promoveu cortes drásticos nos gastos públicos. Em suma, seguiu todo o receituário para travar a economia, com um detalhe: esse receituário serve para enfrentar períodos em que o aquecimento da economia pode provar pressões de preço e nas contas externas. Ele aplicou o receituário em quadro totalmente diverso, de uma das maiores recessões da história.

Com a economia exangue, o governo Temer prosseguiu na mesma cadência. O baixo custo do financiamento de longo prazo do BNDES atrapalhava as operações concorrentes do mercado financeiro? Então, que se aumente os custos para tornar o mercado competitivo. O objetivo final – dinheiro barato para obras de infraestrutura – foi para o ralo, porque interessava apenas gerar negócios para o tal do mercado.

Paulo Guedes foi apenas o continuador desse desmonte.

Criou-se uma adaptação tupiniquim da chamada “fada da confiança” – que se transformou em motivo de chacota por economistas do mundo todo. É a lógica de que basta a confiança na solidez fiscal para tudo se resolver.

Qualquer investidor racional sabe que nenhum modelo de equilíbrio fiscal fundado exclusivamente em cortes de gastos será sustentável se atuar de forma pró-cíclica na economia. Se cai o nível de atividade, caem as receitas fiscais. Se se buscar o equilíbrio através de cortes nas despesas, o impacto será mais recessivo ainda, aprofundando a recessão e, consequentemente, promovendo novas quedas da arrecadação.

A recuperação da economia depende de medidas que atuem objetivamente sobre os gargalos do crescimento: aumento da demanda através de obras públicas; aval para operações de crédito para capital de giro das empresas; medidas que impeçam a destruição das empresas. E Guedes não tem nem convicção nem preparo para planejar e implementar essas medidas.

Por tudo isso, haveria uma recuperação lenta na economia, caso Guedes seguisse à frente da Economia. Provavelmente dançará antes, ou será apenas um ator secundário no novo governo que se desenha.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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14 Comentários
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  1. Edson J

    2 de setembro de 2020 7:21 am

    Ele trabalha única e exclusivamente para o mercado financeiro parasita, que o colocou e mantém no cargo. Como os interesses desse mercado são exatamente o oposto dos interesses de qualquer país, no caso do Brasil, estamos em enorme dificuldade. Isto porque o “presidente” vive de enrolar o povão, com “ajudas” e mentiras para tentar se reeleger, mas considera sagrado satisfazer os apetites do parasita, patrono de sua tomada do poder.

  2. Smaran

    2 de setembro de 2020 7:49 am

    Estão aparecendo anúncios enganosos nos artigos do GGN.

  3. Rafael Barbastefano

    2 de setembro de 2020 7:58 am

    Escolinha Paulo Guedes de economia…

    Austeridade Expansionista – reduza gastos públicos que o setor privado terá confiança em investir.
    Gotejamento – reduza custos de passagens, direitos trabalhistas, ou impostos dos ricos que o dinheiro irá fluir para os pobres.
    Deflação x Desemprego – qualquer redução da inflação é virtuosa, não importa o aumento do desemprego ou os gastos da política monetária.
    Queime reservas – reservas em moeda estrangeira só são importantes em governos de esquerda.
    Não existe investimento público – Estradas, portos, hospitais, escolas ou usinas sempre são gastos.
    Privatize, venda, doe, pague para levar – Não existe patrimônio público que preste. Perder é melhor que manter.

  4. Carlos Elisio

    2 de setembro de 2020 8:11 am

    A unica realidade que ele vende o pactual compra.
    Ops! Serei censurado?

  5. Evandro Condé

    2 de setembro de 2020 8:51 am

    Vejamos pelo lado bom, fazemos companhia à Austrália.

  6. naldo

    2 de setembro de 2020 9:56 am

    Reformas são traições à pátria e desrespeito á Constituição, a soberania do povo portanto…….os governos são eleitos para RESPEITAR a CF de seu país, não retalha-la conforme a vontade do governo de plantão, isso é DITADURA…..
    A Economia só serve se visar o bem estar do cidadão, e do país como um todo, quando visa apenas enriquecer parasitas, abutres, canalhas e larapios de toda ordem é roubo institucionalizado, e seus mantenedores, simplesmente, assasinos economicos…..
    Essa horda televisa são lacaios do mercado, o povo e suas necessidades não importam para a escumalha de paleto…a rede golpe conta com essa galerinha do mal para construir a narrativa da reforma administrativa e passar o trator, são tão patéticos, para qualquer assunto economico enfiam a tais reformas como o remedio para todos os males……..

