A desgraceira que cresce nas mãos de Meirelles e Temer, por Janio de Freitas

Jornal GGN – O articulista da Folha, Janio de Freitas, em sua coluna desta quinta-feira, faz crítica contundente às medidas apontadas por Henrique Meirelles e Michel Temer para futuro do país. Janio lembra que o ponto central já foi tentado pelo governo de Dilma Rousseff e foi considerado, por ela mesma, como o ano do desastre econômico, o fatídico 2015.

Janio fala dos cortes propostos por Meirelles e Temer e se assusta com a temeridade do montante, pois que um país precisa de investimento estatal para retomar o crescimento, caso contrário a que se incrementará será o desemprego e a violência. A saúde pública e a educação irão ladeira abaixo, contribuindo para os dois primeiros itens desse cenário sombrio. Leia o artigo.

da Folha

S.O.S., por Janio de Freitas

Um país com suas continhas orçamentárias bem ajustadas, dívida em extinção –e, pior do que estagnado, de volta aos níveis imorais de miséria, pobreza, desordem, ensino em retrocesso constante, saúde pública em coma terminal, indústria nacional desmantelada, desemprego e violência urbana. É o que se pode vislumbrar para os anos vindouros, se efetivadas as medidas que Henrique Meirelles e Michel Temer apresentaram –com o devido cuidado da imprensa para maquiar umas e encobrir outras– como pacote primordial da aventura que iniciam.

A medida central, que consiste em estabelecer um teto permanente para os gastos do governo, só aumentado na proporção da inflação anual anterior, traz para o país uma perspectiva fácil de se presumir.

Mesmo Dilma Rousseff reconhece, entrevistada para a revista “Carta Capital”, o desastre econômico que foi 2015. Tudo no Brasil se deteriorou com intensidade assombrosa. A desgraceira que cresce, a ponto de atingir o olimpo das empresas financeiras, é apenas a continuidade de 2015 (por favor, nada de dizer “o ano que não acabou”). Os serviços públicos estão em pandarecos, os investimentos desabaram, as universidades desmilinguem, tudo é assim. Apesar disso, o gasto contabilizado do governo no ano passado foi de R$ 1,16 trilhão.

A esse montante, um exercício de Gustavo Patu, na Folha desta quarta-feira (25), aplicou as medidas propostas por Meirelles sob o olhar um tanto vago de Temer. Constatação: o 2015 de Meirelles teria os seus gastos limitados a R$ 600,7 bilhões. Metade, pode-se dizer, do gasto realizado. Por mais que tenha havido desperdício de dinheiro público naquele trilhão, não há como evitar a conclusão de que a brutalidade do corte proposto para a nova política econômica só pode trazer ao país a degradação da degradação. Se com um trilhão o país está em estado deplorável, com gastos pela metade pode-se imaginar como estará.

Ou melhor, nem estará. O crescimento econômico depende do investimento estatal que o inicie e o estimule. A iniciativa privada no Brasil (e não somente no Brasil) é privada mas não iniciativa. Meirelles não se ocupou dos investimentos, na apresentação inicial do plano, porque nem era necessário: o teto do Orçamento, corrigido só pela inflação, já indica a exiguidade de investimento em proporções mobilizadoras e de interesse por tê-lo.

Por falar em nisso, Michel Temer comparou-se de raspão a Juscelino. Mas quem Temer faz lembrar é Collor com a combinação de loucuras e violência que aplicou como plano econômico. Não é inovadora, portanto, a complacência quase envergonhada com que a imprensa se faz colaboradora de Temer, como preço –autêntica liquidação de outono –de não ter o PT no governo nem o risco de Lula em 2018. Depois, lava-se a história, com ou sem jato. Mas o malabarismo praticado por muitos comentaristas oferece um lado cômico nessa história de salvar o salvador perdido.

Do cômico ao trágico: o corte proposto contra a educação é também contra os jovens de hoje e as próximas gerações de estudantes; o corte proposto contra a saúde é também contra as gestantes, as crianças e todos os carentes. Ambos são agressões ao espírito da Constituição e suas intenções de reparação social da nossa história de injustiças e perversidades.

A educação tem hoje, por garantia constitucional, ao menos 18% do arrecadado com impostos. A saúde tem garantia semelhante, em menor percentual. O plano Meirelles retira da educação e da saúde essa garantia de um mínimo que leve a ampliar e estender a educação, como se deu nas últimas décadas, e atenuar os problemas persistentes na saúde pública. Os valores ficarão congelados, com futuros acréscimos correspondentes apenas à fictícia correção pela inflação. Note-se que o ponto de partida, nesse congelamento, é o percentual deste ano de baixa arrecadação. Logo, educação e saúde já começam com perda substanciosa.

Contas certinhas (no diminutivo, sim, porque serão cada vez menores), que beleza. Para um futuro condenado sobre um presente caótico.

