Algumas coisas que eu sei sobre Ignácio de Loyola Brandão, por Marcia Denser

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Algumas coisas que eu sei sobre Ignácio de Loyola Brandão

por Marcia Denser

Ele está lançando um novo romance esta semana Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela (Global Editora, 376 pp, R$ 59) na livraria Cultura – onde jurei não pisar mais nem para salvar a vida – portanto, em cujo lançamento provavelmente não irei porque afinal, está ficando tarde. Ora, quem se importa?

Será que ele me permite uma inconfidência? Em 2007, ao tomar posse na Academia Paulista de Letras, Ignácio me manda um e-mail sedutor, convidando para a cerimônia e para “não deixá-lo sozinho naquelas escadarias” ou algo assim. Descontando o charme – porque o Ignácio adora jogar charme (sorry, meu chapa) – claro que eu iria, querido Ignácio velho de guerra.

Mas sei lá, na véspera acabei esticando na noite donde que, dia seguinte, curtindo uma ressaca tremenda, sem contar a viscose mental, me desculpei, não fui. E pela primeira vez desde que nos conhecemos (e lá se vão quarenta anos) Ignácio bronqueou comigo, por escrito. Cruzes, então não era charme!

Discreto, talvez tímido, inescrutável até às vezes, Loyola pode ser um bocado imprevisível. Ele nos surpreende. Recuando no tempo, eis a mais remota lembrança que tenho dele (e também a primeira impressão definitiva): o ano é 1977, eu acabara de lançar meu primeiro livro, Tango Fantasma, na época ele era, além de escritor já consagrado, editor da revista Lui (cuja redação ficava na Avenida Paulista esquina da Augusta, vizinha de porta da Status, editada por Gilberto Mansur) e sem mais aquela, sem me conhecer, ele publica uma nota a respeito do livro cujo efeito foi fulminante: vendeu 300 exemplares no dia seguinte!

O que ele escreveu? “Este não é apenas um livro de contos, é toda a sabedoria sexual de uma mulher concentrada em 108 páginas!” Na mosca. Bom, o fato é que a “mulher” em questão só tinha vinte e seis anos, não era nada sábia, antes duma imaturidade e incultura abissais! Claro, como aquela garota poderia entender que Ignácio não se referia a ela mas à escritora? Aliás na época, eu estava mais para Pítia de Delfos do quê escritora propriamente, era gás puro!

Mas com uma perspectiva de 40 anos, inevitavelmente acabamos avaliando a vida e a obra dos companheiros e freqüentemente o resultado é inesperado: obras & carreiras literárias consideradas vitoriosas nas décadas de 70 e 80, chegam em 2018 esquecidas, sem relevância, atualidade ou importância, enquanto outras crescem e se afirmam com a passagem do tempo – que não passa em vão – e este é o caso do Loyola, que cresceu aliás por outras razões que não as apontadas pela crítica acadêmica que não menos inevitavelmente privilegia o estudo do romance, relegando a produção de contos e crônicas ao limbo de opus menor .

Não que Ignácio não seja excelente romancista – seu Zero goza de estatuto único em nossas letras, não só por difundir e aprimorar a técnica ensemblage do romance-mosaico, mixando linguagem literária e jornalística (cuja referência seria John Dos Passos), como também pelo fato de ter sido publicado primeiro no exterior, no caso pela Feltrinelli na Itália, o que faz de Zero, quer por seu percurso intratextual, quer intertextual – sua singular trajetória editorial – uma verdadeira aventura.

Eu já disse em outra parte que não é preciso escrever muito livros mas escrever algo representativo que faça toda a diferença, que cumpra a missão de ferir o imaginário de sua época, deixando uma marca indelével nos corações, mentes e textos das gerações posteriores.

É isso que está ocorrendo com a obra de Ignácio de Loyola Brandão e o próprio Ignácio himself, biografia e bibliografia informando o mesmo comportamento estético-existencial.

Ultimamente, me fisgo re-len-do Loyola, cronista de viagem de O Verde Violentou o Muro, Cuba de Fidel ou Loyola de São Paulo S/A em As Melhores Crônicas (Global, 2004), que é quando ele se faz mais íntimo, sedutor, realmente se abre (se abre mesmo? impossível saber!), capturando a cumplicidade incondicional do leitor, um texto que permanece em nós como “o romance fragmentado de uma vida” – mais por ser romance do que por ser vida simplesmente –  que de ambos este Ignácio, cronista, é um mestre.

Ultimamente certos contos dele novamente me surpreendem como Obscenidades para uma dona-de-casa ou Um tiro certeiro: se o conto é uma obra de arte, sobretudo uma obra de precisão, o Ignácio é um artista consumado. Que melhora com o tempo. Como tem que ser em literatura: uma arte depurada.

Algo em Loyola me lembra Georges Simenon que, quando questionado sobre quando escreveria seu grande romance, respondeu: “Eles não compreendem. Jamais escreverei um romance longo, meu grande romance é o mosaico formado por todas as minhas pequenas novelas – e, erguendo o olhar – o senhor percebe?”.

Como o mosaico (o padrão, não?) celestial formado por todas as suas pequenas crônicas,

Inesquecivelmente, Márcia Denser

 

4 comentários

  1. Comentário sobre o texto

    Marcia,

    Você foi perfeita: concordo com tudo que disse sobre Ignacio! Ele realmente já tem uma “grande” obra!

  2. Ignácio Loyola Brandão
    Reli estes dias Não verás país nenhum. É absurdamente atual. É um grande escritor!

  3. algumas coisas que gostaria de saber a opiniao do ignacio loyola

    Mulheres que vivem na completa miseria, com baixa escolaridade e que são agredidas e traidas pelos maridos; DEVEM SER CHAMADAS DE COVARDES E COBRADAS A TOMAREM UMA ATITUDE; e mulheres como dona Ruth Cardoso, ex primeira dama esposa do ex presidente Fernando Henrique Cardoso; de familia rica e com diploma de curso superior; DEVEM SER TRATADAS COMO EXEMPLO DE MULHER DE FIBRA, POR TER RELEVADO AS TRAIÇÕES DO  SEU MARIDO, fernando Henrique Cardoso,  E MANTIDO A FAMILIA CONSTITUIDA HA MAIS DE 50 ANOS DE MATRIMONIO? – Por tal atitude, semelhante A DA HILLARY CLINTON, QUE TAMBÉM TEM A MESMA FORMAÇÃO ACADEMICA E A MESMA CONDIÇÃO SOCIAL; seriam mais EXEMPLOS DE MULHERES DETERMINADAS, do que: A DILMA, A DONA MARISA LETICIA E TODAS ESSAS MULHERES BRASILEIRAS TIVERAM UM GRANDE AVANÇO PROTECIONAL COM A LEI MARIA DA PENHA, MAS NÃO TÊM O AMPARO DA JUSTIÇA PARA GARANTIR AS SUAS SEGURANÇAS? -Que tal então, caso não tenha a resposta, FAZER UM FILME SOBRE A DONA RUTH CARDOSO, para através da bilheteria ter uma noção das respostas?

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