Lula, o governo, a oposição, a mídia e a justiça

Jornal GGN – No começo da semana, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista coletiva para jornalistas estrangeiros. O encontro durou mais de duas horas e os correspondentes tiveram que obedecer a um período de embargo antes de poderem publicar suas versões. Depois, o áudio da coletiva foi disponibilizado para a mídia nacional, de onde o GGN tirou a sua própria apuração.

Durante praticamente toda a primeira metade do encontro, Lula falou sobre o legado do seu governo para o Brasil, a crise política e econômica, o combate à corrupção nas gestões do PT, a tentativa de impedimento da presidente Dilma Rousseff, as investigações sobre ele na Operação Lava Jato e os motivos que o levaram a aceitar um cargo no governo.

O ex-presidente disse estar otimista de que o Brasil vai encontrar uma saída democrática para a crise entre os poderes. Ele se definiu como o mesmo “Lulinha Paz e Amor” e garantiu que não se ofende mais com a imagem que a mídia constrói dele.

Mesmo assim, demonstrou preocupação com a espetacularização dos trabalhos da justiça, “Não é a manchete de um jornal que tem que absolver ou condenar alguém. O que tem que absolver ou condenar alguém são os autos do processo. É necessário fazer disso um espetáculo? É necessário fazer disso um Big Brother?”, questionou.

Lula garantiu que a saída para a crise passa pelo fortalecimento do ambiente político, não pela sua destruição. “Eu sou um político, acredito na política, acredito no bom senso dos políticos. Eu acredito que os deputados, os senadores, que estão discutindo agora o impeachment, vão começar a perceber que eles podem cometer um erro histórico. Eu acho que as pessoas vão fazer uma reflexão. Se eu puder conversar com eles, eu vou conversar”, disse.

Revolução social sem conflito: o legado de Lula, por Lula

O ex-presidente começou a coletiva de imprensa falando sobre o que ele acredita ter sido o grande sucesso do seu governo: o combate à desigualdade social e a inclusão dos mais pobres no processo democrático.

Nós conseguimos fazer com que o Brasil realizasse uma revolução social sem um único tiro, apenas exercendo a democracia ao limite máximo. Nós conseguimos criar a ideia de que esse país não era governado por um presidente, mas pelo conjunto das forças vivas. Eu lembro que uma vez perguntaram para mim qual seria o grande legado que eu ia deixar quando saísse do governo. E eu disse que era a relação entre o Estado e a sociedade”, lembrou.

Lula falou, então, sobre os esforços empreendidos para “elevar 40 milhões de pessoas a um padrão de classe média, tirar 36 milhões da miséria, gerar 22 milhões de empregos, colocar em 12 anos a mesma quantidade de jovens na universidade que foi colocada em um século”.

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O ex-presidente disse que o passar dos anos o deixou mais calmo, e que ele está vivendo outra vez o período de “Lulinha Paz e Amor”. “Eu sou filho de uma mãe analfabeta e o patrimônio mais importante que ela deixou para mim foi o direito de andar de cabeça erguida”, disse. “Até as coisas que as vezes parecem ofensivas já não me ofendem como as pessoas acham”.

Para Lula, o povo brasileiro aprendeu que ter direitos significa exercê-los plenamente. “Houve um tempo nesse país que se achava que democracia era só ter direito de gritar que estava com fome, era só ter direito de gritar que queria estudar, era só ter direito de dizer que queria ter direitos. Hoje não. As pessoas não querem apenas ter o direito, as pessoas querem comer, querem estudar, querem ter acesso à cultura, querem ter acesso ao lazer, querem trabalhar, querem ter oportunidade. E isso é conquista delas”.

O inconformismo dos derrotados e o acirramento da crise política

Lula disse que não deve existir ninguém que perdeu tantas eleições quanto ele. “Eu perdi em 82 para o governo, 89 para presidente, 94 para presidente, 98 para presidente”, lembrou. E que a inabilidade da oposição de aceitar os resultados das urnas é um fator importante para compreender o acirramento da crise política e a consequente inabilidade do governo de superar a crise econômica.

“Depois da eleição, me parece que a oposição resolveu não permitir que a Dilma governasse o Brasil”, afirmou. “Para que um país possa funcionar corretamente, é preciso que tenha tranquilidade, é preciso que o governante possa pensar no futuro, possa trabalhar o futuro, não fique preocupado em sobreviver dia a dia. É uma sangria todo santo dia e com apoio de uma parte da mídia brasileira que corrobora para que o clima de ódio fique estabelecido nas ruas do país”.

No entendimento do ex-presidente, o clima de insatisfação prejudica qualquer retomada. “Nesse clima é mais difícil você pensar na economia, nesse clima é mais difícil você pensar no futuro, nesse clima é mais difícil você planejar estrategicamente o que você quer para o Brasil para os próximos anos. Porque nesse clima cai a capacidade de arrecadação do Estado, cai a capacidade e a coragem de investimento dos empresários, cai a capacidade de arrecadação dos municípios e estados. Os bancos começam a ficar com dinheiro no cofre ou comprando título do governo, porque não querem colocar crédito, fazer investimento, fazer empréstimo. E a economia vai ficando paralisada”.