 

22 comentários

  1. O povo brasileiro está sendo

    O povo brasileiro está sendo vítima de um sequestro relâmpago (tomara que dure poucos meses) .

    Eu que já sofri sequestro ao sair do banco, posso afirmar que é uma sensação terrível, você tornar-se passageiro do seu próprio carro e acompanhar os delinquentes avançarem semáforos, abalroarem outros veículos, subir em calçadas etc…, e não poder fazer absolutamente nada .

  2. O crescimento econômico depende do investimento estatal…

    O crescimento econômico depende do investimento estatal, mas o investimento estatal depende do crescimento econômico, pois o Estado não produz riqueza, o Estado coleta impostos. Não é possível a longo prazo subsistituir o capital privado nacional, insuficiente, pelo capital do Estado, afinal, igualmente insuficiente, já que um provem do outro!

    No passado podia-se criar a ilusão de um Estado que produzia riqueza, isso na época de Vargas, de JK, quando a população era jovem e a carga tributária era baixa. Então podia-se hipotecar o futuro em prol do presente, emitindo moeda para cobrir os rombos do governo à custa da perda do poder aquisitivo da população, ou fazendo dívidas para serem pagas pelas gerações futuras. Hoje isso acabou. O Brasil agora é um país de alta carga tributária e população envelhecida, onde o jantar já foi vendido para pagar o almoço. Dilma bem que tentou repetir a mágica, mas a única mágica que conseguiu fazer foi desaparecer o seu mandato.

    Mas com uma frase eu concordo: a iniciativa privada no Brasil é privada mas não é iniciativa. Isso porque os empresários se acostumaram a viver à sombra do Estado. A fórmula do sucesso não é a qualidade do produto ou o preço competitivo, mas as boas relações com os círculos do poder. No fundo, o empresário brasileiro quer a volta dos tempos pré-capitalistas anteriores à abertura dos portos em 1808, os bons tempos do mercantilismo, quando não havia livre empreendorismo nem livre concorrrência, e todo e qualquer negócio só podia concretizar-se com a autorização (o célebre alvará) e o apoio do rei, que concedia monopólios a seus protegidos. É nesse ponto que o pré-capitalismo de nossas elites tradicionais têm um casamento perfeito com o anti-capitalimo da esquerda tupiniquim.

    De resto, o ilusinismo das palavras: invertendo causas e consequências, brada-se que a recessão e o desemprego são causadas pelas medidas de austeridade, quando é o oposto que acontece. E quando o país passa por uma conjuntura econômica favorável, brada-se que o sucesso se deva à bondade do governo “pai dos pobres”.

     

  3. Adam Smith considerado o pai

    Adam Smith considerado o pai do liberalismo econômico com seu manual intitulado a Riqueza das Nações certamente se remexeu no tumuloi ao ver seus escritos sendo mal interpretado pelo liberais da atualidade brasileira.Liberalismo, Neoliberalismo ou que valha vem a tona das idéias econômicas na America Latina.O que assistimos é um governo petista que acaba de fazer a mea-culpa e de um golpe contra a democracia que “recuperou o poder”. E percebam que “estamos” como bem vende nosso PIG como natural o golpe a 15 dias dele. Todos falam no novo-velhissímo governo Temer como algo “quase que natural”.Jornalistas que considerava com alguma indepedência como o Fernando Mitre da BAN vendem o governo Temer como legítimo.Grampos, audios, gravações A verdade, se é que ela está presente neste mundão é uma só: Temer e seus temerários vão aplicar a receita liberal o mais rápido possível. Vão “depenar” o país vendendo nossas empresas mpúblicas e privatizando o que puderem.É a receita do liberalismo.Adam smith que o diga. 

    • antes fossem liberais mas não são!

      Nossos Liberais não são liberais coisa nenhuma, usam o nome de Alan Smith porque lhes convem e é chamativo.

      Acredito que boa parte nunca leio qualquer coisa que seja sobre o Alan Smith. Nem o resumo do resumo!

      O que eles são: entreguistas com odio dos trabalhadores, indios, quilombados, as classes populares em geral,  e tudo que diga respeito a elas.

      Janio preciso como sempre!

       

  4. Nassif;
    Mais uma vez o Jânio

    Nassif;

    Mais uma vez o Jânio foi preciso e didático para os leigos como eu.

    Mas que colocará um basta nesta sanha entreguista e anti-povo? 

    Se não restar outra saída o uso da força pelo povo será legitimada.

    Não haverá outra saída.

    Genaro

  5. desgraceira que certamente

    desgraceira que certamente afetará a vida

    de milhões de brasileiros,

     

    se vida houver….

  6. Lanchas

    Gostaria que o articulista, versasse sobre o Sr. Raul Jungman, que nem bem sentou na cadeira e já adquiriu 8 bilhões em equipamentos para a “defesa”. Quantos equipamentos hospitalares quebrados ou em falta poderiam ser comprados?

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