A bandeira do Brasil, por Urariano Mota

Da infância, lembro que o dia da bandeira se transformava em um desenho nos cadernos. As melhores cópias do modelo estampado nos livros ganhava nota 10.

Agência Brasil

A bandeira do Brasil

por Urariano Mota

Neste 19 de novembro, devíamos comemorar o dia da bandeira nacional. Devíamos, devemos ou deveremos?

“Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil.
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!”

Assim canta o hino à bandeira. Mas amor não é dever. Não é sentimento compulsório. Nestes dias de fome e angústia pela destruição de tudo no Brasil, o afeto à bandeira se encontra mesmo encerrado, trancado e preso. Na realidade, o dia da bandeira jamais possuiu popularidade amorosa além dos quarteis e escolas militares. Acredito até que nem ali. Nas solenidades, se cumpre um dever, que ali possui o nome de afeto.   

Da infância, lembro que  o dia da bandeira se transformava em um desenho nos cadernos. As melhores cópias do modelo estampado nos livros ganhava nota 10. Mas o quanto fomos educados para a burrice e para a repetição, para o desenvolvimento da memória mecânica! Na educação que recebíamos, e recebemos, não se premia a originalidade. A melhor nota é para o que se repete, e quanto mais fiel ao modelo, mais aprovação. Por que não se estimulava ou se estimula a compreensão diferente, o caminho divergente, a nova visão? Por que a bandeira do Brasil não podia nem pode ser criada no verde da cana e no amarelo da polpa da manga? Não, a bandeira era, é aquilo, do país, de pais, de paz e de pás forçadas. Então, desenhávamos bandeiras iguaizinhas ao vazio verde e amarelo, com estrelinhas, das quais nem sabíamos a origem do Cruzeiro do Sul. Os menos habilidosos cobriam com um papel de seda o original e cobriam os contornos das linhas, que marcavam adiante numa folha em branco. Depois, a maior originalidade era colorir: verde, amarelo, azul e branco! Afeto encerrado e encerado.

Na ditadura, a bandeira ganhou outro significado. Para os militantes socialistas, dar bandeira era despertar o inimigo, dar na vista, denunciar-se, chamar a repressão. E para não dar bandeira, éramos forçados a virar “patriotas” no sentido dos ditadores. Assim como aconteceu em 1970, no Bar Savoy, durante a final da Copa do Mundo. O nosso amigo Spinelli esbarrou sem querer num popular, que por sua vez tinha outro amigo popular, forte como um touro, largo como um guarda-roupa. E que veio intervir.  

Conta a história que Spinelli olhou de cima a baixo, e da direita para a esquerda o homem-guarda-roupa. Sabemos nós, à distância, que os manuais de filosofia ensinam que só se deve correr quando houver possibilidades de espaço e circunstância. Mas o que não se encontrava em nenhum manual, nem nos melhores livros, foi a resposta de gênio que achou o nosso amigo, naquela hora de angústia, agonia, desespero e aflição. Acreditem e creiam, porque em pleno intervalo do jogo final da copa do mundo, o nosso amigo gritou, com os braços erguidos e levantados:

– Viva o Brasil!

O amigo pugilista do popular, espantado com aquele golpe baixo, de gênio, reagiu como bom patriota. Abraçou o novo amante da bandeira nacional:

– Viva! 

O certo é que para nós, do Recife, a bandeira amada sempre foi, é a bandeira de Pernambuco. Dela não largamos nem durante o carnaval. No Marco Zero, muitos foliões se fantasiam, cobrem o corpo com a bandeira do estado. Mas esse afeto vem de mais longe, da Revolução Pernambucana de 1817. A bandeira de Pernambuco foi criada antes da independência para ser a bandeira do Brasil sob um regime republicano. E vai além do carnaval. Falam até mesmo, em mais de uma pesquisa, que é a mais bonita do Brasil, mais linda e patriótica que a bandeira brasileira. Em dúvida, olhem  

Essa é a bandeira agitada no ar, nas arquibancadas de estádios de futebol, por torcedores pernambucanos de qualquer time, Sport, Santa Cruz ou Náutico, por todo o Brasil. Uma bandeira que é de todas as torcidas, de todos pernambucanos no mundo. 

E para concluir, a ordem hoje manda que ao meio-dia as bandeiras do Brasil inservíveis, rasgadas ou descoloridas, devem ser incineradas em cerimônia. Mas qual deveremos pôr em seu lugar? – A bandeira que desejamos ser nossa, depois deste maldito governo. Esta, que buscamos dos versos de Olavo Bilac:

“Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira,
Pavilhão da Justiça e do Amor”

Cantada no mais íntimo e público dos brasileiros. *Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/a-bandeira-do-brasil/

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1 comentário

  1. Ainda bem que alguns podem dar o testemunho da Escola Brasileira numa época que se aprendia, desde a Alfabetização ate o Patriotismo, Respeito, Consciência, Moral e Cidadania. Escola que formou entre tantos Machado ou Bilac ou Rui Barbosa ou Mario de Andrade ou Suassuna. Ainda um resquício da 1.a República, antes de ser contaminada por MEC e finalmente deteriorada pelo empobrecimento ideológico de Freire, das Bocas de Fumo em suas portas ou de Alunos transformados em Criminosos, usando de violência até contra seus Mestres. “Nosso melhor período” a partir de 1930, mas principalmente a partir de JK e Jango. Os Exemplos Brasileiros Maiores são sempre deste Período anterior à tragédia: 1.a República, República Paulista. Bilac esta aí como a própria Bandeira Nacional. Inigualável e Insuperável. Devemos sim comemorar a Bandeira Nacional. Representa uma época onde o Brasil era cabeça e não rabo. Vanguarda da Humanidade. Representa a Nação onde foi produzida pela Sociedade Democrática que produzia também Olavo Bilac. Não é coincidência. É consequência.

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