Para Lula, a oposição tem seu papel, e deve exercê-lo, “o que não pode é tentar encontrar pretextos com falsos argumentos para encurtar o mandato de quem ganhou as eleições”, disse. “Impeachment sem base legal, sem crime de responsabilidade, é golpe. Essa é a palavra correta. O que está se tentando fazer neste país neste momento é encurtar o mandato da presidenta Dilma Rousseff através de um golpe”.

O ex-presidente pediu que os derrotados nas urnas tenham “a mesma paciência que eu tive”, e que não busquem atalhos para chegar ao poder. “Porque a democracia que vai garanti-los chegar lá é a mesma democracia que vai garanti-los exercer o mandato”.

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As indicações de procuradores, os investimentos na PF e o combate à corrupção

Lula falou sobre o compromisso do seu governo e do governo Dilma com a transparência e o combate à corrupção. Lembrou que foram eles que criaram o Portal da Transparência e a Lei de Acesso à Informação. “Qualquer um de vocês pode ter acesso a qualquer informação do Palácio. Às vezes até àquela que deixa a gente chateado, vocês têm acesso. E a imprensa vende como se fosse uma novidade, uma descoberta, quando na verdade está escancarado por nós”, afirmou.

O ex-presidente disse que sempre respeitou as indicações do Ministério Público para procurador. “Eu nunca quis saber se o procurador era bonito, nunca quis saber se o procurador era católico, nunca quis saber se o procurador era corintiano. A única coisa que eu queria saber é que ele vinha indicado pelos membros da corporação”.

E garantiu que “em nenhum momento da história” a Polícia Federal teve tantos investimentos em inteligência e contratação de agentes. Porque “a democracia só se garante se você tiver instituições fortes que possam, inclusive, brecar qualquer ímpeto de qualquer governo autoritário”.

Os abusos de autoridade de um poder judiciário vaidoso

Porém, “quanto mais forte é uma instituição mais responsáveis devem ser seus membros”, acredita o ex-presidente. Por isso, para que o próprio judiciário não acabe se tornando um poder autoritário, é essencial que seus representantes não se entreguem à luz dos holofotes.  “Não é a manchete de um jornal que tem que absolver ou condenar alguém. O que tem que absolver ou condenar alguém são os autos do processo”.

Lula entende que é importante para a sociedade brasileira observar que homens ricos e poderosos também são punidos no rigor da lei, “É importante que esteja sim apurando corrupção, é importante que a gente investigue quem pegou dinheiro, é importante que a gente investigue quem roubou. Agora, é necessário fazer disso um espetáculo? É necessário fazer disso um Big Brother? Ou isso pode ser feito de forma silenciosa?”, questionou.

“De repente eu vejo a quantidade de acusações e acusações e acusações. E as pessoas não precisam ter provas, é só acusar. Já estamos vivendo uma situação em que primeiro você escolhe o criminoso, aí depois você vai carimbar os crimes que você quiser nas costas dele”.

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Ministro da Casa Civil? “Deixem a Dilma trabalhar”

Por fim, o ex-presidente Lula falou sobre os motivos que o levaram a aceitar um cargo no governo. “Desde agosto que a presidenta Dilma me convida para ir para o governo. E eu sempre disse que era impossível, não era minha praia. Eu achava que não daria certo ter dois presidentes dentro do Palácio. E fui recusando até que ela falou para mim: ‘eu preciso de você para a gente recuperar o nosso país’”, contou.

Lula disse que não queria ser ministro, preferia coordenar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. “Para exercitar aquilo que eu mais sei fazer na vida, que é conversar. Conversar com a sociedade para mostrar que ela tem responsabilidade com o futuro desse país”.

O ex-presidente afirmou que continua a acreditar no potencial do mercado interno brasileiro, e que é possível recuperar parte da economia garantindo crédito para o consumo.

Além disso, outra parte importante seria garantir o financiamento para obras de infraestrutura. Para ele, um país com as reservas do Brasil não precisa de muita ajuda externa para dar a volta por cima. “Esse país tem capacidade de endividamento, nós temos US$ 360 bilhões de reserva”.

Lula garantiu que a saída para a crise passa pelo fortalecimento do ambiente político, não pela sua destruição. “Eu sou um político, acredito na política, acredito no bom senso dos políticos. Eu acredito que os deputados, os senadores, que estão discutindo agora o impeachment, vão começar a perceber que eles podem cometer um erro histórico. Eu acho que as pessoas vão fazer uma reflexão. Se eu puder conversar com eles, eu vou conversar”, disse.

“Eu não posso conversar agora porque me cassaram o direito de ser ministro”, continuou. “Eu saí da Avenida Paulista, daquele ato maravilhoso, ministro, quando desci do carro não era mais ministro. Foi a temporada mais curta em um ministério”, brincou.

