5 de junho de 2026

Política industrial e o coral das araras falantes, por Luís Nassif

Provavelmente é esse preconceito com o “antigo” que transformou esses pseudo-intelectuais em completos jejunos em histrória econômica.

Aí , o jornalista experiente olhou de soslaio a nova política industrial e fulminou: “é coisa antiga”. O jovem foca, vendo a segurança do colega experiente, chutou de bate-pronto: “‘é coisa velha”. A âncora do jornal começou, continuou e terminou com o diagnóstico único: “voltou-se ao passado”. E nada mais disse nem lhe foi perguntado.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

É um horror!, não há termo que melhor exprima esse show de preconceito e desinformação sobre políticas industriais. É possível uma gradação infinita de tolices, cujo lance final sempre será um artigo de Joel Pinheiro da Fonseca – de uma família que ajudou a construir o país, antes que a ignorância a dominasse.

Alguns desses sábios da luz do neon lilás atribuíram às políticas industriais a crise do governo Geisel, a suposta crise do governo Lula, o impeachment da Dilma, todos os fracassos nacionais.

O governo Geisel acabou não pelo 2o Plano Nacional do Desenvolvimento, mas pelo guru absoluto do mercado – o então Ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen – endividando o país até as tampas em cima de um sofisma: dívida não foi feita para ser paga, mas para ser rolada, o que seria um ótimo início de discussão se falasse em dívidas em moeda local. Mas era dívida externa.

Quando sobreveio o segundo choque do petróleo e o primeiro choque de juros, o país afundou – e o 2o PND nada teve a ver com isso. Com toda a crise dos anos 80, o país ingressou na democracia com a industrialização completa, uma industria de base sólida, outra de máquinas e equipamentos pujante. E tudo isso foi possível pela política de substituição de importações, pelo apoio dos planos econômicos, pelo financiamento do BNDES, pelos investimentos da Finep.

Aí o sábio banguela coça a barba rala e repete: “mas é coisa antiga”.

Todos os fatos históricos, por históricos, referem-se a coisas velhas. Provavelmente é esse preconceito com o “antigo” que transformou esses pseudo-intelectuais em completos jejunos em história econômica. Lessem um pouquinho, avançassem um mínimo além dos slogans de lacração, saberiam o que foi essa política velha.

Como reparou um velho amigo: “o tal Joel tem razão. Política Industrial é coisa velha. Presidiu o desenvolvimento industrial desde Alexander, Hamilton, os financiamentos do Banco na Inglaterra no século XVII e as aventuras de Otto von Bismarck no final do século XIX. Isso para não falar da nossa trajetória de industrialização e muito menos mencionar a escalada chinesa. Mas, é claro,  argumentam os sabichões da ignorância histórica: tudo deu errado”.

Há muito o que se cobrar dos planos da neoindustrialização. Há que se checar as metas apresentadas; quando houver mais detalhes, analisar os instrumentos acionados; analisar a interação entre os diversos ministérios e setores; avaliar a gestão do programa.

Fica combinado: quando ler um colega que limitou-se a dizer que é “coisa velha”, não o acuse de neoliberalismo, de agente do mercado e quetais. Trata-se apenas de um caso típico de arara falante.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Odenir

    24 de janeiro de 2024 9:29 am

    Sei que o Nassif é um excelente jornalista. Mas, poderia deixar ajudarem passando um simples corretor ortográfico. Sei que são meros erros de digitação, eu também faço muito isso. Quem sou eu pra dar conselhos, é só uma pequena observação.

  2. Henrique Oswaldo Massena Reis Júnior

    24 de janeiro de 2024 9:48 am

    Tem que mandar esse link para ela:

    https://iap.unido.org/articles/trends-global-industrial-policy

    Politica industrial voltou.

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    24 de janeiro de 2024 11:00 am

    O mais engraçado é que esse povo que supostamente detesta coisa velha no Brasil frequenta a feirinha de antiguidades embaixo do MASP adora viajar para a Europa a fim de visitar monumentos romanos. Se alguém vasculhar os Facebooks e Instagrans deles certamente encontrará lá muitas velharias, entre as tais as teses do Consenso de Washington que foram ignoradas pela China, Índia e pela Rússia, três países que tem crescido mais rapidamente que a União Europeia neoliberal.

  4. Ivani Euvedeira

    24 de janeiro de 2024 11:08 am

    Que delicioso artigo, bem escrito como sempre, e com uma dose extra de acidez pra não ficar enjoativo!
    Obrigada!😘

  5. Leo V

    24 de janeiro de 2024 11:22 am

    O que não é velho para eles é a cartilha neoliberal. Isso sempre é “modernização”.

  6. Luiz

    24 de janeiro de 2024 3:23 pm

    Tudo bem que araras façam barulho (palrar), agora confundi-las com papagaios é outra estória. Mas, deve ser carência do seu banco de imagens.

    Nos primórdios, por volta do início dos anos 80, aprendi com um antigo jornalista que deveria ler, ler e ler. E também aprender aritmética para não ficar com medo ou raiva dos números e das quatro operações.

    Depois, na universidade me dei conta que conhecer a Matemática estimula as ciências, a filosofia, o direito, o jornalismo, etc. Os donos da verdade no colunismo da mídia comercial tem medo de fazer continhas básicas e projeções. Simples assim. Daí, o grasnar das araras.

Recomendados para você

Recomendados