  7. ALMIR DORLEI TURRI

    2 de setembro de 2020 10:09 am

    Nassif, veja se isto faz sentido. Sempre que falar do “mercado”, acrescentar “financeiro”. Mercado financeiro. Que é quem dá as cartas a tantos anos. Só “mercado” deixa a impressão para a maioria que se refere as forças produtivas do país, indústria, comércio, serviços, agropecuária, etc. quando todos sabemos que não é o caso. Alguém tem de começar e talvez todos os jornalistas sérios com o tempo passem a se referir assim. Então quando os apresentadores do JN e das outras TVs (e seus respectivos jornais) disserem que o mercado isso, o mercado aquilo, a maioria terá noção que estão defendendo os interesses exclusivos do sistema financeiro.

    1. C.Poivre

      2 de setembro de 2020 11:29 pm

      Ditadura do mercado financeiro internacional, define melhor ainda.

  8. alfredo machado

    2 de setembro de 2020 11:05 am

    Nassif,
    Em minha opinião, PGuedes “não está nem aí” para os críticos de sua impressionante incapacidade para a função que ocupa.
    PGuedes, da sua cadeira de ministro atendeu, e como atendeu, ao grupo que possivelmente o domina e o sustenta no governo, a banca. Se o grande JBolsonaro não o indicou, até porque entre os dois existe um diálogo de surdos, não me parece tão difícil imaginar de quem PGuedes é marionete, marionete de luxo.
    O que ele faz com as reservas criadas pela guerrilheira é o cúmulo, mas parece grande mídia não sabe do desastre que a marionete vem cometendo. Agora, o pilantra resolveu dar 300 reais por mês para os que mais precisam, que equivale a menos de seis horas do seu salário como ministro, este modelo pode ser considerado como o pacto justiça social.
    Quando entrou, 99% dos brazucas não o conhecia, e quando sair ninguém o incomodará, porque o brasileiro é bonzinho. A figura deveria estar na mesma cela de DDallagnol, por crime de lesa-pátria.

    1. Naldo

      2 de setembro de 2020 12:19 pm

      O tchutchuka é banqueiro, portanto, é a raposa cuidando do galinheiro….o “seo” Nassif diz que esse senhor faz as patacoadas por incompetência, não faz, faz por interesses de seis pares do rentismo podre, foi imposto ao coiso pela banca em troca do apoio pelo.golpe……..

  9. Sidnei

    2 de setembro de 2020 12:46 pm

    Ele não pode dizer:
    – eu vim aqui para “grampear”!
    Então ele conta lorotas.

  10. Wilson Ramos

    2 de setembro de 2020 2:24 pm

    Do jeito que os economistas estão trabalhando, com seus palpites malandros tão ao gosto do mercado financeiro, não demora perdem o emprego para os psicólogos. Afinal, quem está em melhor condição para detectar níveis de confiança, já que a fadinha ninguém conhece?

    Se existe alguma racionalidade na pressão por ajuste fiscal onde o ambiente fiscal está destruído, só pode ser sacanagem enrustida em conselho de especialista. Os juros da dívida pública já não atraem mais com seus exuberante dois dígitos antes do PT dar jeito na trajetória da dívida. Talvez destruindo o sistema até a inadimplência, os “juristas” possam novamente “trabalhar” com rendimento altíssimo e risco soberano.

  11. marcio gaúcho

    2 de setembro de 2020 3:45 pm

    Paulo Guedes é uma pessoa mau caráter e mentirosa. Basta observar a sua testa franzida o tempo todo, seu olhar infinito, a sua caspa caindo na gola do paletó e a gordura sebosa a correr pelo seu rosto. Cara-de-pau lustrada a óleo de peroba!

  12. J.marcelo

    2 de setembro de 2020 7:08 pm

    Guedes é mais um herói da mídia tradicional,tenho certeza q ele quer o melhor para o Brasil,todo mundo com dinheiro no bolso,para não precisarmos(povo,empresa,governos) de pegar dinheiro emprestado no seu banco ou de seus amigos,é só RETOMAR AS REFORMAS Q CRESCEREMOS UM MILHÃO%,os investidores pedirão pelo amor de Deus para investirem aqui,pode acreditar !!
    Obs: Estão desestruturando o País,setores estratégicos p o desenvolvimento do Brasil sendo doados a empresários privados,Pergunto pq os militares permitem isso?São os grandes responsáveis,viraram as costas p a sua nação!!
    Obs2:No exterior sabem o q ocorre aqui,no andar da carruagem, EUA,Inglaterra, Rússia,China e França passarão a mão na bunda dos militares brasileiros e darão ainda um tapa na cabeça,este país não é sério,uma piada, tudo hipocrisia,fachada!

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