E fez um apelo à oposição: “Deixem a Dilma governar o país. Permitam que essa mulher tenha tranquilidade para governar. E deixem ela ser julgada quando terminar o seu mandato. Se ela for mal, vocês vão eleger os seus candidatos e não tem nenhum problema, nós vamos respeitar e a democracia continua. Mas não tentem cortar a democracia pela metade porque não existe meia democracia”. 

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12 comentários

  1. PSDB acusa o PT de desejar

    PSDB acusa o PT de desejar montar um esquema para continuar no poder, tirando a população da fome e da ignorância. Mas o PSDB mantem-se no governo de São Paulo a mais de uma década, roubando… e nada se fala. Inclusive utilizando do Ministério Público daqui para investigar Lula e o PT. Não deixando outra saída, o golpe contra o povo.

  2. Governador Rollemberg não deixa ônibus ir pra manifestação

    Acabo de ler no Twitter: “O governador do DF, rollemberg SITIOU BRASÍLIA! Engarrafamento monstro nas estradas de acesso”

  3. marketing

     Acho que o governo petista trabalha mal o seu marketing , há uma má comunicação de suas conquistas com o povo, se houvesse uma linguagem(propaganda) mais fácil do povo entender o povo estaria do lado do governo, não adianta ficar falando que 40 milhoes de brasileiros subiram um degrau, que a elite quer derrubar o governo, para o povo isso é conversa de politico mas acho que o povo entende melhor assim: faça comparaçoes na sua propaganda, por exemplo compare quantas casas populares esse governo fez com os outros, compare que a PF fez 06 operaçoes por ano no governo FHC e no PT 400 por ano,coloque o pagamento do FGTS, coloque que antigamente não existia SAMU e hoje é um sucesso no Brasil inteiro,coloque quantas universidades foram criadas e quantos alunos da rede publica estão estudando etc, tem material riquissimo pra explorar e finalmente trabalhador tem ficar do lado de trabalhador e não de patrao(direita).

    • Devemos dar mais dinheiro para a GLOBO?

      Vc fala em fazer mais propaganda e vai no sentido contrário de tantos que dizem queo Governo deve cortar as verbas que vão para as quadrilhas detentoras de concessões públicas instaladas no país.

      Na verdade, eu considero que, se houvesse um sistema de comunicações plural e equilibrado, um Governo que tem o que mostrar, como no caso em comento, não precisaria investir um centavo em propaganda, porque os fatos estão relatados nos próprios portais de transparência e em tantos outros portais públicos. Os jornalistas só teriam o trabalho de consultar a rede e publicar as matérias que quisessem. Não fosse o cartel midiático um partido político a serviço de interesses do Mercado, estranhos ou contrários, em sua maioria, aos interesses do povo brasileiro.

       

  4. LULA: O maior personagem histórico do Brasil

    Na minha opinião, o SR. LUIS INÁCIO LULA DA SILVA personifica a maior liderança política da história do Brasil.

    É um privilégio ser contemporâneo deste homem que a cada dia transcende à condição de mito.

    LULA NÃO É APENAS PARA 2018, LULA É PARA SEMPRE!

  5. Se houvesse no brasil

    Se houvesse no brasil (minúsculo) meia dúzia de jornalistas na dita grande mídia; se houvesse, pelo menos, dúzia e meia de políticos na acepção do termo; se houvesse, assim, uns 50 a 60 pessoas que pensassem o país de forma objetivamente conclusiva, com certeza, essa patacoada teria acabado há tempos. No entanto, o que vemos? Uma justiça prepotente e dona da verdade (sua verdade) em primeiro grau e tribunais superiores (argh) acovardados até o dedão do pé. Por que digo isso? Ora, se o tal juiz disse que errou (confessou que errou), como não tomaram nenhuma medida administrativa (pelo menos) contra ele? Era para ter sido afastado de imediato – mesmo que após a confissão. Se o tal presidente da câmara de deputados é reu em processo criminal, como pode continuar no exercício da presidência e das funções parlamentares, encabeçando um golpe de estado? Se o tal mpf fosse a seriedade que transpira em discursos inócuos, os sonegadores zelotianos estariam presos, mas, no entanto, estão a investigar a família toda do Lula, mesmo que, contra eles não haja nenhuma denúncia eou fato tipificado. Então, se houvesse 1% de ética e moral nos tais renans, acunhados, e-quadrilhas, simons, stfes e o escambau, com certeza o país poderia ser Brasil.

  6. É LULA

    É LULA LÁ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Mas nem eu sei se esse mostro é capaz de desentortar tanta porcaria. Vamos com nosso líder até o fim e seja o que Deus quiser.

  7. não existe oposição, o que temos são traidores da pátria!

    cada dia que passa eu sinto mais nojo desses traidores.

    mas felizmente eu aprendi com meus amigos coxinhas, que é possível ser feliz numa república de bananas, é só parar de pensar!

  8. + comentários

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